Lars Grael: um esportista na política
01/01/2007 - 14:18
Ele nasceu longe do mar, mas a paixão pela água era tradição de família. Em Seul e em Atlanta, foi no mar que ele e os parceiros encheram de orgulho o Brasil, trazendo duas medalhas olímpicas. Foi no mar também que o iatista Lars Schmidt Grael quase perdeu a vida. O acidente aconteceu há oito anos e, desde então, ele continua lutando — agora também em outras águas. Em 2001, assumiu a Secretaria Nacional de Esportes; depois, a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer do Governo do Estado de São Paulo.
Lars Grael é o convidado do Programa Personalidade, promovido pelos veículos de comunicação da Câmara. Participam da entrevista os jornalistas aficionados por esporte José Cruz, da equipe do Correio Braziliense, e Márcio Sardi, da Voz do Brasil, além da apresentadora da TV Câmara Mayla di Martino.
Mayla di Martino: Você costuma dizer que herdou, da tradição militar do seu pai, o interesse pela vida pública. Que avaliação faz da atual situação do Brasil, já que costuma dizer que o esporte é tão importante quanto a política?
Lars Grael: A política nacional não vai tão bem quanto o esporte. Os filhos deste País o vêm glorificando com resultados internacionais, mas na vida política o momento é ruim. O Brasil desperdiça uma grande oportunidade de crescimento econômico, sobretudo de moralização das instituições públicas. Hoje há uma descrença muito grande em relação aos poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Esperamos que, quando ocorrer uma nova onda de escândalos, consigam depurar o sistema político nacional. A sensação da impunidade é ruim para toda a Nação.
Mayla di Martino: Você está há algum tempo na vida pública. Que tipo de projeto econômico ou de política pública considera necessário para o País?
Lars Grael: O Brasil precisa fundamentalmente de reformas, especialmente da reforma política, que é fundamental hoje. A reforma do Judiciário talvez seja importante. No Brasil, a sensação de impunidade é muito grande, por causa do afastamento entre o Poder Judiciário e a justiça. A partir dessas reformas haveria um arcabouço para fazer as reformas previdenciária, fiscal e tributária. Aí se começaria a mudar a Nação. O pacote econômico decorre disso. Mas não podemos perder tempo: o Presidente Lula teve condições de promovê-las em 2003 e desperdiçou o momento. Estamos pagando um preço alto por isso hoje em dia.
Márcio Sardi: As reformas vão permitir o crescimento da economia e o crescimento social?
Lars Grael: Não tenho a menor dúvida. O Brasil vive um problema grave. O chamado Custo Brasil é enorme; o governo é grande, lento, incompetente na gerência dos recursos públicos. E, para alimentar essa máquina enorme, tem uma necessidade cada vez maior de tributar a produção, a classe produtiva do Brasil. Deve haver um pacto com a sociedade para acabar com a impunidade, combater a sonegação por meio de fiscalização correta, reduzir drasticamente a carga tributária e os gastos. O Chile fez isso. Houve esse pacto e se reduziu o percentual dos impostos. Em troca, houve grande fiscalização. Com isso, combate-se a informalidade da economia. Hoje, há um grande setor da Nação que atua na informalidade. Ou seja, há um processo de desonestidade consentida, em que o Estado finge que arrecada e o contribuinte finge que paga. Quem é penalizado? O honesto, aquele que não tem como burlar os impostos. A iniciativa deve ser do Poder Executivo, mas o Legislativo vai referendar isso por meio das leis necessárias. O Judiciário tem de estar neste mesmo pacto, porque não adianta depois, com liminares, derrubar qualquer tipo de punição aos sonegadores. E a sociedade vai entender que ganhará com isso: vai pagar imposto sabendo que ele retornará em seu benefício. Hoje, a sensação é de que esse retorno não existe. O que foi feito do selo-pedágio, do empréstimo compulsório da gasolina e de outros impostos que surgiram no País? O País vive em um regime no qual muitas vezes a corrupção é tratada com leniência; no qual se decide perdoar as pessoas pelas falhas ocorridas; no qual caixa dois se transforma em recurso não-contabilizado. A nossa estrutura, em termos de valores éticos, morais, cívicos e patrióticos, tem de ser mudada. Da forma como está, não tem como o Brasil crescer ou sair do atual patamar. Estamos afundados em um pântano.
Mayla di Martino: Falando em política social, qual a sua avaliação do Bolsa Família?
Lars Grael: O Bolsa Família foi uma idéia correta, ao associar diversos programas de transferência de renda. Teve mais lógica, passou a ter um cadastro único, um controle mais fácil que o de várias bolsas separadas. Tem um alcance social importante. Mas, do ponto de vista de longo prazo, é um paliativo. Do que o Brasil precisa mesmo é crescimento econômico. Isso sim, vai gerar emprego e renda. O miserável depende da transferência de renda do Governo mas não tem a porta de saída: as oportunidades. É o direito à educação de qualidade, à saúde e à moradia, sobretudo a uma economia próspera que permitirá a essas pessoas ascender socialmente.
Mayla di Martino: Você criou o Projeto Grael de inclusão social. É possível incluir na sociedade, por meio do esporte, um menino drogado, traficante, que teve o lar totalmente desestruturado e hoje está nas ruas?
Lars Grael: O esporte é das formas mais eficazes de incluir o jovem na sociedade, pois exerce um fascínio. Muitas vezes o jovem vai a um projeto social para receber uma camisa ou um lanche e se apaixona pelo esporte, absorve toda a carga moral, de princípios, de regras, de disciplina, de convivência, de vitória e derrota com a qual se constrói um cidadão. Não necessariamente se constrói um campeão, porque isso é conseqüência. Eu tive essa primeira experiência com o Projeto Grael de Niterói, em 1998. Quando estive no governo federal de 1999 a 2002, procurei priorizar as ações da minha pasta nesta questão: trazer o esporte para a agenda social governamental. É incrível a transformação que ele é capaz de fazer: romper o preconceito, trazer perspectivas de ascensão social, de prevenir a violência. É a revolução social que pode acontecer no Brasil se nossos grandes políticos acreditarem.
ESPORTE
Márcio Sardi: O esporte nacional foi prejudicado pela crise deste governo?
Lars Grael: Não diretamente. O esporte é sempre colocado em último plano. A classe política brasileira vem admitindo um papel de representação mais efetiva do esporte. Saímos de um órgão federal, de secretarias ou departamentos do Ministério da Educação para uma autarquia pública federal, um ministério extraordinário; em seguida, para um ministério híbrido, de Esporte e Turismo, no Governo Fernando Henrique Cardoso; e hoje há ministério específico no Governo Lula. Ou seja, houve avanço na importância política, o que não aconteceu, na mesma proporção, com a capacidade de investimentos. O Orçamento do Ministério do Esporte é pífio, é praticamente inexistente. Não é uma crítica específica ao Governo Federal. Não há um estado do Brasil que esteja investindo nos temas atividade física, educação física e esporte mais que 0,2% da sua dotação orçamentária. Ou seja, há diferença entre a retórica e a prática. Isso tem de mudar. Devemos entender que o esporte é um fenômeno social e, como tal, deve constar das políticas públicas de saúde preventiva; de educação de qualidade; de prevenção à violência. Devemos direcioná-lo nesse sentido e dar-lhe importância séria. Propus certa vez a discussão do seguinte tema: por que não há uma lei de responsabilidade social do esporte segundo a qual os governos tenham de investir a quantia ínfima de 1% em favor do esporte nacional, com objetivo social? Seria uma revolução social. Isso está longe de acontecer.
Márcio Sardi: Além da falta de recursos, a burocracia também é um entrave ao crescimento do esporte?
Lars Grael: O dever de democratizar o esporte cabe ao Estado: aos governos municipais, estaduais e federal. Gerar oportunidades para que o cidadão tenha direito à prática esportiva, seja ela participativa, lúdica, de lazer, na formação socioeducacional, até na perspectiva de competir no esporte, é um dever do Estado e tem de haver previsão orçamentária para isso. A outra questão é permitir que o esporte de competição no Brasil se desenvolva com o apoio direto ao atleta, aos clubes, aos promotores de eventos, às Federações e às Confederações.
José Cruz: Você conhece o estudo da Unesco, depois referendado pela ONU, que indica que cada dólar que o governo investe na área do esporte gera retorno social de três dólares?
Lars Grael: Eu conheço os dados obtidos no encontro da Unesco com a Organização Mundial da Saúde, realizado em Punta del Este, salvo engano em 1999 ou 2000. Fizeram o cálculo da média internacional: para cada dólar investido pelo Estado em atividade física, em educação física e esporte, havia a economia de 3,2 dólares em saúde, fora a economia nas áreas de educação de qualidade e segurança pública. Por essa analogia, mostra-se que o esporte não é só gasto. Há um investimento social a ser feito.
Mayla di Martino: O esporte é então um programa de desenvolvimento econômico?
Lars Grael: Exato. Falta ainda o entendimento, por parte dos nossos partidos ou candidatos, de que o esporte é um instrumento de extrema eficácia. Uma coisa é falar no palanque; outra é colocar em prática. Acho que, para haver políticas efetivas para o esporte, não basta ter o Ministério do Esporte. É importante que ele exista, sem dúvida, mas ele deve ter a capacidade de interagir com facilidade com os ministérios da Saúde, da Educação, da Defesa, e de fortalecer realmente o conceito do esporte como meio de saúde preventiva. É preciso buscar o turno integral, previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que traz o esporte como forma complementar, no contraturno das escolas, dotando-as de quadras poliesportivas, de profissionais de educação física, de calendário esportivo escolar mais intenso. Há uma tentativa, mas não há meios para isso. O Ministério do Esporte tem vontade de fazer e faz o possível para que isso aconteça. Contudo, dispõe de 0,02% do Orçamento da União. Somente interagindo com as outras Pastas vai conseguir fazer alguma coisa. Tem de haver vontade do Governo, da Casa Civil, do Presidente da República. Acho que o esporte é uma causa suprapartidária. Eu mesmo sempre transitei acima de partidos, porque defendemos um conceito e torcemos para que, em algum momento, um dos nossos líderes abrace essa causa.
Mayla di Martino: Na condição de secretário de Estado, na sua lida diária, era difícil atuar? O governo estadual tem muito poder discricionário?
Lars Grael: Difícil sempre foi. Não vou me vangloriar, mas em São Paulo fiz o possível. Havia restrição orçamentária. Trabalhei 3 anos e 3 meses com 0,1% do Orçamento do estado de São Paulo para o tema juventude, esporte e lazer. Lutei para aprovar a lei de incentivo. Avancei, mas não consegui aprová-la. Enquanto atleta, sempre fui um crítico da gestão esportiva, dos cartolas, dos desmandos, do afastamento da gestão esportiva governamental da prática do esporte. Mas o destino quis que eu tivesse uma mudança radical de rumo de vida. Quando fui chamado a vir para o outro lado, eu aceitei - mesmo passível de ser criticado -, até para entender as dificuldades.
José Cruz: Você, que veio de São Paulo, pode confirmar se São Caetano do Sul é o município que mais investe em esporte?
Lars Grael: São Caetano do Sul surpreendeu o Brasil, em pesquisas recentes, com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano do País. Nem é um município aparentemente tão rico ou com classe alta; tem uma classe média sólida, é um município pequeno, mas destoa ao apresentar dados incomuns: destina 4,7% do seu Orçamento Municipal para educação física e esportes. São Caetano não é só time de futebol. Há um trabalho de base. Se fosse um estado, teria sido o segundo mais bem representado nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo ou nos Jogos Olímpicos de Atenas. Eles têm uma estrutura de apoio ao esporte muito grande e uma conotação social também muito intensa. Segundo o prefeito Luiz Olinto Tortorello, já morto, se fosse calcular o quanto investiu em esporte e em educação física, provaria que o estado de São Paulo economizou em São Caetano do Sul, em proporção maior, em saúde e segurança pública.
Mayla di Martino: Você, para muitas pessoas, encarna um líder: um campeão olímpico que supera dificuldades. Como você lida com esse papel?
Lars Grael: Não me julgo um político profissional. Meu habitat é o mar, o esporte. Hoje sou um homem público, por 7 anos dei minha contribuição como secretário estadual e nacional, mas sei da minha insignificância. Não quero ser candidato para exercer um cargo público e ter um salário. Quero ajudar a Nação naquilo para que fui designado, nas oportunidades que surgem, independentemente dos interesses pessoais. No início eu achava que era um infortúnio perder a minha privacidade, mas depois fui vendo o reconhecimento como uma energia positiva. Um cidadão na rua, por mais simples que seja, nos reconhecer, nos dar a sua admiração, apoio, carinho, até mesmo a pena, me faz sentir bem e me motiva a ser útil à sociedade de alguma forma.
A busca de um líder que venha a surgir do céu, um profeta que vá mudar o Brasil é um engodo, uma ilusão não vai acontecer. Tem de ser um movimento popular, da sociedade exigir nossos direitos de cidadania.
Márcio Sardi: Esse desejo de contribuir para a sociedade foi a sua motivação nesses sete anos como secretário nacional e estadual?
Lars Grael: Quando passei por um dos piores momentos da minha vida nunca pensei que fosse ser conhecido, até porque as glórias do esporte me projetaram muito menos do que a adversidade que vivi. Naquele momento, me surpreendi com o carinho que recebi por milhares de telefonemas, cartas, faxes e e-mails, ainda internado no Hospital Albert Einstein em São Paulo, e senti a necessidade de retribuir à sociedade. Eu achava que minha forma de ser útil era através do esporte, mas isso de certa forma passou. Eu não sou mais o atleta olímpico que fui outrora. Surgiram outras oportunidades de ser útil à sociedade, para viver. Fora isso é apenas sobreviver, e não vale a pena.
José Cruz: Na sua avaliação, a gestão do esporte brasileiro hoje, de Confederações e Federações, é um reflexo das gestões políticas tanto no Poder Executivo quanto no Poder Judiciário?
Lars Grael: Não. A meu ver não é um reflexo. É pior. Os poderes Legislativo e Executivo brasileiros são democráticos. No Executivo, os gestores - prefeito, governador, presidente - são reavaliados a cada quatro anos, com no máximo uma única recondução; são oito anos de poder. No Legislativo, o deputado é avaliado a cada quatro anos, podendo ser reeleito. Na gestão esportiva é diferente. Temos, como disse o jornalista Armando Nogueira, as capitanias hereditárias. Cargos às vezes vitalícios, quando não hereditários. Não há instrumento democrático na gestão esportiva. Há bons e maus dirigentes. Mas, às vezes, até o bom dirigente, por se julgar imprescindível, fica no cargo para o resto da vida e acaba confundindo o interesse público da entidade esportiva com a sua vida privada. Tentamos discutir isso no âmbito da comissão especial do Estatuto do Desporto da Câmara dos Deputados. Houve evolução notável. A matéria tramita na Casa há cinco anos ou mais. Creio que teríamos de voltar a essa discussão. Um dos pontos que acho fundamental no relatório da comissão especial é a democratização do esporte nacional. Não podemos achar que os donatários de cada entidade vão permanecer na direção perpetuamente. É preciso mudar. Falta oxigenar a estrutura esportiva para dar credibilidade e transformar o esporte de rendimento em um negócio profissional e fiscalizável.
Márcio Sardi: Vemos hoje o descasamento entre a Confederação e os praticantes, os profissionais do esporte. Lembro o caso do basquete, em que há duas ligas: a da Confederação e a de Oscar e outros atletas, que se insurgiram por não concordar com a condução do esporte.
Lars Grael: O esporte é um dos poucos setores da sociedade em que o protagonista, o atleta, não tem participação. Nas profissões de advogado, arquiteto, médico, em quase todas as categorias, os profissionais se organizam em sindicatos, em conselhos regionais e federais, e têm direito a voto. No esporte, às vezes, atletas que têm ótima capacidade intelectual, que são formadores de opinião, que têm perfeito entendimento técnico e prático da sua modalidade, não têm direito a voto. O que temos? Uma estrutura às vezes tirana de federações estaduais que não têm uma proporção de voto, que decidem um jogo muitas vezes clientelista que garante a sua perpetuação no poder. Temos bons gestores no esporte nacional também, mas acho que falta democratizar o esporte; é o atleta podendo opinar, falar, votar e decidir o rumo da sua entidade. É algo lógico e democrático.
PARTIDOS POLÍTICOS
Mayla di Martino: Aproveitando o tema político, pergunto se você tem filiação político-partidária.
Lars Grael: Tenho filiação.
Mayla di Martino: Isso atrapalha a política de esportes? Você disse que ela fica refém de políticas partidárias...
Lars Grael: É importante que atletas, dirigentes, aqueles que compõem o sistema desportivo nacional e se unem nessa causa suprapartidária participem da vida pública. Alguns atletas ou esportistas de renome hoje se candidatam a cargos públicos. É importante permearmos nessa estrutura, independentemente da bandeira político-partidária, ou seja, ter mais noção de corporação. Eu tenho as minhas convicções político-ideológicas. Fui chamado para atuar no Governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999, talvez até desconhecendo minha veia política, minha vocação para o serviço público; talvez porque eu estivesse exposto na mídia pela superação do acidente. Tive a experiência governamental: 4 anos no Governo Federal, mais 3 anos e 3 meses no governo estadual. Na fase federal, consegui me manter absolutamente independente de partido; não queria vincular a minha luta pela causa do esporte com a questão partidária. Quando me estadualizei em São Paulo, não houve jeito: fui filiado ao Partido da Frente Liberal, um dos partidos que compõem a base do Governo Geraldo Alckmin, e passei a ter, de certa forma, uma vida partidária, sem jamais abrir mão das minhas convicções, da minha independência, da minha forma de pensar. Mantenho bom trânsito em vários outros partidos. Entendo que cada um de nós tem de dar uma contribuição para que, naquele partido, formemos opinião, mostrando a relevância do papel social do esporte. Lá, no outro extremo, o deputado do PCdoB Agnelo Queiroz (DF) encampou a causa, tornou-se ministro e obteve apoio durante grande parte de sua gestão de toda a comunidade esportiva nacional, independentemente da matiz político-partidária.
Mayla di Martino: Ou seja, pode até ter o emblema do time, mas a bandeira partidária não é necessária, quando se trata de esporte.
Lars Grael: Exatamente. Acho que temos uma causa suprapartidária que nos une.
José Cruz: Aqui em Brasília, o governo do Distrito Federal era do PMDB, e a Secretaria de Esportes foi entregue ao PFL. Em São Paulo, o governo estadual era e permanece do PSDB, e você, pelo PFL, assumiu a Secretaria de Esportes. Essa diferença partidária, embora haja coalizão, não cria dificuldades para a liberação de recursos, uma vez que o Governo Federal estaria liberando recursos para o PFL, que lhe faz oposição em âmbito nacional? Como funciona essa relação, especificamente na parte do orçamento?
Lars Grael: Funciona normalmente, de acordo com a realidade, com o quadro político. Curiosamente, os dois partidos políticos que mais encamparam a causa do esporte, aceitando as pastas municipais, estaduais e federais, foram o PFL e o PCdoB. Se voltarmos à época da transição do Governo FHC para o Governo Lula, veremos que o PCdoB não queria o Ministério do Esporte; mas o acabou aceitando e nomeou como ministro um deputado federal que já tinha notório saber ou transitava no meio esportivo: Agnelo Queiroz. A partir disso, houve uma lógica: nos governos estaduais dos quais o PCdoB participa surgiram vários gestores. No estado de São Paulo, em quase todas as prefeituras do PT, o secretário municipal é do PCdoB. Há uma lógica nisso. E ficou até fácil dialogar com esse grupo.
DEFICIÊNCIA FÍSICA
Mayla di Martino: Como homem público e como cidadão, o que ainda falta ser aprimorado na Lei de Portadores de Deficiência Física?
Lars Grael: O problema é muito mais cultural do que a ausência de uma legislação. Recentemente promovi um debate em São Paulo entre o procurador da República Guilherme Schelb e a relatora da Comissão Especial das Pessoas com Deficiência da Câmara, deputada Marinha Raupp. O procurador foi claro: a legislação brasileira é farta sobre esse assunto, às vezes até conflitante; o que falta é seu cumprimento. Nosso país tem a anomalia de conviver com "leis que pegam" e "leis que não pegam". É difícil explicar isso fora do Brasil. Até o presidente da República disse, no discurso sobre o Estatuto do Torcedor: "tomara que essa lei pegue". Em relação ao deficiente é igual: a lei tinha de ser cumprida. Os lugares públicos precisam garantir a acessibilidade; não queremos favor, queremos o cumprimento de nossos direitos. É uma questão cultural, o deficiente precisa sair de uma classe improdutiva para ser produtiva. Nós, quando temos acesso ao trabalho, ao lazer, ao esporte, à cultura, costumamos mostrar vocações que compensam nossas deficiências. Há 25 milhões de pessoas com deficiência no País que poderiam estar produzindo.
Márcio Sardi: Além da legislação, em que outros aspectos da vida se percebe o preconceito contra o deficiente?
Lars Grael: O preconceito existe em várias formas. Você vê a luta de uma senhora acompanhada de um cão-guia que não tem direito a entrar no metrô ou em um shopping; ou do cadeirante que exige o acesso à sua urna de votação, já que na sua seção eleitoral há uma escadaria, mas não o deixaram votar. O preconceito existe, mas é preciso haver a luta. Há uma evolução em relação a isso no Brasil.
José Cruz: O Brasil vai sediar os jogos Pan-Americanos de 2007. Em seguida, virão os jogos dos deficientes. Esse tipo de evento pode contribuir para a sociedade conhecer as dificuldades e ajudar os deficientes a superar seus problemas?
Em São Paulo eu promovi os Jogos Para-olímpicos do Brasil, os Jogos Pan-Americanos de cegos e várias outras competições. Nos Jogos Abertos do Interior, que têm 80 anos de história e são tão tradicionais, o para-desporto está dentro da competição normal. Nunca entendi porque segregar os jogos olímpicos dos para-olímpicos, um com mídia e com glória, e o outro com pena e admiração. O Para-pan-americano vai ser importante para o Brasil. A tendência é fazer com que tudo seja uma grande e única competição, porque o para-atleta sua a mesma camisa, dentro dos mesmos princípios olímpicos, honra a mesma bandeira do País, e às vezes tem uma trajetória mais difícil, porque sofre o preconceito, a dor, a falta de apoio.
José Cruz: Após o acidente ocorrido há oito anos, você se readaptou para continuar velejando e foi convidado agora para participar da regata America´s Cup como comandante do barco, certo?
Lars Grael: Esse é um cenário novo que se abre na minha carreira esportiva porque desde o acidente tento voltar a velejar, e voltei. Conquistei títulos na vela oceânica nacional, sou o atual bicampeão brasileiro de vela oceânica, venci em 2004 e há pouco em 2006; na vela olímpica, modalidade na qual achava que não iria voltar a competir, voltei impulsionado pelo meu irmão Torben. Fui campeão na semana pré-olímpica nacional aqui em Brasília, em 2002, campeão sul-americano em 2005 e veio esse convite para a maior competição da vela mundial, que é o America´s Cup, com o seguinte mote: "nós podemos, você pode". O objetivo é mostrar que, em uma competição desse nível, uma pessoa com deficiência pode superar as pessoas normais.
FAMÍLIA E VALORES
Mayla di Martino: Seu pai, sendo militar na época da Ditadura, fez um inquérito para questionar o próprio inquérito militar sobre a bomba no Riocentro. É um caso do qual você se orgulha, não?
Lars Grael: Sem dúvida. Nós herdamos um espírito público e patriótico do nosso pai, que foi revolucionário de 1964 porque acreditava nos princípios da revolução; quando o Brasil caminhou para uma Ditadura, ele participou de um movimento de resistência democrática. Cumpriu cinco prisões disciplinares, tentou desmascarar a farsa do inquérito policial-militar do Riocentro, que foi um acinte à sociedade, e tentou mostrar que a verdade estava acima daquele inquérito — logo ele, que tinha orgulho de vestir a farda do Exército brasileiro. Meu pai nos trouxe um sentimento de civismo e eu até passei, como autodidata, a estudar política de defesa nacional, segurança. O Brasil está muito aquém do cenário ideal, nos últimos anos negligenciou muito esse tema. Entrou para uma fase democrática quase que démodé, até os valores patrióticos ficaram para segundo plano. Antes, a data 7 de setembro era motivo de orgulho nacional; hoje é dia de pôr as malas no carro e viajar. Curiosamente, hoje o Brasil expressa seu patriotismo através do esporte. Quando ele coloca a bandeira na janela? Na Copa do Mundo, nos jogos olímpicos.
José Cruz: A falta de patriotismo é uma questão educacional, de políticas públicas também, não?
Lars Grael: Na minha época, tive aulas de Moral e Cívica no colégio. A fase democrática do Brasil pós-85, talvez como revanchismo ao regime que vivemos, que usou as aulas de Moral e Cívica com proselitismo, suprimiu a disciplina, o que é ruim para a sociedade. Qualquer nação séria e democrática, seja capitalista, liberal ou socialista, tem nos valores patrióticos um catalisador da sociedade, aquilo que une uma nação em torno de um grande ideal, e nós fomos castrados disso. As gerações que vieram depois passaram a ter uma visão submissa aos valores culturais e econômicos internacionais. O esporte é uma forma de resgatar isso. Você veja que até em competições de empresas se toca o hino nacional antes da partida, em respeito à bandeira. O esporte manteve essa chama acesa, que precisa ser cultivada.
José Cruz: Você disse que seu interesse político foi herdado do pai. O interesse pelo mar, veio do avô?
Lars Grael: Sim, do meu avô materno, um dinamarquês que chegou ao Brasil em 1924 como engenheiro, para construir uma ponte em Cabo Frio e depois voltar à Dinamarca. Se encantou com a Baía de Guanabara e foi um dos precursores da vela de competição no Brasil. Meus tios foram tricampeões mundiais nos anos 60, ouro e prata nos Jogos Pan-Americanos e foram a dois jogos olímpicos. Daí vem um pouco da água salgada que corre no nosso sangue.