Publicitário admite que repasses da DNA não eram usuais

24/11/2005 - 22:36  

O publicitário Luiz Alberto Costa Marques, diretor em Brasília da empresa Ogilvy Brasil Comunicação, admitiu que "não é usual" no mercado a prática de uma agência de publicidade intermediar o pagamento feito por um cliente a outras agências que lhe prestaram serviços. Foi o que ocorreu com a empresa DNA Propaganda, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que repassou pagamentos da Visanet à própria Ogilvy e à D+ Brasil. A Visanet tem mais de 30% das ações controladas pelo Banco do Brasil e a DNA é uma das agências de Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do "mensalão". Costa Marques depôs nesta quinta-feira na sub-relatoria de Contratos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios.

Adiantamentos
"Ficou claro que a DNA se apropriava indevidamente dos ganhos financeiros da antecipação de recursos feita pelo Banco do Brasil para pagar por serviços de publicidade prestados à Visanet", concluiu o sub-relator de Contratos, deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Segundo ele, a DNA recebia antecipadamente, aplicava o dinheiro, tendo assim ganhos financeiros, e só pagava às outras agências depois que estas prestavam os serviços. As empresas, enquanto isso, emitiam as faturas em nome do Banco do Brasil.
A DNA teve cancelados os contratos com o Banco do Brasil depois que a CPMI passou a investigar as relações de órgãos públicos com o empresário.
O publicitário Costa Marques admitiu ainda que, após o fim do contrato da DNA com o Banco do Brasil, em conseqüência das investigações da CPMI, o banco passou a ficar "mais cauteloso" com os contratos de publicidade.
O depoente disse não conhecer Marcos Valério, mas afirmou que já havia encontrado algumas vezes o sócio do empresário, Cristiano Paes, da agência SMPB, nas reuniões com órgãos públicos.

Corrupção
O deputado Cardozo questionou Costa Marques sobre notas fiscais das empresas D. Simone, Cônsil Assessoria Empresarial Ltda e Gráfica Criativa, relativas à prestação de serviços pela realização de eventos para o Banco do Brasil. Essas notas foram auditadas pelo Tribunal de Contas da União, que detectou cobranças indevidas de bonificações de volume e o recebimento de honorários em cima dessas bonificações. O depoente não soube explicar o porquê de isso ter acontecido.
Bonificação de volume é uma comissão paga pelos fornecedores às agências de publicidade como bônus pelo volume de anúncios veiculados. Porém, na prática, a bonificação acaba sendo paga pelo cliente, uma vez que os preços cobrados já incluem seu valor. Para tanto, as agências emitem uma nota fiscal por serviços prestados a título de bonificação de volume.
Para Cardozo, os contratos que as agências fecham com prestadores de serviço de sua livre escolha são "facilitadores da corrupção", uma vez que permitem indicações do governo para a contratação de empresas pré-estabelecidas. Por isso, o deputado está elaborando um projeto de lei que disciplina as relações entre essas empresas e o governo e fechar essas possíveis brechas para a corrupção.

Delúbio
Outro foco de investigação do depoimento de hoje foi o relacionamento do publicitário Mauro Montorin, que passou a trabalhar neste ano para a Ogilvy, com o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores Delúbio Soares. Costa Marques disse que não conhecia Delúbio e que soube das relações entre os dois pela imprensa. O depoente afirmou ainda que, até onde sabe, a contratação de Montorin pela Ogilvy não foi indicação de ninguém do governo.
Segunto Costa Marques, Montorin é um publicitário famoso, já recebeu vários prêmios, tendo inclusive sido eleito publicitário do ano. Por isso ele teria sido contratado pela Ogilvy. O deputado Cardozo ficou, porém, surpreso ao ouvir do depoente que Montorin já foi presidente de um banco, o Lemmon Bank. O sub-relator decidiu solicitar que o publicitário seja ouvido pela CPMI. É intenção de Cardozo ouvir também os responsáveis pela Visanet.

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Reportagem - Newton Araújo Jr.
Edição - Sandra Crespo

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