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Vinte anos de poder civil - ( 03' 55")
15/03/2005 - 00h00
Quinze de março de 1985. Uma sexta-feira. É o dia marcado para um presidente civil voltar a assumir o mais alto posto da Nação - a presidência da República.
O país ainda era governado pelo último dos generais do governo militar, que se mantém há quase 21 anos no poder.
Mas na noite anterior, véspera da posse, o inesperado acontece. O presidente eleito, pela última vez pelo voto indireto, Tancredo Neves, sente dores abdominais e é internado e operado às pressas no Hospital de Base de Brasília.
Na manhã do dia seguinte, o Congresso dá posse interinamente ao vice José Sarney. A posse é controversa e o até então presidente João Batista Figueiredo recusa-se a receber Sarney e passar a faixa presidencial.
O hoje senador José Sarney diz que não guarda ressentimentos de Figueiredo.
"Eu nunca guardei ressentimento. O presidente era do temperamento dele. O que era importante para todos nós era que o Brasil atravessasse aquele momento dramático em que o Tancredo estava doente. Não se sabia o que iria ocorrer.. A faixa era uma coisa simbólica que não pesou".
Naquele momento alguns teóricos do Direito entendiam que o deputado Ulysses Guimarães. deveria tomar posse. Ulysses não aceitou a idéia com medo de que a resistência de alguns militares a seu nome levasse a um embargo do processo político, diz o deputado Mauro Benevides,
"Ele preferiu a alternativa José Sarney que seria bem mais aceita pelos movimentos militares que naquele momento ainda estavam articulados na expectativa que se respeitasse o que havia de remanescente do movimento de 31 de Março."
Mas a sequência de fatos complicados e perigosos para o momento delicado em que os militares deixavam o poder termina por aí. A posse de Sarney dá início a um novo período da realidade política e republicana brasileira.
Começa o período conhecido como Nova República, que hoje completa vinte anos. É o maior período de sucessão de presidentes civis sob regime democrático na história do país.
Tancredo Neves, governador de Minas Gerais eleito presidente da República em 15 de janeiro de 1985 por um Colégio Eleitoral, jamais chegaria a tomar posse. Em sua jornada de sofrimento e agonia, acompanhada pelos meios de comunicação, é transferido para o Instituto do Coração em São Paulo onde após sete cirurgias no intestino, viria a falecer em 21 de abril, dia de Tiradentes.
O lamento pela morte de Tancredo é expressado no discurso de pezar do deputado Ulysses Guimarães.
"Logo agora, quando o povo tanto necessita de amigos corajosos, leais e talentosos, perde o maior deles e o líder de todos eles. Aclamado pelas praças, ungido pelas ruas, carregado triunfalmente por multidões. Adeus Tancredo. Sem você, embora esmagados pela dor e pela separação e como os mais fortes e decididos na companhia de sua memória e de seu exemplo. A fatalidade decretou que o eleito não governasse seu povo."
O falecimento do titular Tancredo efetiva Sarney como presidente, que é empossado definitivamente no Congresso Nacional. É o primeiro presidente civil após cinco presidentes militares. O trigésimo presidente da República brasileira.
Juramento solene de José Sarney
Completa-se o período de transição democrática e tem início a Nova República.
De Brasília, Eduardo Tramarim.