Rádio Câmara

Reportagem Especial

Os 25 anos do Plano Real - os tropeços que nos permitiram encontrar o caminho da estabilidade monetária

Estreia: 05/08/2019 - 03h00

  • Os tropeços que nos permitiram encontrar o caminho da estabilidade monetária

Real, mil réis, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro outra vez, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro novamente, Cruzeiro Real e, finalmente, de volta ao Real. Se incluirmos os cortes nos zeros e dos centavos, o Brasil teve doze unidades monetárias diferentes em toda a sua história!

Só nos últimos 50 anos, tivemos cinco moedas. O Cruzeiro, relançado em 1970, durou 16 anos. Em 1986, foi lançado o Cruzado, como símbolo no combate à inflação. Durou menos de três anos. Em seu lugar, foi lançado o Cruzado Novo, também desmoralizado pelo dragão da inflação - circulou apenas um ano. Em 1990, o novo governo confiscou o dinheiro dos brasileiros e trouxe de volta o Cruzeiro. A aventura durou três anos e meio. O Cruzeiro Real foi criado na transição da URV e ficou menos de um ano. Depois de tantos fracassos, finalmente uma moeda que veio para ficar. O Real completou vinte e cinco anos de existência e nada indica que vamos precisar substituí-lo tão cedo.

A estabilidade da moeda é uma conquista ainda muito valorizada pela população porque custou muito caro para gerações de brasileiros.
O real foi criado em 1994.

Mas esta história começa no início dos anos 80, como conta o ex-presidente do Banco Central, Pérsio Arida, um dos pais da nova moeda:

“Do meu ponto de vista, a história começou com o paper que escrevi junto com André Lara Rezende, foi chamado de paper Larida, que foi a primeira proposta da moeda virtual, que depois veio a ser a URV. O Brasil enfrentava naquela época uma inflação de 200% por ano, o que, para o jovem de hoje, é um número absurdo. Mas no Brasil veio numa escalada.”

Arida lembra que, no final do regime militar, o Brasil convivia com inflação e estagnação econômica, resultado de políticas equivocadas para estabilizar a economia:

“Houve várias tentativas de estabilização da inflação durante o período militar. Elas, no entanto, foram norteadas, primeiro, pela visão de que todo problema era fiscal. Segundo, com inércia inflacionária. Lembra que, quando a inflação era alta, a inflação jogava contra. Era uma inflação baseada na inércia. Ou seja: reajusta o preço hoje de acordo com a inflação do ano passado.”

Co-autor da proposta que permitiu a desindexação da economia com a criação da URV, o economista Pérsio Arida fez parte da equipe que criou o Cruzado, no governo Sarney:

“Nós tentamos implementar essa chamada solução do plano real ainda 86, mas o consultor-geral da República, que era o Saulo Ramos, que trabalhava com o presidente José Sarney, foi taxativo: o sistema monetário nacional só admite uma moeda. Não há duas moedas. Você não pode escrever o contrato em moeda que não seja a moeda corrente do país. Então, a ideia pareceu natimorta naquela altura.”

Para Pérsio Arida, apesar do fracasso, o Plano Cruzado foi um marco na economia brasileira:

“O Cruzado falhou, mas ficou no imaginário coletivo. Então, os vários planos de estabilização a seguir eram tentativas de se fazer um cruzado certo.”

Segundo Arida, o Real foi criado num contexto muito especial da nossa história. Uma população cansada de aventuras, o Congresso Nacional paralisado pelo escândalo dos anões do orçamento e um acúmulo de experiências que permitiram construir o caminho que iria finalmente nos livrar do círculo vicioso que atrasava o nosso crescimento:

“Primeiro, o país cansou de congelamento de preços. Então, o anúncio que nós não iríamos fazer congelamento de preços era crível. Segundo: havia um ministro da Fazenda, que no caso era o Fernando Henrique, que se deu ao trabalho de acompanhar todas as reuniões da equipe de economistas o que o tornou capacitado para defender politicamente o plano, para explicar o plano, sem depender de ter um assessor do lado. E para negociar politicamente o que podia ser negociado, ter noção do que dava para negociar e do que não dava para negociar. E o respaldo do Presidente da República, que era o Itamar Franco, que é uma questão muito particular.”

O conhecimento técnico foi importante, mas a habilidade e a liderança política por trás do plano foram fundamentais, como destaca o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que comandou a equipe que criou o Real:

“Havia setores do meu próprio partido dentro do Congresso que achava que não havia condições políticas para fazer um plano. E que não era necessário porque bastava diminuir um pouco a inflação e mais um pouco haveria eleição depois e deixaria para o próximo governo, mais estável, com maior expectativa de tempo de poder. Mas isso não era possível porque você não tinha como. Porque a desordem era muito grande. Não havia informação de nada!”

A equipe econômica que elaborou o plano Real era formada pelos economistas: Pérsio Arida, André Lara Resende, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch.

Confira, no segundo capítulo, a implantação da nova moeda e os desafios dos primeiros anos

Trabalhos técnicos - Ribamar Guimarães
Edição de rádio - Mauro Ceccherini
Reportagem - Cid Queiróz

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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