Banco Rural diz que operações de Valério causavam incômodo
22/09/2005 - 12:14
A presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, disse há pouco no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar que, embora o banco tivesse conhecimento das operações do empresário Marcos Valério, não foram levantadas suspeitas sobre possíveis ilegalidades. Segundo ela, os saques em dinheiro provocavam certo incômodo, mas, para o banco, a responsabilidade das transferências "cabia ao cliente" (Marcos Valério).
A presidente do Banco Rural atribuiu a responsabilidade pelas transações a seu antecessor na presidência, José Augusto Dumont, morto em 2004. Kátia informou não ter conhecimento de nenhum esquema de corrupção relacionado às operações, até surgirem as denúncias do ex-deputado Roberto Jefferson.
De acordo com a executiva, além dos saques realizados na agência de Brasília, pessoas indicadas por Marcos Valério faziam saques na conta da agência SMPB em Belo Horizonte e emitiam ordens de pagamento para beneficiários em Brasília.
PSDB
O relator do processo contra o deputado José Dirceu, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), perguntou à depoente por que o banco concordou em fazer novo empréstimo à SMPB mesmo depois de ter tomado prejuízo em operação equivalente que teria beneficiado o PSDB.
O presidente do PSDB, senador Eduardo Azeredo (MG), é acusado de ter sido beneficiado indiretamente por recursos da agência DNA, também de Marcos Valério, durante sua campanha à reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998, em operação semelhante à que está sendo apurada pelas comissões mistas de inquérito em favor do PT.
Segundo Delgado, o empréstimo de R$ 9 milhões à DNA teria sido quitado cinco anos depois, com o pagamento de apenas R$ 2 milhões, "resultando em R$ 7 milhões de prejuízo, no mínimo".
Kátia respondeu que, conhecendo José Augusto Dumont, imagina que ele tenha concedido os novos empréstimos, que teriam beneficiado o PT, por causa do grande crescimento das movimentações da SMPB.
Encontros com Dirceu
Kátia repetiu que representantes do banco encontraram-se três vezes com o ex-ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu (PT-SP). Dois deles ocorreram no Palácio do Planalto. O terceiro foi um jantar em Belo Horizonte.
Segundo ela, os executivos do Rural procuraram Dirceu para que ele ajudasse no fechamento de "bons negócios" para a empresa. Um dos pedidos teria sido a compra do Banco Mercantil de Pernambuco, o que acabou se efetivando.
Kátia disse que os encontros foram intermediados pelo empresário Marcos Valério de Souza.
Ex-mulher
Outra questão levantada pelo relator foi o empréstimo à segunda ex-mulher de Dirceu, Angela Saragoza, supostamente a pedido de Marcos Valério. A depoente disse não ter conhecimento de nenhum pedido do empresário em favor da operação. Mas recorda-se de que o então presidente do banco ligou para uma das agências de São Paulo para determinar que o empréstimo fosse feito.
A executiva garantiu que o empréstimo de cerca de R$ 40 mil foi normal e que as parcelas estão sendo quitadas "religiosamente em dia".
A reunião prossegue no plenário 9.
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Reportagem - Edvaldo Fernandes
Edição - Maria Clarice Dias
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