Rádio Câmara

Reportagem Especial

HIV/Aids - Capítulo 5

Estreia: 16/09/2019 - 07h40

  • Capítulo 5 - Discriminação

A prevenção contra a contaminação pelo vírus HIV não é difícil. Com o avanço e a rapidez dos testes, o diagnóstico também está mais acessível. E o tratamento melhorou muito desde o início da epidemia, nos primeiros anos da década de 1980.

Em relação ao HIV/Aids, o que a ciência ainda não conseguiu eliminar foram o preconceito e a discriminação. Mesmo sabendo que o vírus e a doença não atingem somente grupos específicos, como gays e profissionais do sexo, ainda há quem impeça as pessoas vivendo com HIV de garantirem seus direitos como cidadãos.

A discriminação acontece logo que se recebe o resultado dos testes, quando a resposta é positiva para o vírus HIV, como explica o infectologista Alexandre Cunha.

"O HIV ainda está relacionado a uma ideia de promiscuidade, de que a pessoa pegou HIV porque fez alguma coisa de errado e muitos pacientes não lidam bem com isso, têm muito medo de revelar o diagnóstico e isso é um fator de angústia e de sofrimento muitas vezes maior do que a infecção em si. Então esse estigma social, esse preconceito, ou o medo de sofrer preconceito ainda é algo que impacta bastante a qualidade de vida, talvez muito provavelmente mais do que o fato de ter que ir ao médico, colher exames, tomar remédio, é realmente esse medo de ser discriminado, de ser julgado por conta de uma infecção".

Esse medo de julgamento, segundo o médico, afeta até a continuidade do tratamento, que já é difícil porque a ingestão dos medicamentos não pode ser interrompida.

"Muitos pacientes, pelo estigma do HIV, por não quererem revelar a condição de portadores do  HIV, têm que esconder os medicamentos, não tem coragem de deixar os medicamentos expostos em casa, de tomar os medicamentos na frente do outro e isso tem um problema logístico. Então essa dificuldade de ter que tomar um remédio de uso diário, que você não quer se expor, mas você tem que pegar o remédio todo mês ou a cada dois meses no centro de saúde, apesar do remédio ter o fornecimento gratuito, é um problema".

Quem lida diariamente com pessoas vivendo com HIV revela que uma das faces do preconceito aparece no mercado de trabalho. Christiane de Andrade, assistente social da Casa de Apoio à Saúde Nossa Senhora da Conceição, de Belo Horizonte, ouve diariamente depoimentos de quem não conseguiu se manter no emprego.

"A maioria dos nossos assistidos, que são portadores do vírus HIV, eles trabalhavam e aí nós temos os relatos de quando foi descoberto o HIV, eles foram demitidos. E outros infelizmente também, devido à patologia ir se agravando, aí é descoberto e o cara não tem até mesmo condições de continuar no mercado de trabalho".

É a mesma experiência que tem Claudio Pereira, diretor do Grupo de Incentivo à Vida, de São Paulo, entidade que apoia pessoas infectadas pelo vírus HIV. Ele faz um paralelo entre os avanços da ciência e o retrocesso da discriminação.

"Por mais avanço na informação que tenha ocorrido, acesso a mídias sociais, a facilidade tecnológica de hoje em dia que tem, mesmo assim as pessoas se deparam com situações que se ela revela a sua sorologia, ela pode vir a ser demitida, como tem ocorrido ainda, a gente recebe pessoas com essa demanda".

Claudio Pereira comenta as dificuldades que as pessoas vivendo com HIV enfrentam especificamente em relação à aposentadoria.

"Muitas pessoas relatam casos de pessoas com dificuldades e que foram desaposentadas pelo INSS. A gente tem um caso de uma pessoa que está cega, ela foi aposentada por cegueira, ela continua cega e mesmo assim foi desaposentada. Então alguma coisa errada acontece aí, não é?”

Cleiton Euzébio, diretor interino do Unaids Brasil, programa das Nações Unidos para o combate da epidemia de HIV/Aids, enumera as ações para frear o preconceito e a discriminação.

"Há um esforço muito grande do Unaids globalmente para fazer com que os países derrubem ou não aprovem leis que criminalizam a transmissão do HIV, porque comprovadamente esse tipo de lei traz prejuízos porque afasta as pessoas dos serviços de saúde. Setenta países do mundo criminalizam as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Então o Unaids também trabalha junto a esses países para que essas leis sejam derrubadas, porque também são leis que vão impactar na saúde da população LGBT".

Acolher e amparar podem ser atitudes individuais para quem se vê diante de uma pessoa com o vírus HIV.

A Constituição garante a todos os brasileiros vivendo com HIV o acesso ao tratamento na rede pública. E há 30 anos, existe uma Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus. Ela prevê o direito à informação clara sobre HIV Aids e à informação específica sobre o estado de saúde da pessoa. Outro direito é o de receber sangue, órgãos ou tecidos que tenham passado antes pelo teste de HIV.

A declaração também determina que ninguém pode fazer referência ao resultado do teste de uma pessoa, ou ao seu estado de saúde, sem o consentimento dela. A privacidade é assegurada também nos serviços médicos e assistenciais.

O site do Unaids tem uma sessão que mostra como utilizar a linguagem apropriada pode influenciar comportamentos. A primeira dica é estabelecer a diferença entre o HIV, que é o vírus e a Aids, que é a doença que pode surgir em decorrência da contaminação pelo vírus. Outra recomendação é eliminar termos como "aidético" ou "infectado com Aids", já que a Aids não é um agente infeccioso.

A palavra "vítima" também não é indicada, porque estigmatiza a pessoa vivendo com HIV. São pequenos cuidados, que podem fazer a diferença no suporte a este grupo da população.

Trabalhos técnicos – Tony Ribeiro

Produção – João Paulo Florêncio

Edição e Reportagem – Cláudio Ferreira

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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