Dantas acusa governo de intervir em fundos de pensão

21/09/2005 - 22:43  

Em depoimento nas comissões parlamentares mistas de inquérito (CPMIs) dos Correios e da Compra de Votos, o presidente do grupo Opportunity, Daniel Dantas, se disse prejudicado pelo atual governo. Embora admitindo não ter provas para sustentar a afirmação, o banqueiro acusou o governo de manipular os fundos de pensão para tirar o Opportunity do controle decisório da Brasil Telecom. A empresa Telecom Italia, que tem participação minoritária como acionista da Brasil Telecom, teve o apoio dos fundos para assumir o controle da empresa.
O depoente afirmou ter informações de que o presidente da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil), Sérgio Rosa, não tomava decisões sem o conhecimento do chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos do governo, ex-ministro Luiz Gushiken. Apesar disso, em resposta ao deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS), Dantas disse não poder opinar sobre os interesses do ex-ministro ao interferir no conflito entre os fundos e o Grupo Opportunity.
A suposta disputa entre Gushiken e o então chefe da Casa Civil José Dirceu pela influência sobre os fundos de pensão foi muito explorada pelos parlamentares durante a reunião. Dantas relatou ter se reunido por duas vezes com Dirceu para reclamar contra a ingerência do governo nas negociações envolvendo os investimentos dos fundos que eram geridos pelo Opportunity. Segundo ele, Dirceu teria pedido que fosse procurar o então presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, mas este teria dito a Dantas que o governo tinha interesse no cancelamento de seus contratos com os fundos.
O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) informou que vai pedir a convocação de Cássio Casseb.

Interferência na CRT
As interferências não teriam acontecido apenas no atual governo. Segundo Dantas, houve uma constante ingerência política com objetivos alheios aos interesses dos fundos geridos por ele - que são gerar o máximo de retorno financeiro para os investidores. Daniel Dantas negou, no entanto, que a administração dos recursos de fundos de pensão e do Citibank leve em conta interesses particulares.
O banqueiro citou como exemplo de interferência política a aquisição da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) pela Brasil Telecom, ocorrida em 2000. Ele lembrou que a Telefônica havia comprado a Telesp e a CRT, mas a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) considerou a compra irregular e deu prazo de 18 meses para a empresa vender a CRT. A Telefônica, então, deu um prazo curto para as propostas de compra e divulgou um balanço com perdas.
Na época, segundo Dantas, o Opportunity, que já era gestor da Brasil Telecom, avaliou que a CRT valia entre 550 e 600 milhões de dólares (entre R$ 1,258 bilhão e R$ 1,372 bilhão). A Telecom Itália, no entanto, fez uma proposta de US$ 850 milhões (R$ 1,944 bilhão), ao mesmo tempo em que o Opportunity passou a ser pressionado pelo Ministério das Comunicações para elevar o preço de sua oferta.
Foi aí que, segundo Dantas, em uma reunião na Anatel da qual o Opportunity não pôde participar, a Brasil Telecom comprou a CRT por R$ 800 milhões. O presidente do Opportunity disse ter sido informado de que o preço foi elevado porque se trataria de uma aquisição estratégica.

Contratação da Kroll
Daniel Dantas esclareceu que a Brasil Telecom contratou a empresa Kroll para investigar - e não para espionar - o processo de compra da CRT. O que a Brasil Telecom queria saber ao contratar a Kroll, conforme Dantas, era se parte dos recursos pagos acima do preço nessa compra teria sido destinada a algum dos grupos de investidores. "A Brasil Telecom nunca encomendou investigações sobre integrantes do governo", disse Daniel Dantas.
Ele disse que não teve acesso ao conteúdo do relatório produzido pela Kroll e que não sabe o valor pago à empresa. Afirmou, porém, ter obtido a garantia de que as investigações não envolveram atos ilegais.

Relação com Citibank
Dantas explicou como o Citibank entrou no negócio da telefonia brasileira. Ele disse que, em 1996, a instituição americana procurou o Opportunity para gerir seus negócios no Brasil. Foram criados, então, três fundos de participações privadas geridos pelo Opportunity. Um deles só tinha recursos do Citibank (700 milhões de dólares, o equivalente a R$ 1,6 bilhão); outro tinha recursos de clientes próprios do Opportunity, com 200 milhões de dólares (R$ 457 milhões); e o outro movimentava R$ 560 milhões de fundos de pensão e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Dantas disse que os fundos foram criados por razões fiscais, já que o Citibank queria um fundo fora do Brasil.
Em resposta ao deputado Gastão Vieira (PMDB-MA) sobre a origem dos recursos de R$ 1 bilhão usados por Dantas para comprar telefônicas brasileiras, o banqueiro explicou que a maior parte do dinheiro veio do Citibank. Gastão Vieira também indagou por que foi necessária a interferência do então presidente Fernando Henrique Cardoso no conflito entre o consórcio montado pelo Opportunity e o liderado por uma construtora visando a compra da Telebrás. Dantas explicou que o seu consórcio já estava pronto bem antes da privatização, enquanto o concorrente teria sido organizado apenas 20 dias antes do leilão.
O banqueiro informou ainda que o contrato da Brasil Telecom tem uma cláusula que garante o preço das ações do Citibank por dois anos. Por isso, de acordo com ele, seria mais fácil para os fundos comprar a participação do banco americano que garantir o preço das ações.

Filhos e irmã
O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto pediu detalhes sobre o contrato da Telemar com a Gamecorp, empresa de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente Lula, que teria resultado no pagamento de R$ 5 milhões à Gamecorp. Daniel Dantas respondeu que o diretor da Telemar, Ion Moreira da Silva, considerou o preço do negócio muito alto e não o concluiu.
Já a senadora Ideli Salvati (PT-SC) mencionou uma suposta sociedade de Verônica Serra, filha do prefeito de São Paulo, José Serra, com Verônica Dantas, irmã de Daniel Dantas.

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Da Reportagem
Edição - Rejane Oliveira

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