ÍNDIOS APELAM A DIREITOS HUMANOS CONTRA NOVELA

14/11/2000 - 17:12  

Comunidades indígenas de todo o País estão preocupadas com a repercussão negativa que a novela “Uga-Uga”, exibida pela Rede Globo, pode trazer sobre sua cultura. Representantes de vários grupos indígenas enviaram, na última quinta-feira, uma carta de protesto aos deputados da Comissão de Direitos Humanos, pedindo apoio para combater a deturpação da cultura indígena.
A carta é assinada pela Comissão da Conferência e Marcha dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil, encarregada das reivindicações resultantes da Conferência Indígena, realizada em abril deste ano, durante as comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. De acordo com o documento, os índios estão sendo mostrados na novela como animais de circo.
Os índios também afirmam que sua cultura, costumes e tradições aparecem de forma deturpada, o que pode confundir crianças e jovens, público que mais assiste a novela. Segundo o coordenador-geral dos Direitos Indígenas, Marcos Terena, uma das críticas dos índios diz respeito à maneira como está sendo tratada a figura sagrada do pajé.
Na carta, os índios fazem ainda uma denúncia mais grave: a de que a novela tem estimulado a violência sexual contra as índias.
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara decidiu que vai enviar, na próxima semana, ofício pedindo providências ao Ministério da Justiça e uma carta à Rede Globo comunicando as reclamações dos índios.

Segue a íntegra da carta:

“ Brasília, 09 de novembro de 2000.

Ao Exmo. Sr.
Deputado Marcos Rolim
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados

Senhor Presidente,

Nós, da Comissão Indígena, encarregados de encaminhar as reivindicações e exigências da Conferência Indígena, realizada em abril do corrente ano em Coroa Vermelha (BA), representando diversos povos indígenas do Brasil, vimos, através desta, protestar contra a Rede Globo de Televisão, devido à forma com que a sua novela "Uga Uga" vem apresentando a imagem dos índios em nosso país.
A imagem apresentada é de povos sem sentimento e sem capacidade; somos apresentados como animais de atração em um circo, usados para chamar a atenção dos telespectadores daquela emissora.
Queremos deixar bem claro que somos povos com memória viva - não nos esquecemos do que se passou nestes 500 anos de história - temos nossas culturas e exigimos respeito com relação aos nossos costumes e nossas tradições, inclusive com relação aos nossos pajés.
Entendemos que a citada novela abre um caminho para os não-índios se relacionarem de forma preconceituosa com os povos indígenas. Especialmente com as mulheres índias, estimulando, inclusive, a violência sexual contra elas. Infelizmente, casos deste tipo de violência continuam ocorrendo em muitos territórios indígenas, o mais conhecido recentemente contra as mulheres Yanomami, por parte de soldados do 4º Pelotão Especial de Fronteira (PEF).
Neste ano em que lembramos os 500 anos de genocídio causado pelos invasores contra os povos indígenas, solicitamos de V. Exa. que sejam tomadas as medidas necessárias para que este abuso contra nossa imagem, nossas vidas e nossas comunidades não continue a ocorrer.

Certos de contarmos com o vosso apoio, agradecemos antecipadamente,

Comissão da Conferência e Marcha dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil
Antônio Carvalho Guarani
Raimundo Vitor Alves Fernandes Munduruku
Mário Turíbio Kaiová ”

Por Patrícia Gonçalves/ RCA

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência)

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