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Reportagem Especial

A violência contra jovens negros e pobres no Brasil

  • A violência contra jovens negros e pobres no Brasil

Cláudia Maciel perdeu um irmão no início do ano. O garoto, que tinha 16 anos, se envolveu com o tráfico de drogas e foi assassinado. Cláudia diz que seu irmão é só mais um entre tantos jovens pobres que se se envolvem com o crime por falta de opção:

“O crime, por um todo, tem atraído muito a juventude. A gente não oferece acesso à cultura, acesso ao lazer. A gente não oferece uma escola, de fato, ideal, para que o jovem possa ter vontade de ir para a escola.”

Já o caso de Kim Fortunato, que é contador, mostra como jovens negros ainda são vítimas de racismo. No ano passado Kim foi fazer depósito para a empresa onde trabalha, mas a atendente quis saber a origem do dinheiro e só aceitou fazer o depósito em nome de um amigo branco que o acompanhava.

“Indagações, como: ‘de onde é esse dinheiro?’. ‘Da minha instituição, na qual eu sou tesoureiro’. Ela falou: ‘não, tudo bem. Quanto é que tem?’. Eu falei o valor aproximado, realmente, porque o dinheiro, contado na mão, e eu já tinha feito alguns pagamentos... Não é de se confiar. É diferente. E lá eles têm uma máquina para contar. E ela continuou indagando.”

Para tentar diminuir os casos de violência contra jovens negros e pobres brasileiros, a comissão parlamentar de inquérito da Câmara investigou o assunto durante quatro meses. Os trabalhos foram encerrados com a aprovação de um relatório. O texto reafirma a existência de racismo e de um genocídio contra esses jovens. A relatora da CPI, deputada Rosângela Gomes, do PRB do Rio de Janeiro, explica porque manteve o termo genocídio no relatório:

“Nos aponta o Mapa da Violência que, em 30 anos, nós matamos mais de 2,4 milhões de jovens. O maior genocídio da história do mundo foi em 1778, com a matança dos índios. E depois o holocausto, com 6 milhões. E depois nós tivemos o Camboja, com dois milhões e meio. Depois, nós tivemos o Tutsi, com 800 mil. Tivemos o Sudão, com 300 mil. Então, você veja, o Brasil está entre esses países que cometeram genocídio.”

A deputada Mariana Carvalho, do PSDB de Rondônia, diz o principal embate foi sobre o uso do termo genocídio:

“Foi uma discussão realmente muito acalorada em relação à palavra genocídio, por ser o genocídio considerado como se fosse uma guerra no nosso país. Mas eles colocaram de uma forma que o genocídio, realmente, aqui dentro do Brasil, que ele existe. Mas de uma forma que a gente está combatendo ele.”

O relatório da CPI destaca que apenas 3% das pessoas que cometem crimes contra a vida são punidas e só 8% dos crimes vão a julgamento. No texto, a comissão pede a criação de um fundo para financiar políticas públicas para jovens negros e pobres, como explica o presidente da CPI, deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais:

“Nós defendemos que 2% do IPI e do imposto de renda sejam aplicados nessas políticas. Nas políticas de saúde, de educação, de qualificação profissional, de urbanização das comunidades mais periféricas, que ainda não têm a presença do Estado. A presença do posto de saúde, da escola, da quadra, do lazer, do esporte...”

Os deputados também aprovaram a criação de um Plano Nacional para Enfrentamento da Violência Contra Jovens Negros. O plano prevê reduzir de 70 para menos de 10 por 100 mil habitantes o número de homicídios, esclarecer pelo menos 80% dos crimes, reduzir a morte de policiais e investir em políticas preventivas.

Max Maciel, coordenador do Grupo Ruas, que trabalha com a socialização de jovens pobres, acredita que o trabalho da CPI serviu para embasar políticas públicas, mas só isso não basta:

“Quanto de recursos nós vamos destinar para essas áreas? Que tipo de áreas são essas? E qual é o modelo, nessas áreas, para a juventude? E aí eu acredito que a CPI é importante pelo menos para sinalizar e provocar outros órgãos e outros parceiros para chamar essa atenção. Porque isso é uma questão mundial e nos preocupa muito.”

Agora, o relatório da CPI que investigou a violência contra jovens negros e pobres será encaminhado para várias autoridades, como Ministério Público, Presidência da República e governos estaduais e municipais.

Termina aqui a série especial sobre a violência contra jovens negros e pobres.

Reportagem – Jaciene Alves Edição – Mauro Ceccherini Trabalhos Técnicos - Indalécio Wanderley

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

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