Rádio Câmara

Reportagem Especial

A política de ampliação da representação brasileira no exterior (07'04")

  • A política de ampliação da representação brasileira no exterior (07'04")

Na segunda matéria, o assunto é a política do governo de abertura de novas embaixadas brasileiras em vários países do mundo.

Uma das políticas que ajudou literalmente a ampliar a presença do Brasil no exterior foi o aumento das representações do país lá fora; sejam embaixadas, que cuidam da parte política efetivamente, sejam consulados, que buscam atender os brasileiros que estão em outros países. Resta saber se eles também contribuem para mudar a imagem do país.

Foram 66 novas representações entre 2003 e 2010, 16 no continente africano. Na Europa também foram 16, mas a maior parte consulados. E já foram autorizadas embaixadas novas na Bielo-Rússia, Afeganistão, Estônia e Bósnia-Herzegovina. Por outro lado, 27 países resolveram abrir uma embaixada em Brasília no mesmo período.

Mas a política de abertura de novas embaixadas, principalmente em pequenas ilhas do Caribe, foi bastante criticada pela oposição ao governo. Para o embaixador Rubens Barbosa, houve exagero:

"Muitos países africanos, por exemplo, centro-americanos e caribenhos em que foram criadas essas embaixadas não há muito pessoal para servir lá, às vezes o embaixador está sozinho neste posto. Então eu acho que foi correta a ideia de que o Brasil precisava aumentar o número das representações no exterior, agora eu acho que foi um pouco apressada a criação de embaixadas em postos que não têm nenhuma significação nem política, nem econômica e nem comercial para o Brasil, como alguns postos na África e alguns postos na região do Caribe. Nem os Estados Unidos e nenhum outro país têm embaixada em alguns desses países."

O deputado Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas Gerais, defende uma maior presença na África e na Ásia, mas critica o alto custo de criar embaixadas no Caribe:

"Acredito que esse recurso teria sido melhor utilizado no fortalecimento de consulados, que são aqueles que atendem a população brasileira no exterior."

Azeredo tem a companhia do embaixador Luis Felipe Lampreia:

"Tem países onde eles abriram embaixadas que representam menos do que um edifício grande em São Paulo, Rio de Janeiro, de seis mil pessoas, umas ilhotas do Caribe. Quer dizer, são vilegiaturas às custas do contribuinte, eu acho isso muito equivocado."

Mas por que o governo decidiu aumentar o número de embaixadas no exterior? O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse no Senado que esta política poderia ser útil para as pretensões brasileiras de ocupar uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Mas o assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Antonio Jorge Ramalho da Rocha, explica que o objetivo principal é ter mais informações para decidir melhor:

"Eu diria que isso obedece a uma visão nova do Brasil, um país que tem uma voz a ser ouvida no mundo, que precisa participar de certos processos que não se restringem a regiões específicas, e que portanto precisa se fazer presente em várias partes do mundo. Por exemplo, Afeganistão eu lembro que foi muito criticado e a meu ver de uma forma equivocada. Quer dizer, o Afeganistão está no centro de interesses da política externa de vários países europeus, aliás, dos Estados Unidos, e em certo sentido um dos hubs de informação do mundo. Então você estar presente nisso significa ter informação sobre uma série de processos que às vezes vão ter desdobramentos globais, nas nossas regiões de interesse mais próximos. E ao mesmo tempo o fato de estar ali significa a possibilidade de abertura de novos mercados."

Também o Alto Representante do Mercosul, Samuel Pinheiro Guimarães, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, destaca a importância de ter as informações em primeira mão:

"A presença da embaixada permite que o Brasil tenha um contato direto com o estado e com a sociedade local. Como é que a senhora ou qualquer brasileiro tem notícias sobre o Afeganistão? De que forma? Através das agências internacionais de notícias. A não ser que acreditemos que essas agências são absolutamente imparciais... Se nós acreditarmos nisso, então é diferente, né? Como, na realidade, não é assim; nós ficamos sabendo do que ocorre nos outros países, quando não temos embaixadas, através dos olhos de outros países que são interessados."

Samuel Pinheiro Guimarães também destaca que o aumento das embaixadas brasileiras no exterior promove o aumento do comércio internacional, diversificando e aumentando os mercados para os produtos brasileiros:

"No caso de países africanos, como nós podemos ver nos últimos anos, houve um aumento muito significativo do comércio nosso com esses países. Esse aumento de comércio naturalmente é devido às ações das empresas, mas é muito facilitado pela presença das embaixadas brasileiras, tanto no caso dos países africanos como no caso dos países asiáticos."

Mas o professor da USP José Augusto Guilhon Albuquerque afirma que o país poderia ter concentrado esforços em países mais centrais:

"Certamente em países como a China, os Estados Unidos, a própria Argentina, nós teríamos que ter uma representação mais importante, sem nenhuma dúvida. A questão da diplomacia é que ela não é uma atividade isolada, ela não é proporcional à presença de um ou dois diplomatas. Quer dizer, você espalhar, diluir no mundo a nossa representação ao invés de concentrar em alguns países importantes, não é interessante; sobretudo porque um grande número dessas embaixadas que foram criadas são embaixadas cumulativas. Na verdade, não há embaixada nenhuma, é um embaixador de um determinado país que recebe atribuição da embaixada com um grupo de outros países."

O número de representações brasileiras no exterior passou de 155 para 223 no governo anterior. Em tempos de cortes orçamentários, o novo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, declarou em seu discurso de posse que a política relacionada às embaixadas continua, mas deverá sofrer uma desacelaração.

De Brasília, Sílvia Mugnatto.

Envie sugestões, elogios ou críticas ao programa:
radioagencia@camara.gov.br

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss