BEIRA-MAR DEPÕE PARA DUAS COMISSÕES

15/05/2001 - 20:25  

Os deputados das comissões de Direitos Humanos e de Combate à Violência consideraram frustrante o depoimento do traficante Fernandinho Beira-Mar, que se recusou a revelar nomes de pessoas envolvidas com o narcotráfico.
Beira-Mar insistiu em dizer que não é o maior traficante do Brasil e que essa imagem foi criada por policiais federais e reforçada pela Imprensa. "Criaram um Fernandinho Beira-Mar. Fernandinho Beira-Mar é a pontinha do iceberg. Mas eu não tenho vocação para alcagüete, não vim aqui para delatar ninguém".
Ao declarar que não prestaria depoimento à CPI do Narcotráfico pelo fato de a Imprensa modificar todas as suas palavras, Fernandinho acusou a Polícia Civil de Minas Gerais de comandar 60% do tráfico de drogas naquele Estado.
Beira Mar, que veio depor como convidado das duas Comissões e, por isso, tinha o direito constitucional de não responder às perguntas, frisou que só depôs porque estaria falando para a Comissão de Direitos Humanos.
Sobre sua fuga do presídio mineiro, o depoente negou que tivesse subornado policiais como o divulgado pela Imprensa de todo o País. "Eu tive sorte, apenas estava na hora certa e no local certo", frisou. O traficante também negou a existência de uma agenda com nomes e contatos, que estaria em poder da Polícia do Rio de Janeiro. Ele desafiou a Polícia a mostrá-la para toda a sociedade.
No depoimento, Fernandinho desmentiu ter ligação com a Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em respostas irônicas, também garantiu aos deputados que não é usuário de drogas e nem porta armas.
O ex-relator da CPI do Narcotráfico e integrante da Comissão de Direitos Humanos, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), afirmou que, pelas declarações que prestou, Fernandinho Beira-Mar é um traficante tão poderoso quanto parece. "A certeza veio quando ele revelou que comprava droga diretamente do fornecedor. Aquela imagem de coitadinho, de traficantezinho pequeno, caiu por terra com esse depoimento, pois ele mesmo admitiu ser um grande traficante com as suas ações, já que ele atuava em alguns países da América do Sul e disse que conhecia todos os estados do Brasil".
O presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), ficou decepcionado por Beira-Mar não ter confirmado a denúncia que fez a ele em um encontro anterior ao depoimento, de que traficantes de armas contam com lobbies de parlamentares e, por isso, não são presos. "Essa é uma informação muito grave, que devemos investigar". O parlamentar anunciou que, caso ele queira dar informações úteis, poderá ser inserido no Programa de Defesa da Testemunha, fato que abrandará sua pena.
O deputado Marcondes Gadelha (PFL-PB) disse esperar que Fernandinho Beira-Mar revele o que sabe no depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Roubo de Cargas, uma vez que lá ele será ouvido como convocado. O depoimento da CPMI ainda não foi marcado.
A vinda de Fernandinho Beira-Mar à Câmara provocou uma mudança na rotina, em função do forte esquema de segurança montado para receber o traficante. Ao todo, além de policiais federais, 20 seguranças da Câmara foram mobilizados. No plenário 3, onde foi realizado o depoimento, todos os que entravam eram submetidos a um detector de metais.

Por Cláudia Lisboa e André Lanquintinie/ PR

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)

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