Reportagem Especial

Empreender e conviver: negócios e mercado de trabalho para pessoas com deficiência

Publicação: 23/12/2011 - 00:00

  • Empreender e conviver: negócios e mercado de trabalho para pessoas com deficiência (bloco 1)

  • Empreender e conviver: negócios e mercado de trabalho para pessoas com deficiência (bloco 2)

  • Empreender e conviver: negócios e mercado de trabalho para pessoas com deficiência (bloco 3)

A Rádio Câmara apresenta uma série de reportagens sobre o mercado de trabalho para pessoas com deficiência. Como empreender em meio às limitações, os casos positivos e as dificuldades para quem escolheu entre caminhos diferentes - abrir o próprio negócio, se inserir no cooperativismo ou entrar no mercado de empregos formais. Na primeira reportagem, você acompanha os casos positivos e as dificuldades para que pessoas com deficiência possam abrir seu próprio negócio. O primeiro passo é se transformar em um empreendedor na própria vida.

TEXTO

Na terra do samba e do pandeiro, quase 24% das pessoas têm algum tipo de deficiência. E mais de doze milhões e setecentas mil pessoas apresentam deficiências severas. Gente que não anda, não enxerga, não escuta, que compreende as coisas mais devagar. Gente que trabalha e ajuda a construir um Brasil junto e misturado. Gente que assumiu a responsabilidade de escrever uma linha nesse samba.

Jane Franco perdeu uma perna em um acidente de moto aos 13 anos. Fez faculdade, formou-se e, tempos depois, conheceu Flávio, amputado dos dois braços depois de receber um choque elétrico. A parceria ultrapassou o casamento. Eles criaram o site Amputados Vencedores e logo depois começaram a dar palestras sobre segurança do trabalho.

"E em 2006, vem o primeiro convite para que nós fizéssemos palestras contando a nossa história. Primeiro a dele sobre o choque elétrico e depois a minha história sobre o acidente de trajeto que aumentou muito o número de acidente de moto. E aí, então, a gente teve que se mexer. Foi quando nós abrimos a empresa e eu me tornei uma empreendedora pensando nessa questão da segurança do trabalho também. Então, as coisas vieram em um caminhar mas nós nunca paramos, nunca nos deixamos abater pela deficiência e hoje já são mais de 500 palestras realizadas por esse Brasil."

As palestras têm o objetivo de esclarecer e assim evitar que outras pessoas atravessem o mesmo caminho que Jane e Flávio. Porém, para as pessoas que nasceram com limitações ou estão passando pelo momento de lidar com uma deficiência, fica o incentivo.

"E o mercado de trabalho oferece isso. Existem muitas oportunidades disfarçadas no mundo da pessoa com deficiência, no mundo da deficiência que é possível você encontrar. Olha, quem diria que nós íamos dar palestras sobre segurança do trabalho e falando que a deficiência vem quando você sofre um acidente de trabalho. E o que você vai fazer com essa deficiência? E nós, conseguimos dar a volta por cima e estamos aí rodando esse Brasil sem pensar em limites. Não importa se você está em uma cadeira de roda ou se você está com uma bengala se você não enxerga. Existem, sim, muitas possibilidades."

Mas quando o assunto é abrir um negócio, os incentivos são poucos. Mas esse cenário já começa a mudar.

A fim de levar o empreendedorismo para esse segmento, projeto de lei aprovado no Senado e que já chegou à Câmara (PL 1784/2011), pretende criar linhas de crédito para pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, o governo lançou o programa Viver sem Limites, que cria facilidades para a entrada dessas pessoas no mundo do trabalho.

A deputada Rosinha da Adefal, do PT do B alagoano, que é cadeirante, explica que haverá incentivos para que as pessoas de baixa renda que recebem um salário mínimo do governo possam tentar iniciar um negócio sem o receio de perder o benefício que lhe garante a sobrevivência.

"E ele se colocando como microempreendedor, por um período, ele vai poder acumular o benefício e a microempresa no ramo em que ele conseguir desenvolver o trabalho. Isso é muito importante, porque a gente sabe que não pode acabar com o benefício porque o benefício, hoje, representa a sobrevivência de muitas pessoas com deficiência."

Pelo Brasil afora, já existem algumas iniciativas de fomento ao microcrédito. Infelizmente, ainda estão no papel. Hugo Duarte é presidente do Conselho de Adminitração do banco de microcrédito São Paulo Confia, e elaborou uma proposta de uma espécie de salão do empreendedorismo, onde empresas apresentariam seus equipamentos ao público com deficiência.

Por exemplo, uma máquina de churros. A pessoa receberia o crédito para a compra e ainda teria todo o treinamento da empresa que construiu o equipamento.

"Na verdade é o seguinte: eu sou um deficiente físico. Só que eu nunca dei bola para isso, nunca carreguei essa bandeira e como sou presidente de um banco de microcrédito, eu vi, assim, no microcrédito uma grande ferramenta para a inclusão desse pessoal, de colocar as mais variadas formas de deficiências. E fez assim, pelo fato de não ser um programa assistencialista é altamente motivador e eleva a autoestima dessas pessoas que não estudaram, não tiveram oportunidade de estudar mas que através do microcrédito desenvolveram um trabalho justo e ter lucro para isto."

Hugo Duarte afirma que pediu financiamento ao BNDES, mas que o banco não quis financiar o projeto. Como bom brasileiro, ele diz que não vai desistir, e pretende enviar a proposta ao banco mais uma vez.

Confiança é algo que Luiz Alberto Melchert transmite muito bem. Mas nem a graduação em economia cursada nos Estados Unidos foi suficiente para que ele conseguisse um emprego na década de 80.

Foi então que abriu sua própria empresa, uma consultoria que moderniza fazendas, transformando-as em verdadeiras indústrias no campo. Ele já atendeu 127 propriedades e o trabalho é duro: são muitas viagens, longas distâncias caminhando nas fazendas, 24 horas à disposição do cliente. Mas ele gosta. Gosta de bicho e de estar ao ar livre.

"Os empregados da fazenda ficam chocados. No início, eles ficam meio desagradados de ter que obedecer a uma pessoa cega ou ter que prestar contas a uma pessoa cega. Mas, aos poucos, você vai conversando e eles têm que ver que a gente entende do assunto. Outra coisa também é você ter que demonstrar muita independência, nesse aspecto assim o cão ajuda muito porque são áreas muito abertas e distâncias bastante grandes e que você não conseguiria percorrer com a bengala."

Além de empresário, Luiz Alberto é professor de economia na FAAP, Fundação Armando Alvares Penteado, em São Paulo, e ainda encontra tempo para tocar um projeto de treinamento de cães-guia para cegos. Bem-humorado, ele reclama que alguns clientes gostam mais do cão do que dele.

"Com certeza, alguns deles gostam mais do meu cão-guia do que de mim. Eu não diria que eu nunca tive problema por causa do cão-guia em relação à minha clientela. Mas, eu não me lembro. Aliás, houve mas não chegou a ser meu cliente. Era um vietnamita e quando eu cheguei para entrar para entrevista: ele falou que cachorro não podia entrar porque no Vietnã se comem cachorros e ele não admitia comida viva dentro do escritório dele. E, aí, eu lembrei que ele estava no Brasil e que era um favor nosso que ele estivesse aqui e que tomasse mais cuidado com o que falava"

Pelas terras daqui, infelizmente, muitos cegos ainda têm problemas para circular com seus cães. Mas a legislação e boa parte da sociedade já estão em sintonia e sabem que ao excluir pessoas quem perde é o Brasil de todos.

Reportagem Daniele Lessa Soares

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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