Rádio Câmara

Reportagem Especial

As mudanças na lei de adoção e as histórias de quem espera por um lar

  • As mudanças na lei de adoção e as histórias de quem espera por um lar (bloco 1)

  • Busca por perfil específico mantém longa a fila de espera nos abrigos (bloco 2)

  • A queda nas adoções internacionais e as novas regras para estrangeiros (bloco 3)

  • Especialistas destacam avanços da nova lei de adoção (bloco 4)

  • O passo a passo do processo de adoção (bloco 5)

Existem hoje, no país, 40 mil crianças em abrigos, mas só 5,5 mil podem ser adotadas. Por que isso acontece? A Reportagem Especial desta semana faz um balanço das mudanças na Lei de Adoção, aprovadas há cinco anos pelo Congresso Nacional. Confira ainda a opinião de especialistas e o depoimento de pessoas adotadas e que adotaram. O que mudou, na prática? Ouça agora o primeiro capítulo, com Ginny Morais.

Mãe adotiva - adoção
Quando mais velha a criança, mais difícil encontrar um lar adotivo

Esta é a história de Lucas Alves de Oliveira.

“Meus pais tinham problemas com drogas. Minha mãe não trabalhava e pedia dinheiro na rua. A gente era em quatro irmãos. Minha irmãzinha na época não tinha nem um ano. Meu pai, quando chegava drogado, até na minha irmãzinha ele batia. Era duro. Aí foi se agravando, até que um dia alguém denunciou e o conselho tutelar acabou tirando a gente deles.”

Isso foi em outubro de 2005. Dos quatro irmãos, um ficou com o pai, que não estava em casa. Depois, a família biológica nunca mais voltou a se reunir. Lucas, de 11 anos, o irmão de dois anos e a irmãzinha recém-nascida foram parar em um abrigo em Indaiatuba, São Paulo.

“No começo sofri bastante. É difícil a adaptação. São pessoas estranhas, que você não conhece. São várias crianças... Acostuma, né?!”

Esta história de Lucas não é muito diferente da dos mais de 40 mil brasileirinhos e brasileirinhas que vivem em abrigos no país. Liliane Simões, assistente social de um abrigo em São Paulo, conta como crianças, como Lucas, são recebidas nas instituições.

“Precisa mostrar para essa criança que ali ela está protegida. Ou seja, tudo o que estava acontecendo fora dali não vai acontecer. Ao mesmo tempo, não posso mostrar que lá é um lar.”

Não é um lar porque é para ser passageiro, enquanto se resolve quem fica com a criança. Só que das 40 mil que estão em abrigos, só 5.500 podem ser adotadas, como explica o juiz responsável pelo Cadastro Nacional de Adoção, Gabriel Matos:

“Por que essas outras não podem ser adotadas? Porque os pais não foram destituídos. Os pais continuam pais.”

Parentes

O tempo de destituição da família biológica varia de caso para caso. A lei diz que se deve procurar parentes para saber se querem ficar com a criança. Essa busca também pode durar anos. E como a criança só pode ir para adoção depois disso, o jeito é esperar. A assistente social Liliane conta como se sentem as crianças nesse período:

“Muitos não recebem visitas. Essas crianças ficam na expectativa. Eles mesmos buscam respostas: ah, tia, sei que meu pai não vem porque está trabalhando... Na verdade não é isso, mas a gente espera ter um pouco mais de discernimento para contar. É bastante difícil trabalhar esses questionamentos.”

Quanto mais velha a criança, mais difícil fica de encontrar pais substitutos. Das 5.500 na fila de adoção, mais de quatro mil tem 10 anos ou mais. Outro complicador é a quantidade de irmãos. E na fila por uma família, três em cada quatro crianças tem um ou mais irmãozinhos. Na história de Lucas, tinha esses dois complicadores. Além de ter 11 anos, ele tinha dois irmãos. Mas depois de seis meses no abrigo, apareceu uma família querendo adotar os três.

“Acabou não dando certo. Acho que, na verdade, eles só queriam ficar com a minha irmã. Acabaram levando a gente porque minha irmã era bebezinha. Só que eu e meu irmão eles maltratavam bastante.”

Lucas denunciou os maus tratos. E ele e os irmãos acabaram voltando para o abrigo. Essa devolução de crianças é muito evitada, mas pode acontecer no período de convivência, enquanto o processo de adoção ainda não foi concluído. Soraya Pereira, presidente do Projeto Aconchego, grupo de apoio à adoção, diz que essa é uma situação que infelizmente acontece com certa frequência.

“Quando se tem um caso de devolução, é muito abafado. É dito como fracasso, a família dificilmente assume que não deu certo e devolveu. Muitas vezes, a criança é devolvida porque o adulto não consegue lidar com todo o processo dessa criança. A criança vai testar num primeiro momento, ainda mais se for adoção tardia, porque ela foi abandonada. Para que ela vai de novo se apegar, criar um vínculo para ser abandonada novamente? Isso precisa estar consciente. Existem crianças difíceis, mas não impossíveis.”

Abandono

Lucas conta como se sentiu quando ele e os dois irmãozinhos foram devolvidos ao abrigo.

“Era sensação de abandono.”

Os anos foram passando... E a angústia pela adoção aumentando…

“Eu até queria, mas não tinha esperança porque estava ficando velho. Pessoal quer novo, né?”

Até que um juiz decidiu separar os três irmãos. Em 2008, a irmãzinha ganhou um novo lar. Dois anos depois, o irmão também arranjou uma família substituta. Lucas continuou no abrigo.

“Acabei ficando sozinho. Aí também não tinha mais esperança. Já estava com 16 anos. O que eu esperava era completar 18 anos e sair, né?!”

Lucas estava na expectativa porque todo adolescente quando completa 18 anos precisa deixar o abrigo. Soraya, do Projeto Aconchego, diz que geralmente a preparação para esse momento começa dois anos antes.

“Elas começam a trabalhar de 16 anos em diante para que possam se cuidar, se apropriar da vida. É um ponto muito melindroso. É muito doido ver um adolescente sair, passou a vida inteira dele numa instituição e sai. Qual é o referencial?”

Esse dia chegou para o Lucas.

“Foi difícil sair de lá. Fui morar com um colega meu de escola. Não deu certo. Fui morar numa república. Cheguei a atrasar com a despesa e acabei sendo despejado. Fiquei desesperado. Não tinha para onde ir. Acabei passando uma noite na rua.”

Como Lucas não tinha outra referência, foi até o abrigo onde cresceu para pedir ajuda. Como não podia ficar lá, foi encaminhado para uma comunidade que atende moradores de rua.

“Lá tinha uma coordenadora. Ela tinha um desejo de ter filho. Um dia, a gente estava conversando e eu falei assim: me adota. Na hora, ela não falou nada. Ela me contou que chegou em casa e chorou. E ficou com desejo de me adotar. Em uma semana, ela me contou que queria dar uma oportunidade de eu ir morar com ela.”

Lucas lembra bem desde 13 de dezembro de 2012. O dia em que finalmente foi adotado.

“Não sei nem como explicar. É uma emoção tão grande. Foi muito gostoso. Uma experiência que eu não imaginava mais que eu poderia ser adotado. Foi uma gratidão tão grande. Tem pessoas que se preocupam com você, querem seu bem, dão carinho, uma coisa que eu queria muito, uma mãe, um pai.”

Infelizmente, nem todas as mais de cinco mil crianças que estão na fila de adoção terão a história como a de Lucas, que, acabam com um final feliz, mesmo que tardio.

No próximo capítulo: Se há cinco mil crianças esperando pela adoção e 30 mil pessoas ou casais na fila para adotar, por que o processo demora tanto?

Da Rádio Câmara, de Brasília, Ginny Morais

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h20 e 23h