Gravação comprova que invasão da Câmara foi premeditada
07/06/2006 - 19:07
Uma gravação de vídeo apreendida com um dos 537 invasores da Câmara, na tarde de terça-feira (06), não deixa dúvidas: a ação do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) foi completamente premeditada, organizada e ensaiada em detalhes. O "alvo principal" dos manifestantes foi o salão Verde da Câmara, que eles, em alguns momentos, chamam de "salão de festa". Eles avisam que pretendem "pôr em xeque a segurança do Congresso" e um dos organizadores diz que se trata de um "processo de guerra".
O material, no entanto, não deixa claro se as cenas de violência e vandalismo também estavam previstas ou se a situação fugiu ao controle dos organizadores do movimento. A ação deixou um saldo de 60 feridos e prejuízos materiais de R$ 102 mil ao patrimônio público, em um primeiro levantamento.
A fita de vídeo, gravada na noite da última segunda-feira (5) em formato mini-DV, registra a reunião em que foi planejada a invasão e inclui imagens internas e externas do Congresso, feitas nos dias anteriores. Um dos líderes, identificado como Antonio José Arruti Baqueiro, orienta cerca de 60 pessoas, reunidas no auditório da sede nacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) em Brasília.
Bolachas e pontapés
Durante a reunião, os detalhes da ação para o dia seguinte são repassados e os manifestantes prevêem que poderia ocorrer algum tipo de violência. Um dos mais radicais avisa que pode ser necessário "dar umas bolachas, uns pontapés". E um outro chama a atenção para o fato de que "para cada ação há uma reação".
Baqueiro, visivelmente diferente dos outros na forma de se vestir e falar, afirma que a "companheirada" ali reunida foi "escolhida a dedo pela coordenação do movimento em seus estados, porque são pessoas da mais alta confiança, capazes de cumprir a tarefa e com coragem para dar conta do recado."
O líder avisa: ou eles aceitam a tarefa ou estão fora. Segundo essa liderança do MLST, muitos deles já têm experiência nesse tipo de ação, pois participaram da invasão da sede do Ministério da Fazenda, ocorrida em abril do ano passado.
Visitas diárias
"Vamos mostrar para o Brasil a reforma agrária que queremos", conclama Baqueiro. "Essa corja do PFL e PSDB retardou a votação do orçamento, achando que iria prejudicar o Lula. Mas Lula não está nem aí, continua com 63% nas pesquisas", afirma Baqueiro, provocando risos generalizados na platéia formada por homens e mulheres adultos e alguns idosos.
O líder conta que chegou há quinze dias na cidade e que tem visitado o Congresso diariamente para verificar como as coisas funcionam, escolher as melhores entradas para os companheiros e tentar prever as reações da segurança. Ele faz referência aos ataques recentes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo e afirma que, por conta disso, "o setor de inteligência da Câmara está muito mais atento". E lembra que, no dia do depoimento dos advogados supostamente ligados ao PCC na CPI do Tráfico de Armas, a segurança estava mais alerta, mas que no dia da ação programada por eles "a coisa ia ser mais tranqüila".
Estratégia
De acordo com a fita, o grupo ali presente seria o primeiro a entrar na Câmara, em pequenos grupos, por volta das 13h30, e se posicionaria em locais estratégicos, preparando o terreno para a entrada dos outros manifestantes que chegariam às 14 horas. Um dos líderes informa que o restante do pessoal chegaria à cidade sem saber exatamente o que iria fazer em Brasília. O grupo ficaria no Parque da Cidade e de lá partiria em ônibus como se fossem turistas. "O trajeto do parque ao Congresso demora uns 15 minutos, mas os ônibus devem ficar rodando pela cidade por uma hora, para não levantar suspeitas", explica um dos organizadores.
"É preciso termos claro como será o nosso comportamento amanhã", ressalta um dos manifestantes. Ele observa que não podem "parecer sem terra" e por isso não devem ir de bermudas, bonés e camisetas, nem portar faixas. Esse material seria levado pelo "povão" que chegaria depois de ônibus. "Depois da gente entrar lá, a gente só sai como e quando quiser. Vamos dominar o negócio lá, como no Ministério da Fazenda", acrescenta um dos organizadores. "Não somos crianças, sabemos o que queremos fazer."
Reivindicações
Segundo a fita, os manifestantes foram orientados a fingir naturalidade para as equipes de repórteres e pessoal técnico das televisões que sempre estão no salão Verde. Eles são orientados sobre a maneira de tratar a imprensa. "O companheiro que não se sentir seguro para falar passa para outro, porque jornalista sempre questiona mais quando percebe que a pessoa não está preparada", diz um organizador.
Alguns dos presentes à reunião não têm idéia sequer de quais reivindicações eles vão apresentar. Um deles explica que todas as questões estão ligadas à reforma agrária, como a revogação de medida provisória que impede a desapropriação de áreas ocupadas por invasões; punição para os assassinatos de lideranças camponesas; índice de produtividade no campo; inadimplência dos assentamentos; fim do trabalho escravo e descriminalização dos movimentos sociais. Ao final, eles são orientados a dormir cedo, pois o dia seguinte será decisivo. A reunião termina com aplausos.
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Reportagem - Newton Araújo Jr.
Edição - João Pitella Junior
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