Reportagem Especial

Os rumos da política externa no governo Dilma (08'17")

Publicação: 04/04/2011 - 00:00

  • Os rumos da política externa no governo Dilma (08'17")

A oposição, que condenou a aproximação do ex-presidente Lula com o presidente Hugo Chávez, ou a relação com o Irã; acredita que a política externa brasileira deve sofrer nova inflexão com Dilma Rousseff.

Os oposicionistas, como o deputado Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas Gerais, citam especificamente a posição de Dilma contrária à pena de morte da iraniana Sakineh Ashtiani, acusada de adultério e de cumplicidade na morte do marido:

"Agora mesmo temos toda essa onda de liberdade no mundo árabe nos países da África, África do Norte e o governo brasileiro está com a postura discreta, com postura diferente da que teria, provavelmente, no período anterior."

Esta também é a opinião do embaixador Rubens Barbosa, que acredita em uma mudança de ênfases:

"Em que aquele período de confrontação que vivemos em 2009, 2010 do governo anterior, aparentemente desapareceu e as ênfases agora estão mais na cooperação, na defesa dos nossos interesses como os americanos defendem os interesses deles. Mas com uma atitude mais positiva porque não se pode ignorar, como foi ignorado no governo anterior, o peso dos Estados Unidos, que é a maior economia do mundo, o país líder em termos políticos, em termos econômicos, com um mundo multipolar, é verdade, mais ainda com grande influência."

Outro exemplo citado pelo professor da USP José Augusto Guilhon Albuquerque é a relação do Brasil com a Líbia:

"Tudo indica que, tal como fez em outras ocasiões, o Brasil iria se alinhar com a Venezuela e não com os países europeus e os Estados Unidos nesta questão agora, por exemplo, do Kadafi. Mas hoje a mudança é muito grande, na área de direitos humanos está mudando de posição o Brasil, na área de defesa da democracia e da liberdade está mudando de posição. O Brasil aplaudiu o Irã quando ele massacrou a oposição e agora está condenando a Líbia."

Mas o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já deixou claro que haverá alguma mudança, mas dentro de uma linha de continuidade:

"O Irã é um país importante na região de confluência entre Oriente Médio e Ásia. Consideramos que é interessante manter um diálogo com o governo iraniano, até mesmo para diminuir as tensões, porque o isolamento, às vezes, só exacerba o que já é uma situação preocupante e que pode levar a um conflito. Nossa preocupação principal, como país amante da paz, um país que construiu um entorno de país aqui na América do Sul, que se relaciona bem com todos seus vizinhos, é de contribuir também para paz mundial. De modo que, o que eu acho que houve não foi propriamente uma aproximação com o governo do presidente Ahmadinejad e sim um esforço de contribuir para criação de confiança entre países com os Estados Unidos e o Irã e contribuir para que houvesse uma solução diplomática para essa questão, que é uma das mais espinhosas, mais complicadas da agenda internacional. Aliás, continua sendo esse o propósito da diplomacia brasileira."

Para o assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Antonio Jorge Ramalho da Rocha, não há dúvida de que a política em relação à África, por exemplo, continuará muito importante:

"Acho que vai ter uma orientação mais forte no sentido de relacionar ou de vincular as posições do governo brasileiro a valores mais claros, como a questão dos direitos humanos. Ela (Dilma) já deu mostras disso, o ministro de estado já deu mostras disso, e acho que pelo perfil dela, pelo perfil do atual ministro, haverá uma maior cautela, eu diria, e um pouco mais de cálculo na tomada de posições e deve haver maior concentração de energias em regiões como a África de língua portuguesa, a costa oeste da África, que deve ser muito importante. A impressão que eu tenho é que no governo Lula era até uma função das circunstâncias: como o mundo passou por transformações muito profundas, abriram-se muitos espaços."

É o que afirma também o próprio ministro Patriota:

"Devemos ter presente que, como a sétima economia do mundo e havendo implementado um conjunto de políticas econômicas e sociais que têm produzido resultados tangíveis, o Brasil gera uma expectativa natural, em searas de cooperação as mais diversificadas, junto a países menos desenvolvidos na América Latina e no Caribe, na África, no Oriente Médio e na Ásia. Nossa capacitação em termos de prestação de cooperação técnica, de assistência na adoção de políticas públicas bem sucedidas ou de ajuda humanitária, não obstante os avanços consideráveis dos últimos anos, precisará modernizar-se para atender a essa demanda."

A postura mais ativa do Brasil no mundo inteiro também deverá permanecer com o governo Dilma até porque o país se tornou mais importante do ponto de vista econômico, como explica o deputado Dr. Rosinha, do PT do Paraná:

"Basta ver os resultados comerciais e basta ver a capacidade do Brasil de articular-se nos eventos internacionais, seja no debate na Organização Mundial do Comércio, seja na ONU, em qualquer lugar o Brasil se tornou um país presente, participativo, no sentido de decidir rumos para a política internacional."

Para o deputado Chico Alencar, do Psol do Rio de Janeiro, a política externa não deve mudar na sua essência:

"O Brasil deixou de ficar de costas para América Latina, deixou de ser um mero caudatário dos interesses norte-americanos, como se sabe poderosos no mundo inteiro. Passou a ter mais voz, passou a ter presença, mais singularidade, respeitando a diversidade do mundo, que não é mais bipolar. Então, é claro que o estilo do embaixador Patriota é diferente do embaixador Celso Amorim, mas no essencial, até aqui, a posição foi a mesma e, se há alguma diferença, por exemplo, em nome de um interesse econômico não fazer nenhuma crítica a certas atitudes absurdas do governo A, B ou C; isso está sendo feito com muita discrição, com muita cautela, deixando de lado; o que é positivo. Nós não podemos defender, por exemplo, ou nos omitir diante de um apedrejamento de uma mulher por suposta traição ao marido como se fosse apenas um dado cultural que deve ser respeitado. Aí não! Nós, com uma posição ainda que ocidental, mas também universal, devemos fazer o reparo, fazer a crítica e isso significa uma boa posição."

Em seu discurso de posse, o ministro Antonio Patriota declarou que o país adquiriu uma "autoridade natural" para tratar dos mais diversos assuntos porque conseguiu eliminar várias de suas vulnerabilidades; embora ainda tenha muito o que fazer em áreas cruciais como educação e saúde.

De Brasília, Sílvia Mugnatto.

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