Reportagem Especial
Amazônia Azul - As ameaças à saúde do mar (06'43")
07/09/2009 - 00h00
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Amazônia Azul - As ameaças à saúde do mar (06'43")
O continente antártico fica a mais de 3 mil km de terras consideradas agricultáveis. Ainda assim, foram encontrados resíduos de DDT em peixes só existentes naquelas águas.
A presença de pesticidas em organismos marinhos é apenas um exemplo de como os mares são afetados pela poluição. Esgoto, plásticos e substâncias contaminantes, como agrotóxicos, cosméticos e remédios, são alguns dos poluentes lançados no mar.
Pesquisadores identificaram peixes machos que chegaram até mesmo a produzir óvulos depois de expostos aos hormônios presentes no esgoto vindos principalmente de pílulas anticoncepcionais.
Além de provocar alterações como essas, o lixo é a causa direta da morte de várias espécies. É comum que tartarugas marinhas morram sufocadas, ao confundirem sacos plásticos com algas, que são seus alimentos.
Mas a oceanógrafa Maria Ângela Marcovaldi, que preside a Fundação Pró-Tamar de conservação de tartarugas marinhas, explica que a poluição não é a única ameaça para a sobrevivência desses animais.
"Sem dúvida, uma preocupação que se tem hoje, além de poluição, é com o aquecimento global. Um grau de temperatura de diferença na areia da praia, quando os ovos estão encubando, pode mudar o sexo das tartaruguinhas. A própria erosão, se houver um avanço do mar, um aumento do nível do mar, pode tirar o espaço que as tartarugas têm na praia pra reprodução. A própria ocupação desordenada das praias ainda é uma preocupação, apesar de existir a legislação e estarmos sempre presentes"
As mudanças no clima são citadas por vários pesquisadores como uma fonte adicional de preocupação quando se analisa a saúde dos mares.
A bióloga e coordenadora da Campanha Oceanos do Greenpeace, Leandra Gonçalves, destaca que o já intenso processo de perda de biodiversidade pode ser acelerado com o aquecimento global, que deve afetar também as populações costeiras.
"Se não bastasse apenas o efeito do aquecimento na perda da biodiversidade e de diminuição do estoque pesqueiro, temos também a elevação do nível do mar. Ela é prejudicial pras comunidades costeiras, que são 25% da população brasileira. Então, o pescador, além de estar voltando com menos peixe na rede, também sofre ameaça de perder sua moradia, as estruturas de pesca, que se localizam na região costeira e hoje com a maior frequência de eventos climáticos também estão sendo prejudiciais"
Segundo o IBGE, em alguns pontos do litoral brasileiro já há aumentos significativos do nível do mar, como no município fluminense de Macaé, onde a variação foi de 15 cm entre 2002 e 2006.
O aumento, entretanto, se deve principalmente a efeitos locais, mas pode ser agravado com eventos climáticos extremos.
Um dos principais responsáveis pelo aumento da temperatura, o carbono em excesso na atmosfera tem diversos impactos no mar.
Estima-se que pelo menos 30% do CO² seja absorvido pelos oceanos, que seriam, então, os verdadeiros pulmões do planeta.
Mas a quantidade excessiva de gás carbônico tem efeitos severos sobre os organismos marinhos, como explica o biólogo e oceanógrafo Frederico Brandini, do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná.
"Primeiro é a acidificação. Excesso de CO² torna o mar um pouco mais ácido. Os organismos marinhos têm uma afinidade muito grande com o carbonato de cálcio, pra poder fazer seus esqueletos, os recifes de coral, as algas calcáreas. Se acidifica, eles não conseguem mais criar essas estruturas rígidas de carbonato de cálcio que se dissolvem, com isso eles não conseguem mais manter suas taxas de reprodução Outro aspecto é o próprio aquecimento global, que faz com que mar aumente a sua temperatura e organismos principalmente de regiões tropicais, que não toleram muito pequenas variações de temperatura, esses vão sofrer, sobretudo recifes de coral, esbranqueamento, perdem a cor, que normalmente são associados a problemas de aquecimento global"
Frederico Brandini destaca que os ecossistemas da zona costeira também são fortemente afetados pelo aumento da salinidade. E mais uma vez, é a ação humana a responsável pelo fenômeno.
"Com o aumento populacional ao longo da costa, há muito mais consumo de água doce. Com isso vai menos água, a drenagem continental diminui, além de que o aquecimento global altera padrões hidrológicos, padrões de chuva. E com a salinização costeira você tem uma série de problemas, problemas sanitários, de erosão marinha, de deslocamento de comunidades e até problema de transporte de navios em portos, porque mudando a salinidade, muda a densidade e a capacidade de boiar de uma massa dessa é maior, então você tem que prever dragagens maiores, então é um prejuízo muito grande"
A dimensão do nosso mar territorial, também chamado de Amazônia Azul, faz com a conservação seja um desafio permanente.
Essa tarefa é ainda maior para aqueles que precisam gerenciar o uso dos recursos marinhos, como observa o coordenador-geral de Pesca Industrial do Ministério da Pesca, Fabiano Rosa.
"Cada vez mais vai ser necessário que o governo, em parceria com as instituições de ensino e pesquisa, comece a inserir nessas abordagens dos limites, dos potenciais de exploração, fatores como a poluição, mudanças nas condições climáticas, oceanográficas, a própria degradação dos ecossistemas costeiros, dos manguezais que são berçários de grande parte desses recursos de interesse comercial, manguezais, recifes de corais, então tudo isso tem que começar a ser questionado também porque talvez amanhã ou depois a própria sustentabilidade econômica da atividade fique fragilizada em função da degradação acelerada desses ecossistemas"
Mas os estudos sobre nossas riquezas marinhas precisam aumentar. Para se ter uma ideia, a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, órgão que coordena a Política Nacional para os Recursos do Mar, ainda não conta com nenhum grupo de pesquisa que analise o impacto que as mudanças climáticas terão sobre os recursos naturais marinhos.
As zonas costeiras e marítimas do Brasil ocupam mais de 3 milhões e meio de km², área que equivale à metade da extensão do nosso território terrestre.
De Brasília, Mônica Montenegro