Rádio Câmara

Papo de Futuro

Educação, inovação e infância, da lei à realidade, o que nós podemos fazer hoje por nossos filhos?  (Reprise)

22/08/2023 -

  • Papo de Futuro (18/10/2022):

Nesta edição do programa Papo de Futuro, a jornalista Beth Veloso fala sobre a política de inovação educação conectada, sob uma visão alargada da sociedade, do Estado e do papel de cada um.

Em primeiro lugar, este programa não é só para os pais, ou para os professores. Esse programa é para aquela pessoa que já nasceu com o celular na mão, ou seja, a criança que está agora sendo assistida por seus pais.

Pois bem, qual é mesmo a idade para se dar um telefone para os filhos? Talvez essa seja a pergunta mais difícil de ser respondida quando a gente fala em educação no mundo de hoje. Simplesmente porque não existe uma resposta única. É por isso que nenhum país ousou fazer uma lei recomendando o uso de celular somente a partir de certa idade. Na Espanha, os estudos indicam que a palavra final depende de cada família. Vai da análise de tantos fatores: a maturidade dos filhos, o contexto familiar, o nível de controle que os pais conseguem ter com os filhos, o contexto ao redor.

O que é unanimidade, e isso não depende de comprovação, é que o uso do celular deve aproximar, e não afastar as pessoas da mesma família. Pais e filhos devem unir-se em torno da internet. E é exatamente o contrário do que acontece, em grande maioria, no Brasil, em que o telefone vira uma babá digital para pais atarefados.

Exatamente isso. Sebastian Bortinik[1] criou uma ong para alertar a quantidade de crianças que conversam na internet com pessoas maiores, achando que estão tratando com outra criança do outro lado. É uma rede formada por pedófilos, exploradores e produtores de conteúdo como pornografia infantil. Sebastian escreveu o guia para uso saudável da internet.

Entre as dicas, o telefone do filho deve estar monitorado não apenas por mecanismos de controle parental, mas por um pai e uma mãe atentos, vigilantes, que controlam, em primeiro lugar, a tempo de uso do aparelho; quais os aplicativos que podem ser baixados ou não no telefone e, sobretudo, qual o conteúdo acessado nas redes sociais e com quem as crianças estão interagindo.

No Brasil, a gente sabe que muitas leis tratam da educação digital. No plano teórico, a legislação e os regulamentos garantem muitos direitos: 1) escolas devem ter tratamento igual entre si; 2) professores devem ter autonomia para adotar a tecnologia como preferirem, 3) os alunos devem atuar como protagonistas. É o que diz, por exemplo, a Lei 14.180, de 2021[2]. Sem esquecer, é claro, que as escolas devem ter acesso à internet de qualidade.

Recente entrevista aqui na rádio Câmara (Márcio sabe qual foi) mostrou que a realidade é bem diferente, e que as escolas públicas estão esvaziadas, a conectividade é da idade da pedra, não há computadores na sala de aula e, mesmo na pandemia, com as escolas fechadas, somente um número reduzido de professores teve acesso a ferramentas para o ensino à distância.

Software livre, ou seja, não proprietário, material pedagógico gratuito e estímulos agora para que a escola tenha uma conectividade melhor estão entre as metas impostas às empresas de telecomunicações, no leilão de venda das frequências do 5G.

Esse é um processo longo, mas que deve fazer toda a diferença, já que o 5G é esperado como uma grande revolução, com essa história de internet das coisas. Quem tem um assistente virtual, como a Alexa, sabe do que estou falando, mas esta não é a realidade de quem ouve este programa.

A realidade aqui, entre as crianças brasileiras, é: quem tem conexão, está no Tik Tok e seus microfilmes como a coreografia facial. Quem não tem, está conversando nas suas redes com seus amigos via WhatsApp, Facebook ou Instagram, graças à parceria do zero-rating, acordo de gratuidade, com as operadoras de telefonia. E bisbilhotando a vida alheia. A conectividade entre educação e internet no Brasil ainda é remota, precária, lenta, porque internet rápida só mesmo no mundo da educação privada, de elite.

Onde está a lei que não vemos na prática, é uma questão a ser discutida, pois o apagão digital começa, muitas vezes, pela falta de energia na escola. Ao pedir uma pesquisa sobre o tema à biblioteca da Câmara para escrever o programa de hoje, fiquei impressionada com a quantidade de leis e decretos sobre como garantir acesso à internet, com fins educacionais, a alunos e professores da educação básica. Essas leis são fundamentais, como o programa Um computador do por Aluno e o Projeto Computador Portátil para professores.

A educação digital leva anos. Começa em casa. Tem como fundamento o limite no tempo do uso do telefone. O fim da  conversa com o adulto estranho. Romper o silêncio de uma navegação às cegas que pode levar uma criança a uma dark web, ao mundo negro da rede onde acontecem, de maneira impune, todo tipo de crimes. Uma simples conversa pode levar a criança a refletir antes de enviar a foto ou evitar uma crise de ansiedade, por diminuir ou limitar em, no máximo, duas horas o uso de rede social. Essa é a média na Espanha, que já é muito. A ansiedade traz inúmeros transtornos para quem ainda não está em crescimento, e é prima-irmã da depressão, que alavanca as taxas de suicídio de adolescentes.

O celular não deve ser um cordão de isolamento entre você e seu filho, nem você deve esperar que o governo e seus decretos ensinem, na escola, que uma visita virtual ao museu do Louvre, na França, pode ser muito mais interessante do que esses vídeos que os algoritmos sugerem, tentando prender a sua atenção o máximo possível, pois disso depende a venda de anúncios na plataforma.

Em todo lugar do mundo, o uso da internet pelas crianças é igual. O que elas esperam do celular ou Ipad é conectar-se com as pessoas. Amigos, amigos e amigos. Se isso vai ser feito de maneira saudável, depende de como vocês, pai e mãe, usam o seu celular, e o nível de dependência que têm com ele. Primeiro, porque é preciso que tenham tempo para ficar com seus filhos. Segundo, porque é preciso que tenham tempo para ensinar seus filhos a navegar na rede de maneira segura, com dicas que já falamos aqui: não falar com estranhos, ainda que “sejam’, entre aspas, crianças, não pode.

Se as crianças vão além do infoentretenimento, isso depende, sim, das escolas, da sociedade, dos governos, das políticas públicas e das leis.

A plataforma frisson do momento, a chinesa Tik Tok, alcançou 3 bilhões de downloads em todo o mundo em 2021, e certamente desconhece as leis brasileiras para promover valores como a nossa cultura, a nossa gente, a nossa língua, a nossa história, os valores políticos e democráticos brasileiros.

Ao contrário, junto com muita risada, caretas e dancinhas, o Tik Tok tem promovido também fake news, desinformação, preconceito e outros conteúdos não toleráveis para o público vulnerável, que não sabe filtrar muito bem o que faz bem, e o que deve ser deixado de lado.

O fato é que, se, para os pequenos e pequenas, o futuro já é a maior das incertezas, o pesquisador Ronaldo Lemos faz um alerta, no fenômeno que ele chama de “Grande Ruptura”, ou seja, como as redes digitais demolem a cultura e ampliam a ansiedade[3]”.

O alerta do pesquisador é: as plataformas estão usando e abusando de algoritmos que tentam capturar o seu inconsciente, para que você tome decisões baseadas na emoção, que gera mais engamento do que a razão, quando a gente pensa antes de agir. E o medo tem sido uma das principais ferramentas do neuro marketing para gerar emoções, sejam positivas ou negativas, mas esse é um assunto para outro Papo de Futuro.

Por hora, a gente fica aqui ligado no que o filho está fazendo no celular, porque o futuro desta Nação depende disso.

Resumindo, conforme a Academia Americana de Pediatria[4], para bebês e crianças de até 18 meses de idade, a recomendação é: sem tempo de tela, com a única exceção de conversas em vídeo com parentes e amigos.

Para crianças de 18-24 meses, pode haver algum tempo de tela com um dos pais ou outro cuidador.

Pré-escolares: não mais de uma hora por dia de programas educacionais, vigiados com um pai ou cuidador que pode ajudá-los a entender o que estão observando.

E, para crianças e adolescentes de 5 a 18 anos: Os pais devem estabelecer limites no tempo de tela para seus filhos, incluindo televisão, mídia social e jogos de vídeo.

E garantir, sempre, o sono e a atividade física da criança, incluindo as brincadeiras.

Interaja com a gente. Conte suas histórias e como se livrou de problemas enviando e-mail para papodefuturo@camara.leg.br

[1]Disponível em: https://www.ted.com/talks/sebastian_bortnik_the_conversation_we_re_not_having_about_digital_child_abuse. Acessado em: 16.10.2022.

[2]http://educacaoconectada.mec.gov.br/legislacao#:~:text=Decreto%20n%C2%BA%209.204%2C%20de%2023,Brasileira%20para%20a%20Transforma%C3%A7%C3%A3o%20Digital.

[3] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lDdgi8EpOC4.

[4] Disponível em: https://kidshealth.org/es/parents/tv-habits.html.

 Comentário – Beth Veloso

Apresentação – Marcio Achilles Sardi

Coluna semanal sobre as novas tendências e desafios na comunicação no Brasil e no mundo, da telefonia até a internet, e como isso pode mudar a sua vida.

Terça-feira, às 8h