CPI DA NIKE APURA IRREGULARIDADES NA CBF
10/04/2001 - 20:29
Contradições no balancete de dezembro de 1995; várias doações, empréstimos e patrocínios concedidos pela Confederação Brasileira de Futebol, que alegava estar em péssima situação financeira em 1995; doações para campanhas políticas, proibidas por lei, a pessoas jurídicas sem fins lucrativos, antes de sua transformação em empresa com fins lucrativos, em 1998. Essas foram as conclusões a que chegaram os membros da CPI que apura irregularidades no contrato entre CBF e Nike, sob presidência do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), ao ouvir o depoimento do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira.
De acordo com dados de auditoria realizada na CBF, o autor do requerimento para instalação da CPI, deputado Pedro Celso (PT-DF), afirmou que o balancete do mês de dezembro de 1995 teve saldo positivo de R$ 2.861.774,00, em contraposição à afirmação do presidente da entidade, de que a mesma vinha tendo sérios problemas financeiros desde aquele ano. Ele também estranhou o fato de a Confederação ter feito muitas doações no mesmo ano, inclusive para campanhas eleitorais, conforme extensa lista apresentada durante a reunião. Entre as doações, citou algumas feitas a membros da CPI da Nike, como as recebidas pelo deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), de R$ 100 mil, e pelo deputado Eurico Miranda (PPB-RJ), que se defendeu ao afirmar que a CBF ofereceu a doação, sem que ele tivesse pedido.
Pedro Celso lembrou a Ricardo Teixeira que é vedado a partido ou candidato, de acordo com a lei, receber doação de campanha de pessoas jurídicas sem fins lucrativos que recebam dinheiro do exterior, situação na qual se encontrava a CBF em 1995, quando foram feitas as muitas doações para candidatos a cargos eletivos, segundo lista apresentada pelo deputado. Mesmo após 1998, quando a CBF foi transformada em empresa com fins lucrativos, o parlamentar petista acrescentou que a entidade fez empréstimos “milionários”, além de doações na ordem de R$ 5 milhões, mesmo estando em estado de insolvência.
Ricardo Teixeira declarou que não há interferência da Nike nem da CBF na escalação nem na programação dos jogos amistosos da Seleção Brasileira, nem no passado nem no presente. A afirmação veio em resposta à pergunta do relator da CPI, deputado Sílvio Torres (PSDB-SP), sobre se as declarações à CPI de Wanderley Luxemburgo e de Zagalo, ex-técnicos da Seleção, de que não houvera interferência, teriam sido feitas sob sua ordem. “Os dois afirmaram que não houve interferência, cientes de que o fato realmente não acontecera”, disse ao ressaltar, porém, que no contrato com a Nike rezava o direito de a mesma propor cinco jogos. “A Nike propõe alguns jogos que são aceitos ou não, de acordo com a decisão da comissão técnica da Seleção. Analisamos se temos interesse ou não”, esclareceu.
O deputado Zé Rocha (PFL-BA) inquiriu o presidente da CBF sobre como estão ocorrendo as negociações entre a Nike, patrocinadora oficial da Seleção Brasileira, e a nova patrocinadora, a Ambev. Teixeira informou que a multinacional está interessada em fazer o contrato, que a Nike já foi comunicada e que abriu mão da exclusividade. “O contrato é para quatro copas do mundo e a previsão é de, no mínimo, U$ 10 milhões por ano”, disse. Informou ainda que o valor será acrescido ao do patrocínio da Nike, mais o percentual que a CBF receberá no incremento do projeto da Ambev. “As contas da Confederação ficarão com recursos suficientes para cobrir todos os gastos”, concluiu.
O presidente da CBF fez, por fim, o “mea culpa” por ter sido contra a instalação da CPI. Seu arrependimento, conforme disse, ocorreu pelo fato de ter percebido a importância e a legitimidade da investigação. “A entidade, assim como eu, não tomou nenhuma medida coercitiva para impedir ou atrapalhar as investigações. Os sigilos bancário, fiscal e telefônico já estão à disposição desde o ano passado”, informou.
Por André Laquintinie/AM
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Câmara)
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