Rádio Câmara

Reportagem Especial

Brincadeira é coisa séria - a importância do brincar - ( 07' 07" )

  • Brincadeira é coisa séria - a importância do brincar - ( 07' 07" )

Do que você brincava quando era criança? A natureza mostra que os pequeninos só param de brincar quando alguém faz cara de bravo e diz "é hora de parar". Os bichos puxam os filhotes; as mamães dizem "já pra cama". E no dia seguinte começa tudo de novo. E se o papo é brincadeira, vale tudo. Se hoje o dia das crianças acaba sendo comemorado dentro das lojas de brinquedos, o poeta Edmilson Ferreira, de 72 anos, lembra sua infância no interior da Bahia, cheia de carrinhos de madeira, estórias de lobisomens e brincadeiras com ossos. É isso mesmo, aquele ossinho da galinha que sobra no prato vira brincadeira nas mãos de muitas crianças. Quer saber como? Edmilson vai contar pra gente.

"A gente via os currais, gado no curral e tinha aquela idéia de como se tivesse uma fazenda. Fazia um cercadinho ali no chão mesmo, uma cerca de pau, e colocava uns ossos que a gente pegava assim no matadouro ou mesmo de casa, osso de galinha ou de outros bichos, de carneiro, colocava lavadinho e botava como se fosse um animal, um bezerro, uma vaca"

Mas brincadeira é coisa muito séria. A criança que brinca se desenvolve melhor e aprende que viver significa respeitar e ser respeitada. Quem brinca de queimada ou futebol fica com o corpo mais ágil e vai conhecendo suas emoções, pois um dia se ganha e outro se perde. E brincar é a atividade perfeita para que os pais conheçam os seus filhos, pois nesse momento a criança se mostra da maneira mais espontânea, como explica a Ângela Carneiro, da Faculdade de Educação da PUC de São Paulo.

"Ali ela se mostra de fato como ela é, como ela vê o adulto e como ela vê o mundo. Dá para fazer um trabalho extremamente interessante. É o momento mais importante de observação sobre a criança para você trabalhar o que de fato você quer: a questão dos valores, limites, do direito, da colaboração, e por aí vai"

Brincando você sabe o que seu filho ou filha está fazendo na escola e o que a criança acha importante. Brincando juntos, pais e filhos criam laços de cumplicidade. Mas vamos combinar uma coisa: comprar brinquedo não é brinquedo. A convivência afetiva e lúdica dentro da família não substitui o carro ou a boneca mais cara que você puder comprar, como aponta a psicóloga e professora da Universidade de Brasília, Laércia Abreu.

"Hoje a família precisa ter essa parada, olhar pra ela mesma, arcar a sua presença. Contar a história da mãe quando criança, do que brincava, do que a família valoriza. Se todo mundo está dizendo que tem que comprar, se o comercial da televisão está dizendo ´corra, vai voando comprar a sua Barbie´, a família está ali mostrando que nós não precisamos voar, nós não precisamos deste ou daquele produto pra ser feliz"

A idéia de que a criança de hoje só se interessa por videogame e computador é um erro. A maior parte das crianças não conhece as brincadeiras ditas antigas, e por isso não brinca dessa forma. A pedagoga Ângela Carneiro, que é autora de um livro sobre brinquedos e brincadeiras, aponta que as crianças muitas vezes trocam o jogo eletrônico pela bola, quando os pais oferecem espaço e estimulam o filho a brincar mais livremente. Mesmo com espaço reduzido, os pais podem criar e recriar mil brincadeiras, mas Ângela alerta que para isso é preciso disponibilidade para brincar com o seu filho.

"É mais fácil colocar o filho na frente de um videogame ou do computador e ficar ou lendo o seu jornal ou assistindo a sua televisão, ao seu programa predileto, do que realmente dispor de um tempo para oferecer outras alternativas: ou brincar de faz de conta, fazer sombra na parede, representar, fazer cabana, outras alternativas ainda que os espaços sejam menores"

TRILHA

Tudo bem que vivemos tempos de violência e insegurança, mas tem coisa melhor do brincar na rua? Os espaços hoje são reduzidos e a preocupação dos pais com os filhos é natural e justificada. Mas há até pouco tempo era bem diferente. A servidora pública Margarete Gomes, por exemplo, tem 28 anos e lembra que vivia brincando na rua.

"Era brincadeira mais em grupo, várias crianças brincando. A gente brincava muito de pique-pega, de pique-esconde, jogar futebol... Qualquer bola virava motivo pra brincadeira na rua. A gente brincava muito de amarelinha também, algumas brincadeiras mais antigas como pião e bola de gude..."

Mesmo que a criança não viva essa experiência de liberdade tão intensamente, a convivência com grandes grupos é importante. Quando se mistura menino com menina de várias idades, a visão de mundo da criança se expande e ela aprende a lidar com a diferença.

TRILHA

E para teminar, vamos apresentar um grande vilão das brincadeiras. Encher a criança de atividades tira o horário de brincar e não significa que o seu filho ou filha será uma criança mais esperta ou preparada. A brincadeira relaxa, além de ser um espaço de convivência da criança com seus colegas e com a família, como indica a psicóloga Laércia Abreu.

"Eu não posso ocupar uma criança com muitas atividades. Precisa ir ao balé, precisa fazer esgrima, precisa estudar xadrez, precisa fazer alemão, e não tem tempo pra brincar. Então eu vou ter uma criança muito ocupada, muito cansada. É importante a gente se perguntar, que hora essa criança tem pra brincar? E sobretudo, que hora eu, mãe, estou brincando com minha filha, meu filho, e que hora eu, pai, estou fazendo isso também"

É como diz a música, criança dá trabalho. E brincar com o seu filho é um trabalho que ele vai agradecer pela vida inteira.

De Brasilia, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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