Deputados: números da economia não refletem a realidade

24/05/2007 - 20:10  

Parlamentares que participaram hoje de audiência pública conjunta da Câmara e do Senado com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, apontaram uma discrepância entre os excelentes indicadores econômicos apresentados pelo BC e a realidade das ruas. Deputados mostraram preocupação especialmente com os efeitos da queda do dólar sobre os rendimentos dos exportadores, com a sobrevivência de algumas empresas e com os níveis de emprego.

"Temos dois países diferentes, o Brasil real e o dos números", disse o deputado Osório Adriano (DEM-DF). Já o deputado Félix Mendonça (DEM-BA) afirmou que o fundamento da economia deve ser medido pelo aumento do desemprego, pela violência e pelas greves: "As habitações na periferia são da pior qualidade e as estradas são terríveis. Nossos hospitais e santas casas estão falidas. Este é o retrato do País."

Meirelles argumentou que os números refletem a realidade do País. "Eles podem não refletir a realidade de todas as pessoas e de todas as empresas, mas espelham a realidade da maioria", rebateu. "A situação econômica do Brasil está melhorando muito. Alguém precisaria ser muito criativo para achar que o País está piorando", disse.

Setor da exportação
O deputado Alfredo Kaefer (PSDB-PR) ressaltou as dificuldades que a desvalorização do dólar impõe ao exportador. "Essa situação, com o real tão valorizado, não vai dar certo. Nós vimos isso na Argentina", alertou, em referência à crise do país vizinho em 2001, em conseqüência da adoção do câmbio fixo. O presidente do BC disse que a situação do Brasil de hoje é diferente, porque o valor do real não é artificial e está em equilíbrio com a cesta de 15 moedas dos principais parceiros do Brasil no comércio internacional.

De acordo com Meirelles, a queda do dólar é um fenômeno global e reflete o déficit da balança comercial americana. "Não vamos resolver aqui o problema dos Estados Unidos. Se conseguirmos resolver os nossos problemas, estará bem", afirmou.

Cautela
O deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) afirmou que o BC erra ao praticar uma elevada taxa de juros que promove a entrada excessiva de dólares no País e, em conseqüência, força a queda da moeda norte-americana e desvaloriza as reservas monetárias do País, que no início de maio atingiram 122 bilhões de dólares. "Até que ponto essa política é sustentável?" indagou.

Almeida observou que os prejuízos dos setores têxtil, moveleiro e calçadista, por causa da valorização do real e da menor competitividade no mercado internacional e interno, atingem mais os jovens em busca do primeiro emprego.

Mas, segundo Meirelles, o governo precisa ser cauteloso: "Devemos tomar cuidado para, na tentativa de socorrer setores específicos, não prejudicar a população em geral", afirmou. Ele disse que as exportações pagas em dólar representam 17% do total. Meirelles ponderou que a maior parte dos dólares que entram no País vem para a produção, e não para lucrar com as taxas de juros ainda altas.

A audiência foi promovida pelas comissões de Finanças e Tributação; de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio; e de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara; e de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle; e de Assuntos Econômicos do Senado; e também pela Comissão Mista de Orçamento.

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Reportagem - Edvaldo Fernandes e Sílvia Mugnatto
Edição - Francisco Brandão

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