Ex-presidente confirma existência de máfias na Funai
30/09/2003 - 18:10
O ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Eduardo Almeida, confirmou em audiência pública da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias, encerrada há pouco, a existência de máfias atuando nos vários níveis da instituição.
Sem citar nomes, Eduardo Almeida afirmou que essas máfias são formadas por políticos e empresários do setor de madeira e de garimpo, com a conivência de alguns índios. Ele explicou que os índios são pressionados a recorrer à Funai para garantir a preservação de áreas de interesse daqueles grupos. Ao detectar a presença de pequenos garimpeiros em determinado local, por exemplo, grandes mineradoras manipulariam os indígenas para que a Funai retirasse os trabalhadores. O objetivo seria garantir a manutenção das reservas minerais para futura exploração.
O ex-presidente da Funai disse ainda que as máfias incentivam os índios a usarem a força para pressionar a Fundação, com a organização, por exemplo, de invasões ao órgão. Além disso, os grupos criminosos levariam os índios aos vícios do álcool e da droga, o que facilitaria sua estratégia de manipulação.
As denúncias há haviam sido feitas por Eduardo Almeida logo após sua exoneração da Funai, no último mês de agosto. Ele afirmou que não foi demitido por isso, mas sim por questões políticas.
APOIO
Representantes de vários povos indígenas participaram da audiência e manifestaram solidariedade a Eduardo Almeida. Segundo eles, foi a primeira vez que um presidente da Funai teve coragem de denunciar irregularidades que os índios há muito tempo vinham tentando denunciar.
EXTINÇÃO DA FUNAI
Para o deputado Fernando Ferro (PT-PE), as denúncias confirmam o desgaste da Funai, que ele comparou com um corpo em estado de decomposição. Para o parlamentar, o órgão não tem salvação e deveria ser extinto, para permitir a
criação de um novo modelo de instituto.
Os índios que acompanharam a reunião mostraram-se contrários à idéia. O cacique Jeremias Xavante, de Tocantins, sugeriu a reestruturação da Funai com a participação dos índios, alegando que eles sabem quais os problemas das aldeias e suas necessidades.
Xavante confirmou que alguns caciques estariam sendo beneficiados pela máfia da Funai. "Esses caciques vendem seu povo em troca de moedas, mas são meia dúzia se comparados com toda a nação indígena brasileira".
POLÍTICA INDIGENISTA
A audiência pública atendeu a requerimento do deputado Pastor Reinaldo (PTB-RS). Ao final da reunião, ele defendeu que a Câmara apure as denúncias feitas por Eduardo Almeida ao jornal Folha do Meio Ambiente, e confirmadas hoje por ele. O deputado defendeu também a revitalização da política indigenista, lembrando que a atual política é baseada no Estatuto do Índio, que tem 30 anos de idade.
Reportagem - Giulianno Cartaxo
Edição - Daniela André
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