Reportagem Especial
Especial Serra da Capivara - Riqueza cultural e ecológica (07'29'')
30/05/2011 - 00h00
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Especial Serra da Capivara - Riqueza cultural e ecológica (07'29'')
MÚSICA: "Lamento sertanejo" (Gil e Dominguinhos)
"Por ser de lá do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato, do mato, da caatinga, do roçado..."
A Caatinga é um bioma que existe unicamente no Brasil. Folhas verdes e flores coloridas formam uma vegetação exuberante apenas durante os cerca de três meses de chuva. No restante do ano, o que impera mesmo é o cenário sertanejo, amarelado pela seca.
Grande parte dessa Caatinga está no Piauí, um dos estados mais pobres do Brasil. Mas, é exatamente lá, no semiárido sudeste piauiense, que se encontra um patrimônio cultural da humanidade, certificado pela Unesco: o Parque Nacional Serra da Capivara.
O Parque abriga a maior concentração de sítios arqueológicos e o principal acervo de pinturas rupestres das Américas.
Riquelma Dias, nascida e criada na região, revela a surpresa da população ao saber, ainda na década de 80, que sua terra era um verdadeiro inventário visual deixado pelos primeiros habitantes do nosso continente.
"Não tinham noção nenhuma dessa parte da história. Isso foi novo para a gente porque, até então, ninguém ouvia falar de arqueologia, de escavação. Foi novidade mesmo, surpresa. O pessoal mais velho conta: 'nossa, às vezes, a gente passava lá, via aquelas pinturas'. Ninguém nunca pensou que tinha sido feito pelo homem pré-histórico, não. Pensava que era qualquer coisa. Mas, agora, acho que o pessoal já tem consciência, depois da chegada da doutora e dos pesquisadores."
A doutora, citada aí pela Riquelma, é a arqueóloga Niède Guidon. Foi ela quem liderou as pesquisas científicas para catalogar quase mil sítios arqueológicos na área do parque, que abrange quatro municípios do Piauí, principalmente Coronel José Dias e São Raimundo Nonato.
As pinturas rupestres, os fósseis e os utensílios encontrados nas escavações arqueológicas revelam vestígios da presença do homem na região há mais de 50 mil anos.
As pedras lascadas e outros utensílios foram construídos com técnicas semelhantes àquelas registradas nos mais antigos sítios arqueológicos do mundo, que estão no continente europeu.
Niède conta que os vestígios achados no Piauí revolucionaram as teorias de que o homem tivesse chegado às Américas pelo Estreito de Bering, no Alasca, apenas 12 mil anos atrás.
"Antigamente, quando eu estudei arqueologia, na década de 60, dizia-se que os homens pré-históricos da América nunca tinham tido uma alta tecnologia. Por que? Porque a pesquisa ainda não existia aqui. Aqui, nós conseguimos demonstrar que eles tinham uma alta tecnologia, uma cultura extremamente desenvolvida e, diferentemente de outros continentes, eles tiveram um controle maior da população. Então, tudo isso mudou com o avanço da pesquisa. Nós podemos provar que, há 100 mil anos, os homens já estavam na Pedra Furada."
O Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí, é o maior sítio arqueológico das Américas. Só ele concentra 1.150 pinturas rupestres bem visíveis. O sítio ganhou esse nome porque está bem perto de outro cartão postal do parque: um paredão de arenito com um buraco no meio formado pela erosão.
Aliás, o Parque Nacional Serra da Capivara não vive apenas dos patrimônios culturais pré-históricos. Niède Guidon ressalta que o aspecto ambiental também é riquíssimo.
"Aqui, além de você ter a parte cultural, você tem também a paisagem: é uma fronteira entre duas formações geológicas; tem a Caatinga; tem também, nos vales que são mais profundos, espécies animais e vegetais da Floresta Amazônica e, aqui na planície, da Mata Atlântica."
A Serra da Capivara está na área de transição entre a bacia sedimentar do Parnaíba e a depressão periférica do São Francisco. Essas formações geológicas favoreceram o aparecimento de chapadões, vales, veredas, grotões e desfiladeiros, sustentados por rochas de arenito, calcário e conglomerados de seixos.
O relevo, o clima e a colonização tardia do Piauí foram fundamentais para a preservação desses vestígios pré-históricos. Parte do material foi recolhida do parque para compor o acervo do Museu do Homem Americano, instalado em São Raimundo Nonato com o apoio do governo francês. Niède Guidon não economizou em tecnologia de ponta. O museu tem padrão de primeiro mundo.
"Se o Brasil pediu para eu fazer alguma coisa aqui é porque queria uma coisa de primeiro mundo. Eu não vim aqui para fazer uma porcaria qualquer. Eu trabalho aqui como eu trabalharia na França. E justamente tudo o que está aqui é o fruto de tudo aquilo que aprendi, primeiro na USP e depois em Paris."
Tudo é administrado pela Fundação Museu do Homem Americano, uma entidade científica, sem fins lucrativos, e que trabalha em parceria com vários órgãos governamentais.
Juntamente com o Instituto Chico Mendes, por exemplo, a fundação auxilia na administração dos quase 130 mil hectares do Parque Nacional Serra da Capivara.
Fiscal e guia no parque, Antoniel Santana revela o resultado prático dessa parceria para preservação do meio ambiente local, sobretudo em relação à fauna.
"Andando hoje pelas trilhas do parque, eu fico de alma lavada porque eu me lembro que, de 8 a 10 anos atrás, a coisa mais difícil era ver um animal: um caititu, um jacu ou mesmo um tatu. Hoje, graças a Deus, em qualquer trilha que você entra no parque você se depara com animais: caititu, jacu, veado, cotia. Muitas vezes, você está no povoado, passam os papagaios, as araras e você vê a alegria das crianças. Isso me deixa muito emocionado porque, se não fosse esse trabalho de fiscalização, dificilmente os nossos filhos e netos iriam conhecer os animais nativos da nossa região."
Parque declarado patrimônio da humanidade, museu com padrão de primeiro mundo, centro de pesquisas científicas e Caatinga rica em biodiversidade: tudo isso encravado no semiárido do Piauí.
Em torno dessas atrações, várias outras atividades estão em curso com foco no desenvolvimento regional, na geração de emprego e renda para a população local e na difusão das pesquisas científicas.
Mas, sempre tem um porém. E, no caso da Serra da Capivara, a principal ressalva é quanto à dificuldade de acesso a todas as atrações da região por causa das condições ruins das estradas e da falta de um aeroporto.
Apesar de as primeiras pesquisas terem surgido há quase 40 anos, a região ainda é desconhecida da maioria esmagadora dos brasileiros e convive com uma eterna sensação de potência turística inexplorada.
De Brasília, José Carlos Oliveira