Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Serra da Capivara - O pioneirismo de Niède Guidon (08'18'')

  • Especial Serra da Capivara - O pioneirismo de Niède Guidon (08'18'')

TRILHA ("O amor aqui de casa", instrumental)

Quem chega hoje à imensidão da Serra da Capivara, encravada na Caatinga piauiense, costuma se perguntar: como é que essa região tão pobre e isolada pôde se transformar em um dos principais centros científicos do mundo, atraindo pesquisadores de várias nacionalidades?

Se hoje ainda é difícil chegar lá, por causa das estradas precárias e da falta de um aeroporto, imaginem 50 anos atrás, quando a então professora de história natural, Niède Guidon, tomou conhecimento das primeiras pinturas rupestres no Piauí.

"Em 1963, eu trabalhava no Museu Paulista, lá no Ypiranga, que era da Universidade de São Paulo, e nós tínhamos organizado uma exposição sobre as pinturas rupestres de Minas Gerais. E uma pessoa que foi visitar a exposição pediu para falar com o responsável, que era eu, e mostrou uma fotografia dizendo: 'olha, lá no Piauí, também tem esses desenhos de índios'. Eu olhei a fotografia e vi que era completamente diferente e desconhecido. Eu procurei e não tinha nada escrito sobre o Piauí. Nas férias daquele ano, eu peguei o meu carro e vim."

As fortes chuvas daquele fim de ano e a queda de pontes sobre o rio São Francisco a impediram de chegar ao Piauí. Depois, veio o golpe militar de 64 e Niède foi estudar arqueologia na França.

Só retornou ao país em 1970 para pesquisar índios de Goiás, juntamente com uma missão francesa. Na volta a São Paulo, ela desviou seu caminho, se dispersou do grupo e finalmente viu de perto os primeiros sítios arqueológicos da Serra da Capivara.

"Eu vi cinco sítios com pinturas na beira da estrada, fiz as fotografias, cheguei na França e, com esses dados, eu consegui montar uma missão francesa. E daí, então, começou a pesquisa pela França, aqui na região. Começou em 1973. O ponto de partida foi ali no desfiladeiro da Capivara, que era onde passava a BR 020 antes."

Antoniel Santana, de 30 anos, é guia no Parque Nacional Serra da Capivara e se lembra das histórias que seus pais lhe contavam sobre esses primeiros passos da arqueóloga na Caatinga piauiense.

"A chegada da professora Niède Guidon foi muito conturbada, porque ela chegou aqui sozinha, a pé e nem estrada tinha. Então, a dificuldade para conhecer o sítio era muito grande. Ela chegava, conhecia esses mateiros mais antigos - Seu Nivaldo, Seu Durval, Joãozinho da Borda - e saí montada num jumentinho conhecendo os sítios. Passavam 10 a 20 dias aí dentro do mato sem tomar banho e sem nenhum tipo de conforto."

Niède confirma a história.

"Era uma dificuldade muito grande, carregando tudo em lombo de jegue. O pessoal daqui servindo de guia, trabalhando conosco. Dormíamos na rede lá no meio do mato. Vínhamos a cada 15 dias para a cidade para fazer uma compra. Mas a gente conseguiu implantar essa pesquisa. Tinha todo o material que a gente escavava e que tinha de ser estudado e guardado. No começo, ele ia para a Universidade de São Paulo e, depois, quando a gente conseguiu montar um centro na cidade, eu trouxe tudo de volta para cá, justamente com a idéia de criar um museu."

Anos mais tarde, vieram o Museu do Homem Americano, montado com alta tecnologia, na cidade de São Raimundo Nonato, para abrigar os vestígios dos primeiros habitantes do nosso continente; e o Parque Nacional Serra da Capivara, onde está o principal conjunto de sítios arqueológicos das Américas. A Unesco o declarou patrimônio cultural da humanidade na década de 1990.

TRILHA ("Parêia", com Mestre Ambrósio/instrumental)

As pesquisas conduzidas por Niède Guidon no Piauí revolucionaram as teorias científicas vigentes até então. Os cientistas dos Estados Unidos, que sustentavam que o homem chegou às Américas há 12 mil anos, vindo da Ásia pelo Estreito de Bering, até hoje resistem a admitir as provas da presença humana na Serra da Capivara quase 100 mil anos atrás.

Parte das datações do material recolhido no Brasil foi feita na França, seguindo as técnicas avançadas de carbono 14 e termoluminescência.

Niède, ainda cheia de disposição, afirma que as pesquisas não param e tentam mostrar, agora, as múltiplas origens dos primeiros habitantes do continente americano.

"Nós estamos procurando descendentes de índios daqui para ver se conseguimos DNA nos esqueletos que nós encontramos para ver se esse DNA tem uma ligação do lado da África ou do lado da Ásia. E tem mais uma coisa: quando esses grupos saíram, eram todos com o mesmo patrimônio genético. E agora, já existe também uma nova teoria que diz que o primeiro homo que se espalhou pelo mundo não foi o sapiens. Antes do sapiens, eles já teriam viajado, porque foram encontrados homo erectus na Malásia. Então, ele teria se espalhado e evoluiu diferentemente nos diferentes continentes por causa das questões climáticas."

MÚSICA: "Vó Cabocla", com Mestre Ambrósio
"Na loca da pedra, no meio do mato
Bem longe dos olhos de um gavião...
A vida é um presente que vem do passado
Eis que acharam no mato a menina, então...
Miudinha... Miudinha..."

Motivo de orgulho é que o não falta para essa senhora, nascida em Jaú, no interior de São Paulo, há quase 80 anos.

A contribuição que Niède Guidon deu para a ciência lhe rendeu prêmios, títulos e condecorações. Mas ela também pode se orgulhar do efeito positivo de seu trabalho na geração de renda e cidadania para milhares de pessoas carentes que habitavam o sudeste do Piauí 40 anos atrás.

O Parque Nacional Serra da Capivara e o Museu do Homem Americano, frutos diretos de sua pesquisa arqueológica, mudaram a cara da região.

"Aquele povoado era muito, muito pobre. Era miséria o que tinha aqui. Às vezes, a gente chegava nessas casas perdidas na Caatinga e os donos da casa diziam: 'ah, desculpa porque nós não podemos nem oferecer água porque não temos água'. Era uma situação muito difícil que eu via e, realmente, o parque carreou muito dinheiro para cá. E a política que nós adotamos até hoje é a de procurar dar emprego às pessoas daqui: formar as pessoas aqui e dar emprego para eles."

Hoje não há unanimidade em torno do nome de Niède Guidon, até porque, ao longo de suas lutas para melhorar a infraestrutura e proteger o patrimônio arqueológico da região, ela também colecionou antipatias e alguns desafetos.

Mas, os milhares de sertanejos da Caatinga falam dela com muito respeito, carinho e até uma certa devoção, como expressa o guia Antoniel Santana.

"Para nós aqui, ela vai ficar como um mito, como uma lenda mesmo. Os nossos políticos não acreditavam no trabalho dela aqui na região e não tinham nenhuma noção do que isso iria se tornar. Mas, graças a Deus, ela conseguiu vencer por ela e por nós todos. Devemos muito, abaixo de Deus, à professora Niède Guidon."

MÚSICA: "Vó cabocla"
"Feito estrela na noite, disparada no dia.
A menina crescendo, era um rio correndo, um riso que ria.
Antes de tanta gente, foi semente sozinha.
Hoje o rio correndo e a mata dizendo: és minha! és minha!"

De Brasília, José Carlos Oliveira

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