Reportagem Especial
PT: um partido em crise
17/07/2005 - 00h00
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PT: um partido em crise
Em sua história de 25 anos de idade, duas das principais bandeiras históricas do Partido dos Trabalhadores foram a ética nas relações políticas e a transparência nas finanças. Por essas bandeiras, seus parlamentares pediram CPIs e investigações sobre seus adversários. Era o partido que vigiava os outros e que tinha uma postura moralista.
De repente, uma onda de denúncias contra o partido, e uma crise política de graves proporções no Governo, a partir de denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson, atingem o PT naquilo que é o seu maior patrimônio: a ética que o caracterizava como um partido singular na política brasileira.
Em poucas semanas, o curso dos acontecimentos surpreende e abala grande parte da militância do PT e aqueles que simpatizam com o partido.
É verdade que são apenas acusações e evidências. E acusações precisam ser provadas. Mas é incontestável a deterioração da imagem do partido junto à opinião pública.
Uma pesquisa Datafolha realizada no mês de junho com mais de dois mil entrevistados no país mostra que a maior parte dos petistas, cerca de 65%, acredita que há corrupção no Governo Lula. E quase metade da amostra acredita que seu partido pagou o mensalão aos deputados do PP e do PL em troca ao apoio ao Governo Lula no Congresso.
Essa imagem abalada estabeleceu um clima de decepção, desilusão e angústia permanente entre parte de seus militantes.
As denúncias sucessivas também foram derrubando quadros significativos do PT no Governo e na direção do partido. Além da queda do ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu, também os principais dirigentes do partido, incluindo o ex-presidente, José Genoíno, foram atingidos pelas denúncias e saíram.
Um novo comando assumiu provisoriamente o partido até as eleições de setembro, sob o comando do ex-ministro da Educação, Tarso Genro. Ele tem a missão de dar início ao processo de virada e reconstrução ética.
Para isso, propôs a criação de um grupo de trabalho para analisar a situação finanaceira do partido. O PT tem um endividamento da ordem de 20 milhões de reais com o Banco do Brasil, BMG e Banco Rural.
Diante desse quadro de crise ética e financeira, uma série de perguntas ficaram no ar. E os militantes do PT se perguntam: Como o partido sairá dessa crise?
Essa questão estará colocada no tabuleiro político nos próximos meses. Tempo em que o partido estará às voltas não só com denúncias, investigações e apurações. Mas estará exposto também internamente, pois em setembro acontecem eleições diretas no PT para a escolha do novo presidente e cargos de direção em todo o país.
Em dezembro, o PT volta a expor suas vísceras com a realização do Encontro Nacional que poderá definir o novo Estatuto do partido. O último, escrito em 2001, quando Lula ainda não era o presidente, não reflete o PT pragmático de hoje.
O momento de crise é também de encruzilhada para os destinos do PT. Para discutir esse momento do partido a Rádio Câmara ouviu o professor de Política e Ética da Universidade de Campinas, Roberto Romano, o advogado e ex-deputado federal pelo PT, Airton Soares, e os deputados Carlos Abicalil, do PT de Mato Grosso, Chico Alencar, do PT do Rio de Janeiro, e Orlando Fantazzini, do PT de São Paulo.
Para o deputado Chico Alencar, a crise do PT tem a ver com a sua chegada à maturidade. É a crise de um partido que não consegue mudar a ordem vigente e é mudado por ela.
Sonora:
"A nossa crise é um pouco a crise da maturidade, a partir do momento em que o nosso partido vai ocupando espaço nos governos municipais, federal e no Legislativo. É claro que tem um peso da inserção, como a corrupção. Por outro lado, o partido vai se distanciando da sua origem e de algo que o vivifica que é essa relação com os movimentos, o pulsar da sociedade e a voz rouca das ruas. Quando parece, pelas denúncias de corrupção, que o partido se integrou totalmente a essa ordem estabelecida que ele pretendeu mudar, é claro que a crise aguça. O partido chega ao poder nacional para mudá-lo e acaba sendo mudado por ele. É claro que isso traz consequências. A principal delas é o desencanto."
Um desencanto, que para o deputado Orlando Fantazzini, tira a força e abate a militância do partido.
Sonora:
"Eu acho que hoje o PT está numa situação muito difícil. Sua militância está cabisbaixa, sem ânimo, muito peocupada com todos os epísódios que a imprensa vem divulgando. O PT está fragilizado, porque é um partido que sempre sobreviveu da força de sua militância. E quando a militância dá sinais de que não está mais disposta a emprestar sua força, sua disposição e sua garra é porque está numa situação muito delicada, muito difícil."
Para Airton Soares, um dos fundadores do PT, a crise do partido vai além de apurar eventuais desatinos financeiros. A crise maior da legenda está na contradição básica de sua vocação.
Sonora: "O verdadeiro paradoxo que existe é de que um partido que elege um governo com ideais e programas progressistas, na busca do socialismo, transforma-se e passa a defender os interesses do capitalismo. Essa é a contradição que deve ser sanada. Este sim um vício que pode trazer prejuízos vitais para a possibilidade de refundação do partido. Sanar o partido, pegar quem fez coisa errada, punir e afastar, mandar para a cadeia dirigentes partidários que se meteram com cargos públicos, que cometeram irregularidades, se faz com justiça e com a lei. Agora a questão político-ideológica, essa é uma questão que precisa ser melhor refletida, porque o partido perdeu muito mais espaço quando deixou de cumprir o seu programa e a sua vocação do que agora com relação ao envolvimento de alguns de seus dirigentes com essas acusações".
Para o deputado Carlos Abicalil, não há quadro de líderes nacionais mais expostos à opinião pública do que os do PT. E tenham ou não culpa, cabe ao PT investigar e recuperar sua antiga imagem.
Sonora:
"Se tivermos apuração das responsabilidades e porventura algum desses dirigentes tiver tido prática ilícita ou eticamente reprovável, nós temos o dever de revelar isso à sociedade e ao PT. Mas, se ao contrário, tudo que tiver sido levantado não se comprovar, teremos uma tarefa segunda, que é provar aquilo que não fizemos, e mais do que isso, reconstituir a imagem dos Partido dos Trabalhadores."
O professor Roberto Romano entende que mesmo grandes dirigentes do partido não podem ser poupados nesse processo. Para ele, o PT também foi desastrado ao tentar desviar as primeiras investigações, o que comprometeu sua imagem.
Sonora:
"Que se faça auditoria nas contas do partido, que se levantem responsabilidades. Se houver uma ação errada por parte de grandes dirigentes, como o caso do deputado José Dirceu, que redunde em punição. É murto importante que o militante básico e mesmo a sociedade brasileira perceba dentro do PT esse ânimo de não deixar que as coisas sejam enterradas. Infelizmente as primeiras iniciativas do partido foram desastrosas. Tentou desviar, esconder, atacar a imprensa, tentou desviar a investigação"
Além da apuração dos fatos, uma saída do partido para enfrentar a crise, na avaliação de Roberto Roamano, seria um pacto político entre suas várias tendências.
Sonora:
"Se não ocorrer ese pacto em tempo rápido e com a máxima prudência, com a máxima diplomacia da direção do partido, e também se as tendências do partido aceitarem o diálogo, evidentemente que teremos um fortalecimento do partido após esse baque, e aí junto com a popularidade que o presidente da República tem sobre as massas, há possibilidade de recuperação. Caso contrário, creio que o partido tende a se pulverizar em torno de suas várias tendências e aí não sabemos bem o que pode resultar daquilo que foi essa esperança da sociedade brasileira e do Estado".
O PT foi atingido. Os próximos meses vão mostrar quais as marcas que irão resultar desse episódio. E se o partido terá chances de recuperar o encanto do passado.
O partido agora buscará ajustar o caimento ideológico e político de sua nova roupagem, já que a vestimenta do passado parece meio apertada para o desfile junto à opinião pública neste momento.
Com agulhas hábeis ou não, o partido irá costurar seu novo perfil. E será com essa roupa que disputará as eleições gerais de 2006.
Na próxima semana, falaremos de como moderados e radicais se preparam para a grande batalha ideológica de 18 de setembro, quando o partido dará passos importantes na definição de como será seu futuro.
De Brasília, Eduardo Tramarim.