Reportagem Especial

Especial Segurança Pública - As armas que abastecem o tráfico no Brasil (09' 21")

01/11/2005 - 00h00

  • Especial Segurança Pública - As armas que abastecem o tráfico no Brasil (09' 21")

Segundo dados da Polícia Federal, em 2004, foram apreendidas mais de 21 mil armas de fogo de origem ilegal. São armas que vem do exterior, sem registro e que abastecem o tráfico no Brasil. Este ano, os números aumentaram. Foram cerca de 63 mil apreendidas até setembro. O chefe da Divisão de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas da Polícia Federal, Vantuil Cordeiro, disse que é preocupante o número de armas que estão entrando no país, mas ele garantiu que a polícia está trabalhando para combater o tráfico. Cordeiro disse ainda que a corporação está desenvolvendo políticas para ajudar a diminuir o acesso de armas a bandidos. No entanto, uma preocupação do Chefe da Divisão de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas, é a participação de policias no contrabando das armas.

"Mais de 80 por cento dos crimes cometidos no Brasil na irregularidade do comércio de armas de fogo, ilícito e até na importação, tem um policial ou mais ou ex. policial envolvido nesse tipo de crime. Infelizmente parece que puxa essa questão de já ter o contato com armas... É um conjunto de fatores. As pessoas que vão para as (fileiras) elas não tem aquele salário que almejava, aí busca um viés para conseguir um bico, ou até pela própria ganância de buscar lucro, parte para um comércio irregular ,daí pratica esse comércio ilícito"

Na Câmara, foi criada este ano, uma CPI para investigar o Tráfico de Armas no Brasil. A comissão realiza diligência nos estados e faz audiência com pessoas suspeita de envolvimento com tráfico. No mês passado, a CPI ouviu o ex- policial civil, Hélio Scielzo Brunet. Ele foi preso em julho deste ano acusado de desviar armas e munições da Polícia Civil do Rio de Janeiro e vendê-las a bandidos daquele estado. Brunet foi chefe durante 16 anos do depósito de armas e munições da polícia carioca. O ex-policial não admitiu participação no tráfico, no entanto, disse que muitas armas saiam da repartição apenas com pedido verbal. O presidente da CPI, deputado Moroni Torgan, do PFL do Ceará, ressaltou que o papel dos policiais é combater o crime, e não pratica-los.

"A gente fica muito triste quando vê um policial envolvido no tráfico de armas e munições para os traficantes do Rio de Janeiro, é uma coisa gravíssima. Uma coisa é uma pessoa resolver ir para o tráfico, outra coisa é a autoridade policial que é responsável por combater, que é responsável por dissipar o tráfico de armas e estar envolvido com tráfico de armas. É uma traição à sociedade aos colegas "

Na avaliação do Secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando Corrêa, o Estatuto do Desamamento prevê mecanismo para combater o tráfico de armas.

"O próprio ESTATUTO já deu ferramenta para o estado reprimir, quando ele tipifica a conduta de portar ou ter a posse de armas irregulares já começa a nos dar instrumentos que antes não tinham e também como isso se tornou em razão da mobilização da sociedade em torno desse ESTATUTO se tornou uma política pública. Quando se torna uma política pública, as instituições se organizam para isso, assim como foi no passado, a droga, como hoje estamos avançando nos crimes contra o colarinho branco, contra à sonegação. Hoje nós temos uma política pública de armas que a própria polícia federal está se especializando com unidades está sua superintendência."

Na semana passada, a Anistia Internacional entregou à ONU um relatório que sugere o afastamento de policiais corruptos. O texto aponta também que o Brasil fracassou na prevenção de casos de tortura, violência e abusos cometidos por policiais. Na avaliação da Socióloga e Diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Campos Mendes, Julita Lemgruber, é lamentável a participação de policias no crime.

" É lamentável que a própria polícia que tem agido com rigor e competência em alguns casos aí, que foram bastante cobertos pela mídia, é lamentável que dentro da policia a gente a gente venha assistindo episódios de corrupção vergonhosos"

O Secretário Geral da Federação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, Sandro Torres Avelar explica alguns pontos que pode levar um policial a ter desvio de conduta.

"Muitas vezes, a própria conivência com o crime e a facilidade que a pessoa que não tem uma formação tão sólida tem em se deixar levar por esse tipo de ´canto da sereia´ que são as facilidade provenientes da corrupção. Então, pela falta de formação sólida de caráter acontece às vezes da pessoa se deixar conduzir, mas isso tem sido objeto de preocupação e tem sido combatido sistematicamente pela Polícia Federal"

A professora da faculdade de Educação da UNICAMP e fundadora da ONG Associação em Nome do Bem Comum, Ediógenes Aragão, perdeu um filho com 21 anos. Ele foi assassinado em 2001. O corpo foi encontrado em uma periferia de São Paulo e até hoje não se sabe quem foi o autor do crime. Ediógenes Aragão suspeita de envolvimento da polícia no crime.

"Ele foi assinado por uma arma de fogo e tem toda uma história mentirosa por parte da polícia"

Um problema hoje enfrentado pelos policias é a falta de estrutura nas corporações. Em alguns estados, os bandidos estão mais equipados que a polícia. Um Policial Militar do Distrito Federal que não quer se identificar reclamou da falta de colete aprova de bala. Já quanto à corrupção na polícia, no Distrito Federal, ele declarou que não tem.

"Eu estou insatisfeito, porque todo mundo sabe que a situação dos quartéis é ridícula. Não tem um mínimo de infra-estrutura, porque nosso serviço é na rua, mas também, viatura, armamento fica muito a desejar.. O armamento está obsoleto, fica complicado trabalhar na rua com um revolver 38. Dentro do território do Distrito Federal não existe corrupção"

O governo está estudante medidas de integração das polícias para agilizar no combate ao crime. Segundo o Secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando Corrêa, se o Estado tiver um papel bem definido da Polícia Civil, da Polícia Militar e uma perícia qualificada, o inquérito poderá ser mais ágil o que vai ajudar a romper o ciclo de impunidade no Brasil.

De Brasília, Lucélia Cristina
SM

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