Reportagem Especial

Pesquisa do IBGE mostra perfil da maternidade no Brasil -( 06' 48" )

08/05/2005 - 00h00

  • Pesquisa do IBGE mostra perfil da maternidade no Brasil -( 06' 48" )

LOC.: Uma pesquisa divulgada pelo IBGE, por ocasião do Dia das Mães, revela um aumento expressivo nos casos de gravidez precoce no país. Por outro lado, também houve um discreto crescimento na participação das mulheres de 40 a 49 anos no grupo de mães pela primeira vez.Confira agora na reportagem de Ana Raquel Macedo o perfil da maternidade brasileira

Neste domingo, famílias de todo o país comemoram o Dia das Mães. Mas quem são essas mulheres tão presentes em nossas vidas? O IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgou, nessa semana, uma pesquisa que revela o perfil da maternidade no país. Com base nos Censos de 1991 e 2000, o estudo mostra que as mães brasileiras estão mais jovens. E o preocupante é a ampliação do número de casos de gravidez precoce. Por outro lado, há também um dado curioso: o aumento da participação das mulheres de 40 a 49 anos entre o grupo de mães pela primeira vez. O demógrafo Juarez de Castro, responsável pela pesquisa, diz que a análise desses dois extremos evidencia situações opostas. Entre as mulheres que tiveram o primeiro bebê com mais de 40, observa-se que, em geral, elas trabalham, têm alta escolaridade e pertecem a famílias com rendimento elevado, ao contrário das mais jovens. O perfil das mães de meia idade indica que, de alguma forma, houve um certo planejamento da gravidez. O difícil, segundo Juarez de Castro, é apontar um único motivo para a decisão. A apresentadora de TV Sílvia Popovic diz que, no caso dela, a gravidez tardia aconteceu por causa da carreira profissional. Sílvia teve sua primeira filha aos 45 anos.

"Eu sou dessa geração de mulheres que acreditavam que o importante era se realizar profissionalmente, ter uma carreira bonita, ganhar uma independência financeira./Quando eu cheguei aos 44, eu falei, não. Não faz mais sentido a minha vida, já cansei dos meus problemas, já cansei de mim mesma, quero sair do centro do palco, quero ser mãe.

Em 1991, de acordo com o estudo do IBGE, as mães que tiveram o primeiro filho na meia idade somavam 7.142 mulheres ou 0,67% no total de mães no país. Em 2000, esse número passou para 9.063 ou 0,79%. Mas esse discreto aumento não chegou a alterar a média etária das mães. O demógrafo Juarez de Castro explica que, desde os anos 80, o Brasil passa por um chamado rejuvenescimento da fecundidade. A idade média das mães ao terem seus filhos reduziu-se em quase um ano, de 25,6 anos, em 1991, para 24,8 anos, em 2000. Além disso, houve uma elevação expressiva na quantidade de mães em idade precoce. No período analisado, houve um incremento relativo de mais de 80% no número de mães de 10 a 14 anos e de mais de 38% no grupo daquelas com idade entre 15 e 19. Reunindo as duas faixas etárias, observou-se um salto do patamar de 470 mil 570 meninas mães, em 1991, para 657 mil 440 em 2000. E vale lembrar que, diferente das mães de meia idade, as mais jovens, em geral, pertencem a grupos sociais mais vulneráveis em termos de educação, renda e trabalho. E o pior é que, após terem a criança, muitas atrasam os estudos e, às vezes, nem retornam à escola. A jornalista Nara Raquel de Melo sabe bem o que é isso. Mãe aos 17, ela agora passa, aos 34, pela experiência de ser avó. Apesar dos conselhos, sua filha, aos 15, também engravidou. Nara conta que a maternidade precoce atrasa a formação escolar de sua filha, assim como prejudicou a dela. E diz que a pressão sobre as meninas mães é enorme.

"A menina fica sobrecarregada. A sociedade cobra muito da menina e ela ainda fica com a sobrecarga de cuidar do bebê. Ela perde completamente a adolescência, ela não pode sair, não pode se divertir mais, fica se dedicando a uma criança. Uma criança se dedicando a uma criança.

Os problemas decorrentes da gravidez precoce são uma preocupação entre os formuladores de políticas públicas. A médica Regina Viola, da área de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, diz que existem programas específicos para as adolescentes, tanto direcionados à prevenção da gravidez indesejada quanto ao pré-natal da jovem mãe. Um exemplo é o projeto de saúde e prevenção nas escolas. Realizado em parceria com o Ministério da Educação, o programa está em 482 escolas, espalhadas por 281 municípios. Segundo Regina Viola, a intenção é proporcionar o máximo de informação ao adolescente para que ele tome decisões conscientes em relação à saúde sexual e reprodutiva. Apesar disso, ela admite que, nessa idade, tudo é mais difícil.

"Tem uma série de fatores que são específicos dessa população que dificultam o contato com o serviço de saúde, o acesso aos métodos. E tem também as características da fase etária que estão vivendo, que dificultam a tomada de decisão preventiva. E a gente tem que trabalhar com essa realidade procurando sensibilizá-los."

A professora e deputada federal Iara Bernardi, do PT de São Paulo, insiste na importância da educação sexual e defende que ela seja extendida a toda rede educacional. A parlamentar é autora de um projeto de lei que institui nas escolas um programa nacional de orientação sexual e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e do uso de drogas.

"Acho que é obrigação da rede pública de educação implantar esse programa de educação sexual nas escolas, não como uma matéria chata para os estudantes, mas de uma forma muito variada, que aborde as mais variadas áreas do sentimento, da sexualidade e dos relacionamentos e com professores preparados."

Iara Bernardi defende, ainda, que a rede pública de saúde ofereça a todas as mulheres, independente da idade, acesso aos mais variados métodos contraceptivos. A técnica do Ministério da Saúde Regina Viola diz que 30% a 40% dessa demanda já é atendida. A meta é que, até o fim do ano, o atendimento chegue a 100%.

De Brasília, Ana Raquel Macedo

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