Deputado revela esquema de poder da Universal na Câmara
17/11/2005 - 20:25
O deputado Wanderval Santos (PL-SP), que depôs nesta quinta-feira no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, revelou o funcionamento de um esquema paralelo de comando dos parlamentares ligados à Igreja Universal do Reino de Deus. Segundo ele, o ex-deputado Carlos Rodrigues (o Bispo Rodrigues) tinha liberdade para interferir no funcionamento dos gabinetes dos deputados ligados à igreja. Rodrigues era o coordenador político dos parlamentares integrantes da Universal.
Ainda segundo Wanderval, Rodrigues foi o responsável por sua indicação à disputa pelo cargo de deputado federal. Wanderval, porém, negou que nas próximas eleições vá buscar o apoio da Igreja Universal para uma possível candidatura.
Valerioduto
O depoente demonstrou que a hierarquia dentro da igreja funcionava também para a Câmara dos Deputados. "O mandato não é do parlamentar, é da igreja", resumiu, ao negar as acusações de que teria sido beneficiário do esquema de Valério. Ele é acusado de ter quebrado o decoro pelo fato de seu motorista Célio Marcos Siqueira ter sacado R$ 150 mil do chamado "valerioduto" na agência do Banco Rural em Brasília.
O deputado explicou que Siqueira, assim como qualquer funcionário de seu gabinete, poderia atender a pedidos do ex-deputado Carlos Rodrigues.
Rodrigues renunciou a seu mandato em razão das denúncias do "mensalão". O depoente revelou que Siqueira atendeu a outros pedidos particulares do ex-deputado, como fazer compras ou levar a filha à faculdade.
Wanderval abriu ao conselho seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Disse que continua fiel à Universal, mas não permite mais que os funcionários de seu gabinete na Câmara fiquem subordinados a essa estrutura de comando da igreja. Ele afirmou ainda que não puniu seu motorista, que é seu funcionário há sete anos, devido ao fato de ele ter seguido "a orientação que vigorava".
Dever doutrinário
Para o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), Wanderval agiu "por um dever doutrinário". Quem conhece a doutrina da Igreja Universal do Reino de Deus, observou, sabe que Wanderval não poderia perguntar ao coordenador político da igreja sobre a origem do dinheiro que recebia. "A hierarquia da igreja é muito rígida", disse Sampaio.
O deputado Sandro Mabel (PL-GO) também defendeu a inocência do colega. Em defesa de Wanderval, ele reforçou que a disciplina é levada a sério na Igreja Universal e que todos os parlamentares ligados àquela religião obedeciam à orientação do então deputado Carlos Rodrigues. Pelo raciocínio de Mabel, Wanderval Santos votaria de qualquer forma segundo orientação de Rodrigues; portanto, não haveria razões para ser remunerado pelos votos que dava.
Depoimento chocante
As declarações de Wanderval causaram impacto. O presidente do conselho, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), disse que a revelação "foi realmente chocante para uma casa legislativa que tem seus partidos políticos".
Essa hierarquia fora da estrutura política e partidária, em que parlamentares e assessores ficam submetidos a decisões de outro parlamentar em razão da fé, foi considerada "um fato grave que precisa ser melhor apurado", disse o relator do processo contra Wanderval, deputado Chico Alencar (Psol-RJ).
"Trata-se do detentor de um mandato conferido pela população, mas que na realidade não detém o mandato. Há uma chefia estranha à disciplina partidária e aos preceitos republicanos", estranhou Alencar, ao classificar o sistema como um "verdadeiro partido da Igreja Universal".
Agenda
O conselho vai se reunir na próxima segunda-feira (21), às 15 horas, para ouvir o depoimento do deputado Roberto Brant (PFL-MG). Ele sofre processo por quebra de decoro, acusado de ter recebido recursos do suposto operador do "mensalão", Marcos Valério Fernandes de Souza.
O relator também decidiu pedir para depor como testemunhas no processo o ex-deputado Carlos Rodrigues, a diretora comercial da SMPB, Simone Vasconcellos, que fazia os pagamentos designados por Marcos Valério, e o motorista Célio Marques Siqueira.
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Reportagem - Eduardo Tramarim e Oscar Telles
Edição - Sandra Crespo
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