Reportagem Especial
Especial Idosos - Afeto e sexualidade depois dos 60 anos - ( 06' 31" )
29/09/2005 - 00h00
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Especial Idosos - Afeto e sexualidade depois dos 60 anos - ( 06' 31" )
Para muitas pessoas é um choque enxergar que o envelhecer não tira a vontade de vivenciar o afeto e a sexualidade. O carinho de uma relação a dois é desejado por todos os casais, e para quem passou dos 60 anos não é diferente. A paixão e a urgência dos 20 anos acabam se transformando em cumplicidade e ternura, mas as mudanças não significam uma relação amorosa com menos desejo. O advogado aposentado Wilson Valente, por exemplo, está casado com Adelaide há 49 anos, e conta que o carinho só fez aumentar com o tempo.
Lógico, a idade pesa, as doenças chegam, eu sofri uma cirurgia de coração há um ano, muda a vida da gente. Mas o nosso contato pessoal, nosso carinho, nosso amor acima de tudo só aumentou. Hoje a gente tem muito mais carinho, muito mais preocupação com o parceiro.
Para o médico geriatra Renato Maia, o sexo é um assunto mal resolvido entre os jovens, mal discutido entre os adultos e quase que proibido entre os mais velhos. Apesar disso, ele aponta que o desejo de se relacionar não se enfraquece com o aumento da idade.
"A pessoa mais velha mantém a sua sexualidade, mantém o seu desejo e para usar uma palavra da moda, mantém o tesão. É claro que algumas modificações ocorrem."
E que mudanças são essas? Para as mulheres, a menopausa pode provocar o ressecamento vaginal e fazer com que o contato sexual seja desconfortável. Para os homens, pode haver uma demora maior em atingir o orgasmo, o que é tido até como um fator positivo, e não negativo. Problemas de ereção também podem acontecer, e em geral estão relacionados com doenças que podem ser tratadas. O importante é procurar um médico que possa orientar bem tanto a mulher quanto o homem. E não esqueça de usar a camisinha sempre. O ministério da saúde aponta que o número de casos de aids em pessoas com mais de 60 anos está crescendo, principalmente entre as mulheres que se contaminam em relações heterossexuais. Lembre-se desses cuidados e quebre os tabus em relação à sexualidade, como aconselha Renato Maia.
"O que se tem que reconhecer é que mesmo com algumas limitações, a sexualidade é absolutamente desejável, ela deve ser incentivada em qualquer fase da vida, inclusive na fase mais tardia. Homens e mulheres tem que manter esse conceito de que a sexualidade é uma manifestação de saúde, bem-estar e felicidade.
TRILHA
A sexualidade está longe de ser apenas a relação genital entre os casais. O afeto, o contato físico e a relação saudável com o próprio corpo acompanham a vida sexual de homens e mulheres do nascimento até a morte. A psicóloga Vilma Maria Barreto explica que a vida sexual na terceira idade pode se enriquecer ainda mais com os carinhos e carícias.
"Uma relação erótica, uma sexualidade plena ela não obrigatoriamente tem que culminar na relação genital. Duas pessoas podem se entender muito bem no plano do carinho do afeto, do contato físico, que vai das carícias, beijos, abraços, e que é tão importante quanto o próprio ato genital."
Vilma fica preocupada porque, quando se fala em sexualidade, o destaque fique somente para o ato sexual. Como trabalha diretamente com pessoas da terceira idade, ela aponta que são muitas as mulheres que vivem sozinhas na velhice. Para que elas não fiquem angustiadas por não ter um companheiro, é preciso destacar que uma pessoa pode lidar muito bem com a sua sexualidade, mesmo sendo viúva ou solteira. Vilma aponta que o importante é a mulher encarar o assunto com naturalidade e se permitir ter prazer com o próprio corpo.
"Ela usa outros artifícios, ela dança, ela pratica algum esporte, faz exercícios, massagens, ou seja, ela valoriza o seu corpo como elemento de vida. Porque sexualidade em última instância é vida."
Mas para a dona Ita Seinfeld-Levi, de 69 anos, o gostoso mesmo é ter uma companhia. Ela vive há 22 anos uma relação de muita compreensão, apoio e carinho. Dona Ita ficou viúva e se casou novamente, e incentiva que homens e mulheres busquem um novo companheiro na velhice.
"Muitas pessoas infelizmente já ficam viúvas ou viúvos, e é importante que continuem tendo boas amizades e às vezes um relacionamento mais íntimo também. Uma mãozinha dada, um carinho, é muito certo. Em qualquer idade o ser humano precisa de amor, apoio, de carinho, com certeza."
Dona Ita diz que ainda existe uma timidez para que pessoas idosas procurem um novo companheiro. Ela lembra que a sua geração foi criada com muitos tabus e restrições, mas aponta que existe um caminho para viver o afeto na velhive: é só abrir o coração.
De Brasília, Daniele Lessa