Rádio Câmara

Reportagem Especial

Corrupção faz parte da mentalidade coletiva do brasileiro, diz especialista

  • Corrupção faz parte da mentalidade coletiva do brasileiro, diz especialista (bloco 1)

  • O trabalho das instituições que atuam no combate à corrupção no Brasil (bloco 2)

  • Leis recentemente aprovadas criam novos mecanismos de combate à corrupção (bloco 3)

  • Mais de 100 projetos de combate à corrupção tramitam no Congresso (bloco 4)

Especialista diz que a corrupção faz parte da mentalidade coletiva do brasileiro. Na reportagem especial desta semana, você vai conhecer as ferramentas de combate a esse crime. Vamos saber um pouco mais, também, sobre a legislação e as instituições que se dedicam ao combate à corrupção. A repórter Geórgia Moraes ouviu especialistas e autoridades sobre o tema nesta série de quatro capítulos. Confira.

As denúncias sobre a possível compra superfaturada de uma refinaria e o suposto pagamento de propina a funcionários da Petrobras colocam a principal estatal brasileira no centro de investigações de corrupção. Os principais órgãos de controle interno e externo da administração pública, como o Tribunal de Contas da União; a Polícia Federal; a Controladoria Geral da União; e o Congresso Nacional, voltam suas atenções a mais essa denúncia.

Apesar dos esforços das instituições e do aprimoramento da legislação, o Brasil ainda ocupa a 72ª posição na lista dos países considerados mais limpos ou livres de corrupção. O ranking, elaborado pela ONG Transparência Internacional, com sede na Alemanha, inclui 177 países. O Brasil está bem atrás de vizinhos como Uruguai, na 19ª posição, ou o Chile, na 22ª.

Para o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ayres Britto, as origens da corrupção no Brasil são históricas e remontam à colonização do país pelos portugueses:

Arquivo/Lucio Bernardo Junior
Direito e Justiça - Geral - Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto
Para o ex-ministro do STF Ayres Britto, a corrupção faz parte de uma mentalidade coletiva.

"Imaginemos neste Estado imenso de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e todo mundo se apropriando à vontade, sem cerimônia, do que era público, praticando o mais desbragado patrimonialismo, nepotismo, indistinção absoluta entre o público e o privado. Imaginemos o que não surgiu de cumplicidade, de complacência, de vista grossa, de leniência, de impunidade, esse caldo de cultura não nos favorece até hoje. Então, a corrupção no Brasil é endêmica, é renitente, é persistente, é capilarizada, faz parte de uma mentalidade coletiva."

O coordenador da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, deputado Francisco Praciano (PT-AM), destaca que o alto índice de percepção da corrupção afeta o país econômica e socialmente:

"Representam um volume muito grande de recursos retirados da sociedade brasileira: são 100 bilhões de reais. O mundo se preocupa com isso. Não somos só nós. O motivo principal: a corrupção atrapalha o investimento, torna menos atrativo o investimento, degrada o ambiente de negócio, tem impactos econômicos nos juros, então é uma coisa realmente que se espraia, os resultados da corrupção, pela sociedade e pelo Estado."

Legislativos de todo o mundo reuniram-se para combater o problema através da Organização Global de Parlamentares Contra a Corrupção – a Gopac. Diretor, no Brasil, da organização, o deputado federal Mendes Thame (PSDB-SP) chama a atenção para as ferramentas de combate ao problema:

mendes thame1 09102013
Para Mendes Thame (PSDB-SP), a corrupção só será combatida com leis e instituições mais eficazes.

"Leis, as melhores possíveis, se não houverem instituições fortes, não adiantam nada. E também o contrário: se tivermos fortes instituições, mas não tivermos uma legislação – já que nós todos somos subordinados à lei, a lei deve valer igualmente para todos – se não tivermos leis boas, essa força das instituições se perde no vazio."

Para cada preso por corrupção no país, há cem encarcerados por furto ou roubo, de acordo com estatística do Departamento Penitenciário Nacional. O promotor de justiça Douglas Fischer lamenta que a corrupção ainda seja pouco punida no Brasil. Ele avalia que a punição dos culpados deveria ter função preventiva para inibir novos delitos, principalmente pelo dano coletivo que causam à sociedade:

"Há estudos que indicam que em torno de 96% dos danos causados à sociedade são causados por crimes de colarinho branco, aí incluídos os delitos de corrupção e correlatos, e apenas 4% relacionados com a tradicional delinquência que nós vemos hoje assoberbando nossos cárceres, especialmente no Brasil."

Entre as causas dessa impunidade, Fischer reclama da morosidade do processo penal que admite inúmeros recursos, a maioria apenas protelatória. Na visão dele, a legislação deveria ser modificada para impedir o uso desses mecanismos.

A deficiência estrutural da Justiça criminal brasileira, sobretudo em processos de lavagem de dinheiro, dificulta ainda o acesso e a repatriação do dinheiro desviado pela corrupção. Dados do Ministério da Justiça apontam que nos últimos dez anos, R$ 35 milhões, entre dinheiro, propriedades e ações foram repatriados, mas ainda há R$ 700 milhões bloqueados em outros países. Uma subcomissão da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara deve apresentar, até o fim do ano, um conjunto de projetos que altere a legislação atual para facilitar a recuperação desses ativos.

Conheça, no segundo episódio da série, o trabalho das instituições que atuam no combate à corrupção no Brasil.

Reportagem - Geórgia Moraes Edição - Mauro Ceccherini

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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