Direito e Justiça

Médicos negam envolvimento em tráfico de órgãos

07/07/2004 - 20:34  

A CPI do tráfico de órgãos ouviu, nesta quarta-feira, médicos suspeitos de envolvimento na morte de Paulo Veronesi Pavesi, de 10 anos - o Paulinho. Ele morreu vítima de traumatismo craniano, em abril do ano 2000, na cidade de Poços de Caldas - Minas Gerais. O pai do garoto, Paulo Pavesi, acusa a equipe que atendeu seu filho de acelerar a morte do garoto, com interesse na venda de órgãos.

Primeiro diagnóstico
O neurocirurgião José Luiz Gomes foi quem atendeu primeiramente a criança e realizou a primeira arteriografia - exame que atesta a morte cerebral. Ele é acusado pela família de Paulinho de acionar a central de transplantes do Hospital Pedro Sanches, antes de confirmada a morte cerebral do garoto. Em seu depoimento, Gomes diz que não acionou a central de transplantes, mas que informou à equipe do hospital de que a família autorizara a doação dos órgãos e já estaria ciente da provável morte da criança. Ele nega qualquer participação na morte de Paulinho. "Em nenhum momento, eu teria cometido algum ato que tivesse levado ele à morte e não sei nada em relação a tráfico de órgão".
José Luiz Gomes argumenta ainda que entre a primeira arteriografia, realizada no hospital Pedro Sanches, e a segunda, realizada na Santa Casa de Misericórdia, para onde a criança havia sido transferida; houve uma espaço de mais de 15 horas. Seria possível que, nesse intervalo de tempo, segundo ele, ocorresse a morte encefálica.

Segunda arteriografia
O radiologista Jeferson Saheki foi quem realizou a segunda arteriografia em Paulinho, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, atestando que o garoto já apresentava quadro de morte cerebral. Ele explicou que, após constatar a morte do garoto através da arteriografia, elaborou apenas um laudo verbal. Foi com base nesse laudo que os órgãos de Paulinho foram retirados. O laudo escrito, informou o radiologista, só foi elaborado oito meses mais tarde, por solicitação da Polícia Federal, que investigava o caso.

Urologista
O urologista Celso Scaffi negou que tenha retirado os órgãos do menino sem a comprovação da morte encefálica. Ele disse que retirou os rins e as córneas da criança com base no protocolo de morte encefálica, assinado pelos médicos José Luiz Gomes e José Luiz Bonfito, e também nas radiografias feitas pela equipe do radiologista Jeferson André Saheki Skulski. Celso Scaffi também negou, que tenha assinado um relatório cirúrgico que comprovava que a criança estava sem morte encefálica. Porém, o perito de grafologia da Polícia Federal já confirmou que a assinatura é do urologista Celso Scaffi.

Acusação
O pai da criança, Paulo Pavesi, disse que os relatórios médicos constatam que seu filho recebeu medicação inadequada e não havia morte encefálica quando os órgãos foram retirados. "Ele não estava morto quando retiraram os órgãos. Ele foi abatido literalmente na mesa de cirurgia para a retirada. Isso documentado de próprio punho por todos os médicos", afirmou. O pai de Paulinho acrescentou que não entende por que a Polícia Federal e o Ministério Público não quiseram verificar esse mérito.
Pavesi acusou o ex-deputado Carlos Mosconi de ter criado uma central clandestina de doação de órgãos na Santa Casa de Poços de Caldas (MG), e de atuar politicamente em nome dos médicos envolvidos. "Atualmente, o deputado assumiu a MG Sul Transplantes em Minas Gerais". Pavesi esclareceu ainda que a MG Sul é a Central de Transplantes que atua dentro da Santa Casa e que, na época da morte de seu filho, em 2000, não era credenciada no Sistema Único de Saúde (SUS).

Transplantes clandestinos
O presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga (PL-ES), disse que os médicos entraram em contradição várias vezes. Ele afirmou estar claro de que existia, em Poços de Caldas, uma central ilegal de transplante de órgãos: "Nós estamos percebendo nesse processo de Poços de Caldas que o que existia ali era uma máquina de fazer dinheiro. Existia uma central de transplantes clandestina. Existia a Santa Casa de Misericórdia que tinha o credenciamento para fazer transplante de rins e fazer também transplante de córneas. Existia uma central de captação de órgãos, que, na verdade, nunca existiu". Segundo o presidente da CPI, estão previstos para agosto novos depoimentos de pessoas citadas no caso.

Reportagem - Danielle Popov e Patrícia Gripp
Edição - Ana Felícia

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)

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