CPI do tráfico de órgãos ouve pais de vítimas
29/04/2004 - 19:58
A CPI do Tráfico de Órgãos realizou nesta quinta-feira sua primeira audiência pública, durante a qual foram ouvidos o analista de sistemas Paulo Airton Pavesi e médica veterinária Liliana Elias Cardoso. Eles denunciaram irregularidades no processo de retirada de órgãos de seus filhos falecidos. Os dois depoentes acreditam que seus filhos foram vítimas do tráfico ou da ineficiência do Sistema Nacional de Transplantes (SNT).
Minas Gerais
Pavesi, pai do menino Paulinho, falecido em abril de 2000, denunciou à CPI que a equipe médica do hospital Pedro Sanches, em Poços de Caldas (MG), teria responsabilidade na morte de seu filho. O menino foi internado para uma cirurgia em razão de traumatismo craniano, sem risco de vida imediato, segundo os médicos. Porém, pouco depois, o pai foi informado que a criança havia sofrido morte cerebral.
Com a morte, Pavesi deu permissão para a doação dos órgãos, mas, desconfiado de irregularidades na conta apresentada pelo hospital, começou a investigar a morte do filho e descobriu um esquema de tráfico que, segundo ele, contava com a conivência de pessoas muito influentes no estado, inclusive promotores públicos e parlamentares mineiros, que teriam tentado abafar o caso na época.
Recursos do SUS
A partir daí, vários outros indícios de irregularidades foram surgindo. Entre eles, desvio de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) e cobranças indevidas feitas às famílias das vítimas, tanto doadores, quanto receptores. Pavesi ainda acusa a equipe médica de ter assassinado seu filho. "Paulinho foi assassinado, não tenho dúvidas disso. A Central de Transplantes veio e fez o diagnóstico de morte encefálica no meu filho, o qual não poderia ter sido feito por uma série de fatores. Constataram que meu filho tinha vida. Transferiram ele para outro hospital e retiraram os órgãos. Não foi feito, sequer, um segundo exame. Eles dizem que fizeram, mas não há um documento que prove isso", destacou.
Brasília
A médica veterinária Liliana Cardoso contou que seu filho, falecido em março de 2002, no Hospital de Base de Brasília, teve o pâncreas retirado sem permissão da família. A médica explicou que deu permissão para a retirada dos rins e das córneas, e que o hospital já tinha conseguido receptores compatíveis. Ela foi informada,entretanto, minutos antes do transplante, que a cirurgia não seria possível porque faltava um equipamento específico.
A Lei dos Transplantes diz que, nesse caso, os órgãos devem ser devolvidos ao corpo do doador e enterrados com ele. Não foi o que aconteceu. Dois anos após o caso, Liliana continua sem saber ao certo o que ocorreu. Uma das versões apresentadas pelo hospital diz que os órgãos foram incinerados. Versão desmentida pelo laudo do Instituto Médico Legal, que não encontrou nenhum registro que comprovasse a informação.
Propostas da CPI
Para o presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga (PL-ES), os trabalhos da comissão devem ir além das investigações sobre o tráfico de órgãos. O parlamentar informou que a CPI pretende encaminhar ao Ministério da Justiça uma série de propostas que melhorem a qualidade do serviço de transplantes no País.
O deputado descartou a possibilidade de que, com as denúncias, caia o número do doadores. "Muitas pessoas, às vezes por sua simplicidade, ou por terem medo, ou por não confiarem em algumas instituições, têm medo de falar. Entretanto, 2003 foi o ano em que mais houve denúncias de tráfico de órgãos no País e aumento de 14% no número do doadores. O Brasil bateu o recorde de doadores de órgãos", ressaltou Fraga.
Ele também informou que a CPI enviará, ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, requerimento pedindo proteção à família de Paulo Pavesi, atendendo à solicitação da testemunha, que disse estar recebendo ameaças desde que começou a investigar a morte do filho.
A CPI do Tráfico de Órgãos volta a se reunir na próxima terça-feira (04), para definir as próximas audiências públicas.
Reportagem - Giuliano Cartaxo e Renata Torres
Edição - Ana Felícia
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