Veloso: dossiê seria trocado por liberdade dos Vedoin

22/11/2006 - 21:13  

Ao depor na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Sanguessugas na manhã desta quarta-feira, o ex-diretor de gestão de risco do Banco do Brasil Expedito Veloso disse que o dossiê contra políticos do PSDB foi negociado em troca da liberdade de Luiz Antônio Vedoin e Darci Vedoin, apontados como chefes da "máfia das sanguessugas".

De acordo com Veloso, durante as negociações, os donos da Planam revelaram que os R$ 20 milhões exigidos inicialmente pelo dossiê serviriam para custear "um advogado de peso", de preferência que pudesse ficar em Brasília, porque os Vedoin estavam apavorados com a possibilidade de voltar para a cadeia. "Darci Vedoin chegou a esboçar choro uma vez ao falar sobre os momentos em que esteve preso", contou Veloso.

Pressão
Segundo a versão de Veloso, o grupo de petistas que participava da negociação com os empresários explorou esse medo dos Vedoin para conseguir o dossiê. Eles teriam pressionado os donos da Planam a liberar os documentos do dossiê sob a ameaça de publicar informações que já tinham colhido durante uma análise preliminar do material. O vazamento desses dados poderia implicar o cancelamento da delação premiada, benefício que mantém soltos os empresários.

"Receber R$ 10 milhões na cadeia poderia não ser um bom negócio", afirmou o depoente. "Eu tinha a obrigação de tornar as informações públicas, independentemente de isso ser chamado de chantagem ou não", explicou Veloso.

Ele disse ainda que os petistas tinham um "plano B" engatilhado para o caso de os Vedoin não cumprirem o acordo. Pela negociação, os empresários teriam que entregar os documentos à Justiça, fornecer aos petistas uma cópia de todo o material e dar uma entrevista à revista Isto É para denunciar o suposto envolvimento de tucanos com a máfia das sanguessugas. Caso os empresários não cumprissem o combinado, o plano seria entregar os documentos aos repórteres da revista, que já estavam em Cuiabá no dia 14 de setembro para fazer a matéria com os empresários.

Caixa-dois
Expedito Veloso afirmou que faziam parte do dossiê cópias de 15 cheques e comprovantes de transferências bancárias que provariam o pagamento, pela Planam, de gastos de campanha do candidato do PSDB, José Serra, à Presidência da República em 2002.

Veloso sugeriu a investigação das empresas DataMicro Informática e Império Representações Turísticas, que teriam sido beneficiadas por algumas dessas movimentações financeiras. Segundo o depoente, a empresa Império, sediada em Ipatinga (MG), emitia passagens para a campanha de Serra. O elo entre os Vedoin e Serra, afirmou Veloso, seria o empresário Abel Pereira.

Chantagem
Na avaliação do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), Veloso e Jorge Lorenzetti (ex-chefe do núcleo de informações e inteligência da campanha do PT à Presidência da República, que deu depoimento na terça-feira à CPMI) adotaram uma estratégia para desviar o foco das investigações sobre a compra do dossiê contra integrantes do PSDB. O parlamentar descartou a hipótese de que José Serra tenha qualquer envolvimento com a máfia das sanguessugas.

Segundo o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), um dos sub-relatores da CPMI, o depoimento de Veloso revelou que houve chantagem contra os donos da Planam, pois o "plano B" dos petistas era tomar notas dos documentos e denunciar os Vedoin caso não fosse feito o negócio. O deputado disse que a versão é "estranha" porque, segundo ele, se houvesse interesse do grupo de petistas em denunciar os empresários, isso deveria ter sido feito na própria CPMI, que é presidida por um deputado do PT - Antonio Carlos Biscaia (RJ) - e tem outros integrantes do partido.

Dinheiro
Veloso tentou desvincular sua participação do caso do R$ 1,7 milhão que seria usado para comprar o dossiê. O dinheiro foi apreendido pela Polícia Federal na madrugada de 15 de setembro com Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT de Mato Grosso, e com o advogado do PT e ex-agente da PF Gedimar Pereira Passos.

Veloso admitiu ter participado intensivamente das discussões relacionadas aos documentos, mas disse que foi desautorizado por Lorenzetti a negociar qualquer contrapartida em dinheiro.

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Reportagem - Edvaldo Fernandes
Edição - Rosalva Nunes

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