Presidenta do Rural afirma que Valério facilitava negócios
A presidenta do Banco Rural, Kátia Rabello, depôs por cerca de três horas no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, nesta quinta-feira. Kátia compareceu como testemunha de acusação na representação do PTB contra o deputado José Dirceu (PT-SP). Ela negou ter tratado com o ex-ministro-chefe da Casa Civil a respeito dos empréstimos concedidos pelo banco ao Partido dos Trabalhadores e às empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado como operador do suposto esquema de "mensalão".
Facilitar negócios
Kátia admitiu, no entanto, que Marcos Valério se tornou um interlocutor da instituição com o Governo Federal para facilitar negócios. Segundo a executiva, Valério agendou três encontros entre os representantes do banco e Dirceu quando ele era chefe da Casa Civil. Dois deles ocorreram no Palácio do Planalto. O terceiro foi um jantar em Belo Horizonte.
O objetivo principal desses encontros foi o processo de liquidação do Banco Mercantil de Pernambuco, que está sob administração do Banco Central. O Rural já detém 22% das ações do Mercantil e tinha interesse em aumentar sua participação.
Kátia afirmou que Valério se apresentou para intermediar contatos com o Planalto porque a SMPB presta serviços de publicidade para o Rural e tem interesse em que o banco esteja "bem". A executiva ainda apontou como uma das razões para o empenho do empresário as dívidas que ele tem com a instituição, decorrentes de empréstimos de suas empresas.
Benefícios suspeitos
O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) perguntou à depoente se as boas relações com o governo, por causa da intermediação de Marcos Valério e dos empréstimos concedidos ao PT, teriam alguma relação com os R$ 5,2 milhões investidos no Rural, no início de 2003, pela Petros, fundo de pensão da Petrobras.
Esse investimento, segundo o deputado, chegou a R$ 24,5 milhões no segundo semestre do mesmo ano. De acordo com o tucano, a Petros nunca havia investido no Banco Rural durante o governo Fernando Henrique.
Kátia respondeu que o banco fez um estudo sobre a soma dos investimentos de órgãos ligados ao governo federal nos governos FHC e Lula. Segundo ela, não foram encontradas variações em relação ao total dessas aplicações. "O que houve foi uma ligeira queda", disse a executiva.
Culpa do morto
Kátia Rabello disse ao relator do processo contra Dirceu, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), que, embora o banco tivesse conhecimento das operações do empresário Marcos Valério, não foram levantadas suspeitas sobre possíveis ilegalidades. Segundo ela, os saques em dinheiro provocavam certo incômodo, mas, para o banco, a responsabilidade das transferências "cabia ao cliente" (Marcos Valério).
A presidenta do Banco Rural atribuiu a responsabilidade pelas transações sob suspeita ao então vice-presidente, José Augusto Dumont, morto em 2004. Kátia informou não ter conhecimento de nenhum esquema de corrupção relacionado às operações até surgirem as denúncias do ex-deputado Roberto Jefferson.
Kátia Rabello disse que se encontrou, em algumas ocasiões, com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Segundo ela, Delúbio foi algumas vezes ao Banco Rural discutir os empréstimos com o vice-presidente. Nessas ocasiões, ele a visitava em sua sala e, por vezes, tomavam café juntos.
De acordo com a executiva, além dos saques realizados na agência de Brasília, pessoas indicadas por Marcos Valério faziam saques na conta da agência SMPB em Belo Horizonte e emitiam ordens de pagamento para beneficiários em Brasília.
Outros depoimentos
O relator da representação contra José Dirceu, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), quer marcar para a semana que vem o depoimento do controlador do banco BMG, Flávio Guimarães. O deputado pretende, ainda, convidar mais uma vez Marcos Valério para depor, já que o empresário se negou anteriormente. De acordo com Delgado, o relatório sobre o caso deve ficar pronto na primeira quinzena de outubro.
O depoimento de José Dirceu no Conselho de Ética está previsto para a próxima terça-feira (27).
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