Mulheres de Palavra

Campanha eleitoral reacende debate sobre a imagem das mulheres nos espaços de poder

10/09/2026 - 08h00

  • Entrevista: Jornalista Cristiane Bernardes e professora Deniza Gurgel

Em meio à campanha eleitoral, um fato chama atenção dos analistas políticos: o crescimento da proporção de candidaturas femininas aos cargos do legislativo, tanto no Congresso Nacional quanto nas assembleias legislativas. Houve um aumento de quase 2% na proporção de candidaturas femininas à Câmara dos Deputados em relação a 2022. E mais da metade das mulheres que concorrem a uma vaga na Câmara se autodeclaram negras.

Para a jornalista Cristiane Bernardes, a diversificação no perfil dos legislativos “aproxima os legislativos do perfil diverso, heterogêneo e plural da sociedade”. Assim, segundo ela, “os cidadãos e as cidadãs podem se ver representados”.

Cristiane cita a obra “Invasores do Espaço”, da socióloga Nirmal Puwar, que analisa como as pessoas não brancas - e especialmente as mulheres - eram percebidas dentro do Parlamento Britânico:  “como invasoras, como corpos fora de lugar”. “Eram corpos que nós não estávamos acostumados a ver nesses lugares de poder. E, infelizmente, eu acho que essa percepção ainda perpassa a nossa sociedade”, diz.

“Quando a gente pensa nos inúmeros casos que já tivemos, na Câmara dos Deputados, no Senado, nas assembleias, de deputadas que não são percebidas como deputadas. E, às vezes, são barradas em alguns espaços, eventos, precisam se identificar, as assessorias precisam identificá-las porque são, em geral, mulheres pretas e pardas ou mulheres de periferia ou muito jovens”, ressalta Cristiane.

Para a professora, consultora e estrategista de imagem política Deniza Gurgel, quando essas mulheres chegam aos espaços de poder, a dificuldade é adequar a imagem delas a um perfil esperado daquele espaço – “seja por regras formalmente estabelecidas, como aqui no congresso a gente tem o regimento interno que versa sobre o traje que deve ser utilizado. Ou por regras informalmente estabelecidas na sociedade”.

Deniza Gurgel afirma que “esses espaços não foram pensados para as mulheres”. E lembra: “o próprio Congresso Nacional sequer tinha banheiro feminino nos plenários. A gente tinha até pouquíssimo tempo, não tem 30 anos, proibição de mulheres usarem calças aqui dentro do Congresso Nacional”.

Deniza Gurgel diz que em “qualquer manual de cerimonial e etiqueta, o traje de passeio completo da mulher vai vir definido como algo que tem a questão de bom senso”. “Mas o que é esse bom senso? Bom senso para quem?”, questiona.

Deniza Gurgel cita outros exemplos, para mostrar a dificuldade das mulheres negras e da periferias nestes espaço. “Enquanto a menina branca pode ser vista como vereadora, assessora, chefe de gabinete”, as outras têm “uma dificuldade muito grande de trazer suas identidades, suas lutas, suas batalhas, seus valores, suas crenças”.

Deniza Gurgel cita relatos de clientes dela que, quando entraram na política, “precisaram” pintar ou alisar o cabelo “baseadas única e exclusivamente no tal critério do bom senso”. “Se não pintar o cabelo é algo importante para você ou se os seus cachos são importantes para você, é preciso pensar outras estratégias para que você comunique a sua imagem sem abrir mão desse elemento disso que é tão é íntimo seu”, defende.

Para Deniza Gurgel, “quando a gente fala da nossa imagem, a gente está falando de algo muito pessoal que mexe com as nossas seguranças e inseguranças. E as mulheres são mais impactadas porque tem uma cobrança maior”, explica.

“O que é inegociável para você?”, questiona Deniza Gurgel. “O meu primeiro conselho seria: para e pensa o que você não está disposto a abrir mão, sabe? É importante a gente saber estabelecer limites”. “Eu não abro mão de mostrar minha religião, eu não abro mão de usar o meu turbante, eu não abro mão de usar os meus cocares”, exemplifica.

Deniza Gurgel cita o exemplo da ex-deputada Joenia Wapichana. “Quando foi a primeira indígena eleita, usava terninho e um brinquinho de pena muito discreto e ainda assim foi barrada no elevador de parlamentar. Não a reconheceram como parlamentar”, conta. “Hoje, temos a Joenia Célia com seus vestidos e cocares aqui”.

Cristine Bernardes cita outro exemplo, o da deputada Júlia Zanatta, “que vem com flores

da região dela, em Santa Catarina, que mostra ali uma questão ali da colônia, de identidades e tudo”. “Então, a gente tem esses vários elementos também nessa construção”, diz.

Para Cristiane Bernardes, a palavra de ordem é “respeito”. “A gente também tem que respeitar, entender que a aparência, a roupa, o vestir é, antes de qualquer coisa, uma armadura que todas nós, políticas ou não, vestimos para sair das nossas casas, encarar as nossas batalhas. Então, antes de qualquer coisa, essa mulher precisa se sentir segura e respeitada”.

Apresentação: Ana Raquel Macedo

Quinta-feira, às 8h, no programa Painel Eletrônico. Reprise em 4 horários: sexta, às 18h; segunda, às 11h; terça, às 22h45; e quarta, às 6h. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.