Rádio Câmara

Reportagem Especial

Caminhos, cerrado e lixo: a Brasília dos carroceiros

  • Caminhos, cerrado e lixo: a Brasília dos carroceiros (bloco 1)

  • Caminhos, cerrado e lixo: Brasília dos carroceiros (bloco 2)

  • Caminhos, cerrado e lixo: a Brasília dos carroceiros (bloco 3)

Nesta semana, o programa Reportagem Especial mostra a vida de um grupo de carroceiros que moram acampados na rua em Brasília e sobrevivem recolhendo materiais para reciclagem. 

TEXTO

"Digo, eu vou conhecer Brasília, o povo, vamos lá em Brasília? Vai pra Brasília, o povo dizia, é Brasília. Eu vou em Brasília, eu vou conhecer Brasília. Mas Brasília é só ilusão, minha filha, porque a pessoa sofre um pouco, viu?"

Ednalva Oliveira sorri e conta dos caminhos que a levaram até a capital do Brasil. Ali, quase todos nasceram na Bahia. Os barracos se espalham por uma área de uns trezentos metros. São cerca de cinquenta pessoas, tem dias que mais, tem dias que menos.

Por ali se vê carroças de todos os tipos, com ou sem cavalo, carrinhos de supermercado, cachorro, pombo, galinha, criança. Garrafas de bebida alcoólica no chão, sujeira e papel espalhado por todo lugar, vasos de flores murchas na entrada de um barraco. Vivem a cinco quilômetros do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional. O vizinho do lado é a regional de ensino do Distrito Federal, e mais uns metros adiante, a Universidade de Brasília. Atravessando a pista, o cenário belíssimo das árvores retorcidas do cerrado do céu do planalto central.

Como Genilson Souza, quase todos ali já compraram casa ou pagam aluguel nos arredores do Distrito Federal. Genilson é o único sergipano do grupo e conta ter vindo a Brasília por um impulso.

"Desatino acho, na minha opinião, não foi em busca disso ou daquilo não, vim só por vir mesmo, tava cansado de lá e decidi vir pra cá. Vim pra cá e fiquei dormindo embaixo de ponte, não conhecia ninguém, depois comecei a andar com o pessoal da Bahia, antes era no Bananal depois pronto. Consegui comprar uma casinha lá no Goiás, no Jardim Ingá, aí to até hoje lá. Você conseguiu comprar essa casinha com o dinheiro do seu trabalho na reciclagem? Na reciclagem."

Papel, plástico, garrafas pet, latinhas. Sem receber pelos serviços ambientais que prestam, hoje, os catadores são uma parte fundamental para dar fim à montanha de lixo que as cidades produzem todos os dias. Nesse grupo, há pessoas que saem com seus carrinhos e carroças uma vez por dia, outros saem de manhã e à tarde, e o quanto caminham depende de cada um, podendo chegar a vários quilômetros.

O dinheiro que ganham catando material para reciclagem varia - há quem diga ganhar R$ 150, outros tiram quase R$ 500 em duas semanas. Quase todos relatam que voltam para suas casas nos arredores do Distrito Federal a cada quinze dias. Contam também que recebem muitas doações dos barões, gíria que nomeia gente com dinheiro. Ainda assim, falam em voltar para a terra natal. Ou, como Damiana Vieira, falam simplesmente em caminhar.

"Todo mundo que trabalha aqui gosta, apesar de que aqui é um trabalho um pouco puxado, mas é bom. A gente vai a hora que quer, chega a hora que quer, não é mandado por ninguém, faz o que quer e isso é bom. É porque eu gosto muito de andar, não gosto de ficar num lugar muito tempo.Hoje tá aqui, amanhã tá em outro lugar, eu gosto de viver assim. Mas pra morar definitivo eu não quero não e outra coisa, aqui ninguém tem sossego não."

Naquele dia, os barracos tinham acabado de ser desmontados em uma ação do governo. Todos eles denunciam episódios de maus tratos durante essas intervenções, mas são categóricos ao dizer que não vão para albergues e que não saem daquele local. É uma área estratégica, protegida dos olhos dos brasilienses e ao mesmo tempo próxima das quadras comerciais e residenciais. Enquanto conversamos com Damiana, seu namorado, visivelmente alcoolizado, tentava montar as paredes do barraco.

"Eu gosto de beber, eu bebo muito. Aí quando eu quero beber eu tenho dinheiro e aí vou beber, só não gosto de beber as custas de ninguém. Não vou dizer que tomo só bebida boa, bebo bastante cachaça, inclusive cheguei bem gordinha e tô só o palito. (homem de longe fala: pé inchado...). Pé inchado é tu que bebe todo dia, e eu não. (Homem repete: pé inchado). Pelo menos eu trabalho todos os dias e tu que não dá um prego, só bebendo cachaça?"

No grupo de catadores, a diferença entre homens e mulheres é nítida. Elas são muito mais abertas e articuladas. No braço direito de Ednilson Silva, a tatuagem: amor, só de mãe. Ele não soube explicar porque escreveu a frase no corpo. E se confunde ao dizer se a vida é boa ou ruim.

"A vida é muito boa, né? Muito boa, sair daqui, sair daqui. Aqui é bom um pouco, aqui é bom de trabalhar, mas ficar aqui nessa vida não é muito boa não, porque a gente passa frio demais à noite."

O banheiro dos carroceiros é o cerrado. Trazem água da regional de ensino ao lado. Os pombos se espalham por todos os lugares, como explica José Alves.

"Os pombos ficam aqui o tempo? Ficam, eles dormem nessas árvores. Eles incomodam? Não, não, só que eles tem muita pixilinga, né? Eles têm muito o quê? Pixilinga, uns piolhinho, tipo uma pulguinha que fica andando nele todinho. Eles têm doença, eles morrem aí. Tem as galinhas também. Eu to vendo uma galinha andando por ali. Elas dormem nessa árvore aqui, elas sobem e dormem aqui na árvore."

A visão das galinhas subindo nas árvores de mais de seis metros, ao entardecer, chega a ser idílica. Ao lado, uma mulher varre o chão de barro, dando um jeito na sala composta por uma mesa de plástico branca, uma boca de fogão e uma fruteira com maçã e laranja. A poeira vermelha sobe, mas a vassoura afasta os gravetos e os papeis. Alguns metros adiante, Ednalva, que sonhava com Brasília, termina o banho no Negão, o cachorro filhote de três meses.

"Ele só em três mesinhos só, é meu filho, meu caçulinha, é igual um filho pra mim. E tava dando banho nele quando a gente chegou, ele toma banho sempre? Toma, toma banho sempre, dou de dois em dois dias, porque é muita terra, né? Pra não pegar pulga e os bichinho que dano pé, nos dedinhos, uns trem de cachorro, sempre dá nessa terra, né? Aí eu cuido bem."

Ednalva conta que seu maior desejo é ter uma casa própria. Com água e luz, ela paga R$ 200 de aluguel na cidade satélite que fica a 40 quilômetros do acampamento. Diz que tem medo de lhe fazerem mal, contando um episódio de poucos dias atrás.

"Esse dia mesmo parou um carro aí, roubaram ele lá pra outro lado da rua, aí veio esse homem desesperado e falou assim: Tropa de mendigos, eu vou meter fogo no barraco de vocês, isso era o que, umas três horas da manhã. E nós ficamos dentro dos barracos, se ele vir pra cá a gente não ia deixar ele meter fogo nos barraco. Quer dizer que os outros fazem as barbaridades pra lá e nós é quem paga? Mas qualquer dia eu tô indo pra minha cidade, dá um passeio, esquecer um pouco também, esquecer um pouco de Brasília um pouco também."

A cada dia, o acampamento está mais cheio, recebendo muitos outros que queiram chegar e partir de Brasília, cidade sonho dos brasileiros que caminham pelo país.

Texto e apresentação de Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições