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Reportagem Especial

Especial Mulheres - Os homens no poder (06'49'')

  • Especial Mulheres - Os homens no poder (06'49'')

TRILHA – “Nas duas faces de Eva / A bela e a fera / Um certo sorriso / De quem nada quer”

A mulher tem poder sobre a vida e a morte. Era assim que o homem primitivo percebia a mulher, segundo o folclorista e professor de Mitologia Comparada da Universidade de São Paulo Marcos Ferreira Santos.

Ele explica que as sociedades matriarcais prosperaram durante 25 mil anos da história humana. Como o homem dessa época não sabia de sua parcela na reprodução humana, a mulher era extramemente potente, dado o seu poder de dar à luz outros seres vivos.

"A menstruação mensal, o sangue que escorre dela, para o homem ancestral, equivale à sua morte, só que curiosamente, depois desse período, ela renasce. Então ela tem tanto o poder sobre a vida quanto o poder sobre a morte. Isso assentou esse poder matriarcal nesses 25 mil anos".

TRILHA – “Mulher é bicho esquisito / Todo mês sangra / Um sexto sentido / Maior que a razão”

E a forma que o homem encontrou para contrapor esse poder feminino foi a organização burocrática. Com as convenções e leis das cidades-estado, os homem passaram a restringir o poder da mulher. E seu trabalho de criação e manutenção da vida passou a ser menos valorizado nessa nova sociedade, que Marcos Ferreira chama de “machocêntrica”.

Segundo Maria Fernanda Marcelino, membro da executiva da Marcha Mundial das Mulheres, essa ainda é a percepção que vigora, pois a economia clássica considera como gerador de riqueza apenas o trabalho realizado fora de casa, majoritariamente pelos homens.

As funções domésticas, desempenhadas principalmente pelas mulheres, são tidas como algo feito naturalmente por elas porque nasceram para isso. A economia feminista defende, portanto, a valorização da força de trabalho feminina, como explica Maria Fernanda.

"Se não houver quem lave, quem faça alimentação, quem cozinhe, quem cuide dos filhos, quem mantenha a vida funcionando, essa força produtiva não funciona. Então, na economia feminista, a gente defende a ideia de que, para a sociedade funcionar como um todo, ela não pode abdicar da força de trabalho desempenhada pelas mulheres. Esse trabalho, na verdade, é uma exploração, porque não é pago, não é valorizado pela sociedade e é tido como se as mulheres não trabalhassem".

Além de não ser valorizado, o trabalho de cuidar da casa e dos filhos faz com que as mulheres acabem em empregos mais precários e de menor renda, como afirma Maria Fernanda.

"Sempre vi mulheres saindo para levar os filhos ao médico, faltando porque o filho adoeceu, ou indo à reunião escolar. A mulher arruma ou são destinados para ela trabalhos precários para que ela consiga ter essa flexibilidade para acompanhar essa vida dos filhos. Enquanto o homem, como teoricamente não é obrigação dele cuidar de filho, ele pode ter um horário de trabalho estendido, pode trabalhar viajando, porque ele não tem nada que o prenda."

Segundo Maria Fernanda, boa parte das mulheres continua sendo empregada doméstica, ganhando até um salário mínimo. Mulheres enfrentam também dificuldade para conseguir promoções ou são forçadas a aceitar salários menores por terem a responsabilidade de sustentar os filhos depois da separação.

TRILHA DE PASSAGEM – “Gata borralheira / Você é princesa / Dondoca é uma espécie em extinção”

A lógica masculina de organização da sociedade pode ser percebida também na esfera jurídica. Para a advogada e professora de Direitos Humanos da Universidade de Brasília Soraia Mendes, existem estereótipos que interferem na maneira como as mulheres são tratadas pelo sistema de Justiça.

No caso da violência doméstica, por exemplo, ela afirma que a racionalidade jurídica é masculina e desconsidera a forma da mulher de avaliar sua própria situação.

"Para a racionalidade jurídica, seria uma falta de racionalidade alguém que é vítima de violência não querer a penalização, o encarceramento de seu agressor. Isso muitas vezes acontece. A questão toda aí é que o Direito não consegue reconhecer, não consegue visualizar uma outra espécie de racionalidade que se dá dentro dessa relação conjugal."

E é por isso que, segundo Soraia, as ações penais contra homens que agridem mulheres passaram a ser necessariamente ações públicas incondicionadas. Isso significa dizer que a mulher que sofre violência não tem condições de determinar se ela quer que a ação tenha continuidade ou não.

Soraia explica que são muitos os fatores que influenciam o desejo da mulher vítima de violência de interromper o processo judicial contra seu agressor. Entre eles, estão o investimento afetivo na relação, os filhos, a dependência financeira, a religiosidade e a pressão social.

"Nós encontramos uma construção cultural, muitas vezes religiosa, que fala da necessidade da permanência dessa relação. 'Olha, você casou, você deve continuar, você deve perdoar o seu marido, você deve compreender o seu marido'. O que se coloca como crítica para o sistema é o sistema não comprrender que essa também é uma lógica que precisa ser compreendida com toda a sua complexidade."

Longe de defender que o agressor não seja punido, Soraia acredita que o primeiro ponto de apoio para a mulher vítima de violência não deva ser a delegacia, mas um centro de referência. Ali, ela poderia receber atendimento psicológico e assistencial, além do jurídico, e decidir como reestruturar sua vida, dentro de seu próprio tempo.

TRILHA – “Por isso não provoque / É cor-de-rosa choque / Não provoque / É cor-de-rosa choque”

De Brasília

Verônica Lima

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

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