Banco Rural cobrará empréstimos do PT e de Marcos Valério

13/09/2005 - 22:08  

A presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, informou nesta terça-feira à sub-relatoria de movimentação financeira da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios que vai cobrar na Justiça os empréstimos feitos ao empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, que totalizam R$ 56 milhões; e ao PT, no valor de R$ 6 milhões. Ela admitiu, contudo, ter "pouca esperança" de receber o dinheiro.
Kátia Rabello disse que só ficou sabendo do empréstimo do PT após a morte do vice-presidente do banco, José Augusto Dumont, em 2004. A operação havia sido autorizada por Dumont.
A depoente informou ainda que as empresas de Marcos Valério tiveram 19 empréstimos concedidos entre 2003 e 2004, e que quatro desses contratos já estão em processo de execução. O maior deles, de R$ 19 milhões, tem valor atualizado de R$ 38 milhões.

Jantar com Dirceu
No depoimento, Kátia Rabello admitiu que jantou com o ex-ministro José Dirceu, mas garantiu que os empréstimos a Marcos Valério e ao PT não foram discutidos no encontro. Eles teriam tratado da situação do Banco Mercantil de Pernambuco, comprado em 1995 pelo Rural.
Para o sub-relator de movimentação financeira, deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), há uma troca de interesses nessas relações. “Agora é evidente que há uma relação de interesses, que as datas coincidem com os empréstimos, com pagamentos e é evidente que Marcos Valério estabeleceu esse papel de facilitador de interesses do banco junto ao governo. Um dos canais junto ao ministro José Dirceu”, disse Fruet.

Garantia para crédito
Os parlamentares não se convenceram da afirmação da depoente de que a movimentação financeira das empresas de Marcos Valério, que chegou a R$ 525 milhões nos últimos cinco anos, foi suficiente como garantia para o crédito. Para o deputado Murilo Zauith (PFL-MS), os empréstimos concedidos ao empresário não seguiram as normas do Banco Central, pois não houve garantia real. O parlamentar lembrou que, no caso dos produtores rurais, por exemplo, as fazendas são dadas como garantia para a concessão de crédito.
A senadora Heloísa Helena (Psol-AL) observou que o banco deve ter levado em conta o poder político dos clientes na hora de conceder os empréstimos. Segundo Kátia Rabello, porém, as operações foram autorizadas porque as contas das empresas de Valério apresentavam padrão constante e recebiam depósitos de clientes sobre os quais não pairavam dúvidas.
Além disso, segundo a depoente, havia uma relação estreita entre o Banco Rural e as empresas de Valério, que, inclusive, prestavam serviços de publicidade à instituição. "Se houvesse crime, seria o mais imperfeito da humanidade, já que tudo foi comunicado diariamente ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), como manda norma do Banco Central, e o próprio órgão fiscalizador não percebeu qualquer irregularidade", ironizou.

Saques não identificados
A senadora Ideli Salvati (PT-SC) questionou a presidente do Banco Rural sobre a não-identificação de pessoas que sacaram dinheiro das contas de Marcos Valério. Segundo a senadora, em algumas operações era possível conhecer o nome do sacador; mas em outras, não. Em resposta a Ideli, a funcionária do banco Ayanna Tenório Torres de Jesus, que auxiliou Kátia no depoimento, explicou que, até meados de 2003, os saques eram feitos por funcionários das empresas de Valério, sempre em Belo Horizonte (MG). A partir desse período, houve, segundo ela, mudança de padrão por exigência do vice-presidente do banco à época.
Ayanna observou que outro fato contribuiu para a alteração no procedimento do banco: pessoas que não eram funcionárias de empresas de Marcos Valério passaram a sacar, e em agências fora de Belo Horizonte - em São Paulo e Brasília. "Por conta disso, o Rural passou a orientar as agências a exigir identificação", afirmou a funcionária.

Reportagem - Cristiane Bernardes e Ana Raquel Macedo
Edição - Rejane Oliveira

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