Delegada expõe ações de grupo de extermínio em PE
11/11/2003 - 20:55
Em audiência pública da CPI dos Grupos de Extermínio no Nordeste, a atual delegada da Polícia Civil de Cabo de Santo Agostinho (PE), Lenise Valentim da Silva Borges, que foi delegada titular de Tambaúba, cidade pernambucana com 66 mil habitantes, entre agosto de 1999 e setembro de 2002, explicou a operação de combate ao grupo criminoso "Anjos da Guarda", que atuava nesse último município.
Segundo Lenise, dos 133 homicídios registrados em Tambaúba entre 1989 e 1999, 88 tinham autoria desconhecida e indícios de terem sido praticados por grupos de extermínio. As vítimas eram jovens pobres que haviam praticados pequenos furtos, e tinham em comum o fato de terem sido executados com muitos tiros. Outra característica dos crimes é não haver relação social ou pessoal entre o assassino e a vítima.
PRISÃO PREVENTIVA
Em junho de 2002, a delegada instaurou inquérito policial que resultou na prisão preventiva de 16 integrantes do grupo "Anjos da Guarda", entre eles o chefe Abdoral Gonçalves de Queiroz. Outros seis criminosos do grupo ainda estão foragidos, mas os 16 presos já foram condenados por homicídio, formação de quadrilha ou ambos os crimes.
Lenise Borges afirmou que o trabalho de desmantelamento da quadrilha só foi possível devido ao esforço conjunto das polícias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Para ela, mais efetiva que a constituição de uma força-tarefa para combater os grupos de extermínio é o fortalecimento do policiamento ostensivo e das delegacias locais; punições mais severas para os policiais que vazam informações para os criminosos; e o trabalho conjunto dos agentes do Estado.
TOQUE DE RECOLHER
O relator da CPI dos Grupos de Extermínio, deputado Luiz Couto (PT-PB), questionou a delegada Lenise Borges sobre os métodos usados pelo grupo de extermínio "Anjos da Guarda". A delegada informou que o chefe Abdoral Gonçalves de Queiroz decretava toque de recolher no município de Timbaúba nos dias de matança, quando ele e seu grupo apareciam vestidos de jaquetas de couro preto e encapuzados, com o claro objetivo de intimidar a população.
Segundo a delegada, Abdoral ou alguém de sua confiança sempre aparecia no local dos crimes para ameaçar as testemunhas. Além disso, integrantes do grupo passavam nos fins de semana para recolher dinheiro dos comerciantes da cidade, que eram executados se não pagassem.
Lenise Borges disse aos deputados que o chefe dos “Anjos da Guarda” agia como polícia e representante da Justiça, julgando e condenando sumariamente a população em casos de conflitos familiares e brigas de vizinhos. Por isso, e por medo, os cidadãos não o denunciavam à polícia.
Ainda explicando os métodos da quadrilha, a delegada informou que o treinamento para o uso de armas era feito no Sítio dos Borges, localizado a poucos quilômetros de Timbaúba e pertencente a Abdoral. Até policiais militares participavam desse treinamento, inclusive fornecendo armas.
REDUÇÃO DOS CRIMES
Após a prisão do líder dos "Anjos da Guarda”, diminuíram drasticamente os casos de homicídios em Tambaúba: foram 27 casos em 2000, e apenas 13 em 2001, dos quais todos tinham autoria conhecida. Com Abdoral preso, outros grupos de extermínio - como "Os Mascarados" - tentaram tomar o poder, mas foram impedidos pela polícia.
Segundo Lenise Borges, um ex-integrante do grupo "Os Baixinhos", Nenê, voltou para Tambaúba na ocasião, mas não foi possível prendê-lo. Também está foragido, já que escapou da prisão, o maior executor dos "Anjos", José Heron Gomes. Ele matou mais de 10 pessoas.
HISTÓRIA DOS ANJOS
Antes dos "Anjos da Guarda", o grupo "Os Baixinhos", que tinha mais de 15 integrantes e era chefiado por Nilo tempero, dominava Timbaúba. Abdoral pertencia ao bando, mas em 1994, recrutando jovens da cidade, formou seu próprio grupo de extermínio.
Os "Anjos" também atuavam como agentes de segurança nos principais eventos da cidade e muitas vezes retiravam das festas as pessoas que iriam ser executadas, que eram levadas em moto até o local do crime.
Oficialmente vendedor de redes, Abdoral tinha um cargo de confiança na Secretaria de Obras do município, embora não aparecesse por lá. Ironicamente, também exercia a função de chaveiro da prisão.
Reportagem – Márcia Schmidt
Edição – Rejane Oliveira
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