Presidente reeleito tem trajetória política singular

01/01/2007 - 14:20  

Reeleito com mais de 58,2 milhões de votos (60,83% do total), o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participou em 2006 da sua quinta eleição para a presidência. Nas três primeiras vezes, ele perdeu para Fernando Collor (1989) e Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998). Em 2002, Lula conseguiu a maior votação obtida até então por um político brasileiro - quase 53 milhões de votos, superada em 2006.

Profissão
Operário e líder sindicalista, Lula nasceu em 1945 em Caetés - na época, um distrito da cidade pernambucana de Garanhuns -, mas foi criado em São Paulo, para onde a família, formada pela mãe e oito filhos, se mudou no início da década de 50. Aos 12 anos, conseguiu o primeiro emprego em uma tinturaria, e aos 18, formou-se torneiro mecânico no Serviço Nacional da Indústria (Senai). Lula é o único dos presidentes brasileiros cuja atuação política teve origem no movimento sindical.
O trabalho levou-o para a região do ABC paulista, que vivia um surto de industrialização e via crescer o movimento sindical metalúrgico. O torneiro mecânico casou-se em maio de 1969 com a tecelã Maria de Lourdes, irmã do melhor amigo. O casamento curto, marcado pela tragédia, culminou na morte da esposa e do primeiro filho, por hepatite.
A morte da esposa e do filho levaram Lula a uma forte depressão. Preocupado, o irmão, Frei Chico, indicou Lula para uma vaga de suplente na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Segundo Frei Chico, Lula resistiu muito a entrar para o movimento sindical porque não gostava de sua associação a partidos de esquerda.

Sindicalismo
Em 1972, foi eleito primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Três anos depois chegou à presidência do sindicato, o que o colocou na linha de frente da oposição brasileira ao regime militar. A viuvez durou três anos e meio. Do namoro com uma auxiliar de enfermagem, nasceu a filha Lurian.
Em 1978, foi reeleito para a presidência do sindicato com 98% dos votos. O reconhecimento nacional veio em seguida, quando liderou uma greve dos metalúrgicos por melhores salários na região do ABC e promoveu assembléias que chegaram a reunir 100 mil trabalhadores no estádio de Vila Euclides. Em 1979, depois de uma greve geral, ficou preso durante 31 dias no Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
Foi também na direção do Sindicato que Lula conheceu a segunda esposa, em 1974. Para receber a pensão do marido morto, Marisa Letícia precisava protocolar um documento no Sindicato. Entre o primeiro encontro e o casamento, passaram-se apenas sete meses. O casal tem três filhos, além de outros dois nascidos de uniões anteriores de ambos.

Novo partido
Diante da promulgação da anistia política, em 1979, Lula iniciou, junto a sindicalistas, profissionais liberais e intelectuais, um movimento para a construção de um novo partido. O resultado foi o Partido dos Trabalhadores (PT), surgido em fevereiro de 1980, que rapidamente se transformou no principal partido de massas do País, dando a Lula a oportunidade de sair dos portões de fábrica para as disputas eleitorais.
Em 1982, foi candidato ao governo de São Paulo e perdeu para Franco Montoro. Eleito deputado federal em 1986 com o maior número de votos do País, Lula liderou o PT na Assembléia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição Federal. Por discordar de pontos inseridos no texto, Lula e a bancada do partido acabaram não assinando a redação final da Constituição.

Presidência
O primeiro ano do mandato de Lula como presidente foi marcado pela aprovação das reformas da Previdência e tributária. Na área social, o principal programa foi o Fome Zero, destinado a fornecer alimentos para famílias carentes. O programa foi ampliado e com o tempo passou a integrar uma série de ações, cuja mais conhecida é o Bolsa Família, que transfere renda para pessoas pobres e atualmente atende 11 milhões de famílias em todo o País.
No plano econômico, o governo manteve algumas das políticas do governo anterior (FHC), como as metas de superávit primário e de inflação. Uma das principais medidas da gestão econômica foi a redução da dívida externa aos menores patamares desde a década de 70.

Crise
Apesar dos avanços sociais, uma sucessão de denúncias derrubou alguns de seus principais dirigentes, como os ex-ministros José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci. O Governo foi acusado de pagar propina a parlamentares para que votassem segundo orientação do Executivo ("mensalão"); de violar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa para proteger o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci; de superfaturar R$ 11 milhões na confecção de cartilha para divulgar ações governamentais; de utilizar a máquina pública para fazer propaganda eleitoral; de arrecadar dinheiro para o PT por meio da publicidade oficial; de desviar dinheiro público para favorecer empresas na compra de ambulâncias para prefeituras ("máfia das Sanguessugas"); de acobertar crimes ambientais ("Plano Safra Legal", no Pará), entre outras denúncias. Somente no episódio do "mensalão", o Ministério Público conseguiu identificar 40 personagens envolvidos ligados ao governo.
Para o próximo mandato, o crescimento econômico e a reforma política deverão mobilizar a atuação governamental, depois do debate suscitado durante o processo de eleições.

Reportagem - Cristiane Bernardes
Edição - Patricia Roedel

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