Para Fraga, advogado pode ter causado mortes em São Paulo
25/05/2006 - 20:11
O ex-prestador de serviços terceirizados à Câmara Artur Vinícius Pilastre, que é técnico de som, acusou os advogados Sérgio Weslei da Cunha e Maria Cristina Rachado de terem lhe pagado R$ 200, no dia 10 de maio, por CDs com arquivos de áudio dos depoimentos à CPI dos Rui Ferraz Fontes, especialista em PCC, e Godofredo Bittencourt, diretor do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), ambos de São Paulo.
"A sua conduta foi a causadora das mortes de 24 policiais e outros tantos civis", disse o deputado Alberto Fraga (PFL-DF) a Cunha, durante a acareação da CPI do Tráfico de Armas nesta quinta-feira. "Querem ligar o CD à violência ocorrida em São Paulo, mas o que provocou os ataques foi o sistema [de Segurança Pública] falido, que não consegue resolver os seus problemas", defendeu-se o advogado.
Sem traição
O relator da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), supõe que o esforço para obter a fita foi para mostrar ao principal líder da facção criminosa, Marcos Herbas Camacho, o Marcola — cliente de Maria Cristina —, que o depoente daquele dia, Leandro Lima de Carvalho, cliente de Cunha, não havia traído o PCC.
Silva disse aos deputados que aceitou fazer a cópia do áudio da reunião para os advogados depois que Cunha lhe prometeu um "cafézinho". Cunha nega que tenha prometido qualquer vantagem para Silva em troca da gravação.
Na versão do técnico, os três foram de táxi para o shopping Pátio Brasil, na região central de Brasília, para fazerem cópias do CD que ele produziu na comissão. Após entregar uma cópia do CD para cada um dos advogados, Maria Cristina teria lhe passado R$ 200. Ela nega. "Eu paguei, sim, R$ 18,50 à loja pelo serviço de gravação. Não paguei nada a ele. Ele quer jogar tudo em cima de mim", rebateu.
"Se a senhora não pagou e o doutor Sérgio não pagou, por que o Artur entregou o CD?" indagou o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).
Contradição
Em outro momento da acareação, Maria Cristina afirmou que o técnico "não quis receber o dinheiro lá dentro [da loja onde foi copiado o CD]". O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) entendeu que essa frase da advogada constitui uma confissão. "Se ele não quis receber o dinheiro lá dentro, fica claro que alguém lhe ofereceu dinheiro", disse o parlamentar. A advogada negou: "Eu não quis dizer isso."
Maria Cristina se atrapalhou ao tentar explicar que não podia ter pago R$ 200 a Silva porque só tinha R$ 250 na carteira. Ela admitiu que gastou R$ 50 com o táxi. Com isso, sobraria a mesma quantia que Silva alega ter recebido. "Não, esse dinheiro era para o hotel", desconversou.
Mais dinheiro
O próprio Silva admitiu, porém, que não vendeu o CD por apenas R$ 200, como noticiado pela imprensa. Na verdade, ele esperava receber mais dinheiro pelo serviço, apesar de relatar que a promessa era apenas um "cafézinho". Segundo Silva, Cunha teria lhe prometido um pagamento suplementar, além dos R$ 200. "Vou falar com os meninos para te mandar algo", teria lhe dito o advogado.
Os deputados entenderam que Cunha se referia a integrantes do PCC. Silva confessou que chegou a mandar um e-mail para Maria Cristina buscando orientação para receber mais dinheiro.
Curiosidade
Na opinião dos parlamentares, Maria Cristina mentiu quando disse que veio à reunião da CPI "por curiosidade". Pressionada pelo deputado Carlos Sampaio, ela reconheceu que tinha interesse no que seria dito lá. Além das contradições, ela teria mentido ao alegar que visitou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) naquele dia.
O deputado Neucimar Fraga (PL-ES) apresentou um relatório das visitas de Maria Cristina ao Tribunal. A última delas, de acordo com o documento, foi em 30 de setembro de 2005. Ela tentou se justificar, dizendo que não chegou a ir às secretarias ou gabinetes do ministros, razão por que não houve o registro de sua presença. Mas, consultado imediatamente pela comissão, o tribunal informou que é impossível checar andamentos nas dependências do órgão sem a prévia identificação.
Corrupção ativa Reportagem - Edvaldo Fernandes e Vania Alves
O presidente da CPI, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), concluiu que, ao admitir a abordagem ao então responsável pela gravação da reunião, os advogados já se incriminaram. Ele lembrou que o crime de corrupção ativa consiste em oferecer vantagem a funcionário público.
Para ele, não tem relevância a discussão sobre se o técnico recebeu ou não dinheiro, pois a existência do CD já é a prova do crime. Os dois advogados negaram ter oferecido alguma coisa a Silva, mas não conseguiram explicar por que ele concordou em vazar a gravação - que sabia sigilosa -, inclusive acompanhando-os até o shopping. "Ele não faria isso à toa", disse o deputado.
Edição - Renata Tôrres
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