Combate ao tráfico de animais é tema de audiência

06/11/2002 - 17:03  

Audiência pública realizada hoje na Comissão da Amazônia apontou como causas do tráfico ilegal de animais silvestres a falta de rigor da lei ambiental e problemas na fiscalização.
O tráfico de animais selvagens é a terceira maior atividade ilegal do mundo. Movimenta de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões por ano e o Brasil é responsável por 10% a 15% desse mercado, perdendo anualmente cerca de 38 milhões de animais. No País, estima-se haver aproximadamente 350 quadrilhas atuando nesse tráfico.
Quarenta por cento dos animais capturados são exportados e vão para colecionadores ou para institutos de pesquisa. O tráfico também é feito pela Internet, onde já existem 4.492 anúncios de vendas. A arara azul da guia, ave muito apreciada por colecionadores, chega a custar no mercado internacional o correspondente a R$ 120 mil.
Os dados são da ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres.

FISCALIZAÇÃO É RUIM
O coordenador-geral da ONG, Dener Giovanini, aponta a falta de fiscalização ambiental como a principal causa do problema. São poucos os fiscais disponíveis, sobretudo nos estados, e os profissionais precisam de mais treinamento e qualificação. Além disso, para ele, a Polícia Florestal precisa de reforço. Giovanini avalia ainda que falta uma política pública de integração dos órgãos envolvidos. Também falta uma lugar apropriado para encaminhar os animais apreendidos.

MAUS-TRATOS
O coordenador da ONG destaca a crueldade com que os animais apreendidos pelos traficantes são tratados e pede à sociedade que não compre animais silvestres.
"De cada dez animais retirados da natureza, apenas um chega às mãos do comprador final. Nove morrem durante a apanha ou durante o transporte. As condições em que os animais são traficados são as piores e mais cruéis possíveis. É muito comum, em uma operação de fiscalização, encontrar macacos nos quais os traficantes injetaram cachaça ou álcool na veia para que fiquem bêbados e aparentem mansos. Eles também quebram os ossos do peito das araras para que fiquem sentindo dor e não se mexam, parecendo ser araras mansas; e furam os olhos das aves para que não enxerguem a luz e evitem cantar, a fim de não chamar a atenção da fiscalização”, aponta.
Giovanini explica que os animais são geralmente apanhados por índios ou ribeirinhos, e entregues aos distribuidores, que são em sua maioria vaqueiros, motoristas e pilotos de avião, só então chegando aos comerciantes - feirantes e criadores ilegais. Entre os animais mais comercializados, estão as araras, corujas, beija-flores, tartarugas, lagartos, veados, preguiças, sapos e rãs da Amazônia e da Mata Atlântica. Esses últimos geralmente são encaminhados a colecionadores e pesquisadores.
Sobre as rotas do comércio ilegal de animais silvestres, ele afirma que os capturados na Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste são encaminhados para o eixo Rio-São Paulo, e os apreendidos no Sul do Brasil seguem para os países do Mercosul.

ANIMAL RENDE MAIS QUE DROGA
O delegado da Polícia Federal e coordenador de Prevenção e Repressão aos crimes contra o Meio Ambiente, Jorge Barbosa Pontes, afirma que muitos criminosos deixam o tráfico de drogas e passam a traficar animais silvestres, pois o lucro é o mesmo, e a pena, menor. Também para ele, a legislação ambiental deve ser mais rigorosa. “Algumas mulas que vinham sendo utilizadas no tráfico de drogas são hoje utilizadas no tráfico de animais porque o lucro é mesmo, e a reprimenda penal, infinitamente inferior. Uma vez pego em flagrante com animal silvestre, o cidadão nem vai preso. É apenas lavrado um termo circunstanciado".

FISCALIZAR NÃO RESOLVE
Mas para o diretor de fauna do Ibama, José Anchieta dos Santos, aumentar a fiscalização não vai resolver o problema do tráfico ilegal de animais. “Essa questão está diretamente ligada, em primeiro lugar, a uma questão cultural, que é o desejo de todo brasileiro de ter um animal em casa. Depois, há uma grande pressão internacional por conta da beleza dos nossos animais. E, em terceiro lugar, há uma questão social, porque as grandes quadrilhas usam as populações tradicionais como mulas. Então, aumentar a fiscalização não vai resolver o problema. Você tem que investir muito em educação ambiental, fortalecer o comércio legal que existe por meio dos criadores comerciais e dar uma alternativa para essa questão social. É preciso dar uma alternativa de trabalho a quem faz isso por uma questão de sobrevivência".

Por Márcia Schmidt/PR

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