CPI vê forte indício de envolvimento de advogada com PCC

06/09/2006 - 19:00  

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Armas decidiu investigar em profundidade a advogada Ariane dos Anjos, que tem como clientes o preso Marcola Camacho e vários outros dirigentes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Depois de ouvirem a advogada na tarde desta quarta-feira, em audiência pública, o 3º vice-presidente e o relator da CPI, respectivamente os deputados Neucimar Fraga (PL-ES) e Paulo Pimenta (PT-RS), advertiram-na de que têm "fortes indícios" contra ela, e disseram que a CPI vai se empenhar para apurar todos os fatos.
Segundo as informações da CPI, Ariane dos Anjos é uma espécie de "consultora jurídica" do PCC, e integra o primeiro escalão da organização criminosa. A advogada defendeu-se negando trabalhar para o PCC. "Eu trabalho para pessoas que são acusadas de pertencer ao PCC", argumentou.
Além de Marcola, ela reconheceu ter como clientes os presos Luiz Fernandes, Valdeci dos Santos, Abel Andrade, Robson Ferreira, Adriano Caetano, Mário da Silva, José dos Santos, Moacir Corrêa e Evandro da Silva — todos da direção do PCC.

Depósitos da "tia Noêmia"
Indagada se alguma vez se preocupou com a origem dos honorários recebidos, Ariane dos Anjos disse que não. Segundo ela, os pagamentos eram feitos por meio de depósitos bancários, em geral por uma parente de Marcola que ela conhecia como "tia Noêmia". A advogada alegou que nem o Estatuto do Advogado nem a Ordem dos Advogados do Brasil a obrigam a se preocupar com a origem dos honorários.
Ariane informou ter sido casada com Evandro Arantes, ex-agente de segurança do Instituto Penal Agrícola de Bauru. O deputado Paulo Pimenta quis saber por que seu ex-marido deixou o Instituto. Ela respondeu que foi acusado de ter cometido uma infração administrativa, de cujo conteúdo não se lembrava. Paulo Pimenta informou que Arantes foi demitido a bem do serviço público, acusado de operar uma central telefônica clandestina no presídio.

Relações promíscuas
O deputado Neucimar Fraga observou, então, tratar-se de mais um caso de advogada que trabalha para dirigentes do PCC e é ou foi casada com alguém da polícia ou da Justiça. A advogada Maria Cristina Machado, que também trabalha para integrantes do PCC, é casada com um delegado; e Susana Volpini, amiga pessoal de Ariane, foi esposa de um juiz.
"É muita coincidência; tudo leva a crer que há uma constante relação promíscua entre advogadas que trabalham para integrantes do PCC e pessoas ligadas à área da segurança e à Justiça", observou Fraga.
Ao final do depoimento, a advogada entregou à CPI um documento de 1,4 mil páginas com a sua defesa.

Juiz assassinado
Neucimar Fraga e Paulo Pimenta afirmaram que a CPI tem fortes motivos para suspeitar do envolvimento de Ariane dos Anjos no assassinato do juiz Antonio Machado, ocorrido em 14 de março de 2003 em Presidente Prudente (SP).
Pouco antes do assassinato, Ariane esteve na prisão com Marcola. Além disso, a quebra do sigilo do celular de Ariane mostrou que ela recebeu um série de ligações do presídio nos dias anteriores ao assassinato, e um último telefonema poucos minutos após o crime. Depois, as ligações pararam.
"O último telefonema foi para avisar que o serviço já estava feito?" indagou Pimenta. "Excelência, o único serviço era eu que prestava a eles", retrucou a advogada. A CPI suspeita que ela levou a ordem do assassinato do juiz para fora do presídio.

Documento forjado
Depois de muitas perguntas, e de entrar várias vezes em contradição, Ariane dos Anjos admitiu ter colocado uma informação falsa em um documento, em 2005, para poder visitar o preso Donizete Antonio de Oliveira no presídio de Presidente Prudente. Ela assinou um documento, entregue à direção do presídio, no qual informava ter vivido maritalmente por dois anos com Donizete. No mesmo pavilhão de Donizete, estava preso Marcola Camacho.
A advogada disse que, anos antes, havia tido um romance de três meses com Donizete, na cidade de Itapecerica da Serra (SP), numa época em que este estava solto. Ela explicou que pensou em visitá-lo porque Donizete lhe enviava cartas. "Eu estava sozinha e me sentia espiritualmente envolvida com ele", disse Ariane, acrescentando que depois desistiu da visita. E tentou negar o fato de estar respondendo a um inquérito policial por falsidade ideológica: "Só existe uma portaria", alegou.
No final do depoimento, porém, o relator Paulo Pimenta leu uma cópia do inquérito aberto contra ela por falsidade ideológica. "A senhora forjou um relacionamento para tentar ingressar indevidamente no presídio, e evitou usar sua condição de advogada, sabe-se lá com que finalidade", acusou Pimenta. Ela respondeu que assinou a falsa informação relativa aos dois anos de vida marital "porque essa era uma exigência da direção do presídio".

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Reportagem - Luiz Claudio Pinheiro
Edição - Renata Tôrres

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