Rádio Câmara

Reportagem Especial

Por que o Slow Food não se restringe à cozinha? (08'32")

  • Por que o Slow Food não se restringe à cozinha? (08'32")

(Áudio do filme O professor da farinha)

"E agora tem que caprichar, porque se não caprichar não fica boa. Se tirar ela meio molentona dali, ela vai ficando ruim. Tem que ser uma serrinha bem baixinha. Se for uma serra mais descuidada, a farinha fica ruim. É onde tem muita ruim aí por fora é isso. Farinha já com serra descuidada, né? Daí não rala. Farinha por aqui pode ter igual, mas melhor é difícil. É muito difícil ter melhor. "

O áudio que você acabou de ouvir faz parte do documentário "O professor de farinha", produzido em 2004 pelo Instituto Maniva. Contando a história de dois produtores de farinha, um do Norte e outro do Sul do Brasil, o filme participou do Slow Food on Film, na Itália, em 2006, e foi premiado no festival de Piratuba, em Santa Catarina.

Apesar de muito associado à cozinha, o Slow Food não se restringe à culinária. O movimento ampliou seus objetivos e princípios e hoje luta pela qualidade de vida como um todo e pela sobrevivência do planeta.

E para atingir cada vez mais adeptos, o Slow Food atua também em projetos de educação e cultura.

Desde 2002, a cidade de Bologna, na Itália, sedia o Slow Food on Film, festival que reúne curtas, médias e longas-metragens sobre tradições alimentares, vida simples e harmonia com a natureza. No Brasil, o Festival Internacional de Cinema e Alimentação, Slow Filme, teve sua primeira edição no ano passado, na pequena cidade de Pirenópolis, Goiás.

Uma das pioneiras do Slow Food no Brasil, a chef Teresa Corção, do Rio de Janeiro, criou o Projeto Mandioca e o Instituto Maniva, ONG que trabalha a gastronomia como instrumento de transformação social.

O instituto produz documentários, programas de TV e projetos culturais para divulgar as tradições culinárias brasileiras. Promove também oficinas em escolas públicas do Rio de Janeiro e um trabalho de agricultura familiar no interior do Pará.

Teresa Corção é, ainda, referência em receitas com mandioca no Brasil. Segundo ela, a alimentação e as relações culturais da mesa com nossa vida são muito bem recebidas pelos jovens.

"Parece que existe um DNA mesmo da alimentação, porque quando você fala tanto com as crianças que são descendentes dos nordestinos e nortistas nas favelas do Rio, quanto os próprios jovens. Toda vez que você vai mexer com alimento ancestral é a mesma coisa que mexer com leite da mãe, aquilo tem uma força muito grande. Pra dar um exemplo concreto. Nas oficinas das crianças, a coisa que elas mais gostam de fazer e levantam o bracinho assim pra falar é que elas têm as suas histórias pra contar, que têm um avó que trabalhava com farinha, que têm um tio que tem uma casa de farinha, que elas pessoalmente já visitaram. (...) Na verdade, é como se fosse uma riqueza que elas têm e que ninguém vê e que, a partir do momento que você mostra e que você diz: 'olha como é que é bonito, olha como é que é gostoso, olha como é que é bom', elas ficam muito orgulhosas daquilo."

(Trilha)

Fundado nos anos 80 na Itália pelo ativista alimentar Carlos Petrini, o Slow Food foi marcado, no início, por manifestações contra a abertura de um McDonald's na Piazza di Spagna, no coração de Roma.

Hoje o resgate da herança alimentar proposto pelo movimento está bastante relacionado à preservação de espécies vegetais e animais.

Para a consultora de hotéis e restaurantes Heloísa Mader, fundadora de um grupo de convivência Slow em São Paulo, o Convivium São Paulo, a defesa da biodiversidade deve ser o principal mote do movimento.

"Eu acho que o movimento precisa ser divulgado como um movimento pela biodiversidade, e não unicamente um contraponto de comer devagar, como ele foi interpretado. Eu acho que ainda precisamos combater um pouco mais essa conotação, o Slow Food não é um contraponto ao fast food. O Slow Food é realmente um movimento pela biodiversidade, isso a gente tem no Brasil. Basta só informar e conhecer e levantar uma bandeirinha, que não faz mal a ninguém."

O próprio apoio do Slow Food a comunidades locais que produzem alimentos sustentáveis e de qualidade ajuda nesse sentido, segundo a líder do Convivium Cerrado, Roberta Marins de Sá.

"Aqui, por exemplo, o pequi a gente indica para comunidades que trabalham com manejo, que são agricultores familiares que fazem o manejo, ou seja, protegem, por exemplo, o pequi, protegem uma área, fazem o manejo, colhem um número certo de frutas, deixam para os animais, mantêm a área do cerrado. (...) A mesma coisa o baru. Então, você valorizando, você evita que essas árvores, por exemplo, que os baruzeiros sejam derrubados porque vale mais o baruzeiro em pé, produzindo castanha, do que cortado para produzir soja naquela área."

(Trilha)

No contato com os produtores e o ambiente, os adeptos do Slow Food acabam levando esses valores para diferentes aspectos da vida pessoal e profissional.

É o caso do empresário de turismo Arnaldo Adnet, do Rio de Janeiro, associado ao Slow Food desde 2001.

"O nome da minha empresa é o meu nome, Adnet, e Slow Travel, que indica qual é minha filosofia de trabalho. (...) O que eu faço é um processo em que encontro meu cliente, a gente vai tentar chegar a um acordo, elaborar o roteiro de viagem dele sob medida, procurando considerar as características culturais mais autênticas do destino que ele está visitando, procurando valorizar um aproveitamento mais inteligente, mais comprometido com essas raízes culturais de cada destino. Sem fazer viagens desnecessárias, deslocamentos grandes, desnecessários, que têm um impacto ambiental e cultural também."

Os associados ao Slow Food encontram no movimento um espaço de convivência e troca de experiências.

Em Brasília, os integrantes do Convivium Cerrado se reúnem toda primeira quinta-feira do mês, no restaurante Panelinha. Membro do grupo, o consultor gastronômico Moisés Nepomuceno recomenda a experiência.

"A Quinta Slow é um momento de reunião, debate dos convivas e também da possibilidade de estarmos agregando novos associados, uma forma de estarmos levando novas pessoas a virem se associar ao Slow Food. Pessoas que, às vezes, estão passando por aqui e, de repente, tomem contato com o movimento e queiram se associar, estar aberto à associação. Foi essa possibilidade de estarmos nos reunindo para podermos formular propostas, sistemática de trabalho, o que podemos conceber como próxima etapa, seja ela cultural, gastrômica, apenas de convivência, enfim, fazer aquilo que o convivium pede: convivência."

No Brasil, o Slow Food conta com cerca de 800 associados, reunidos em mais de 20 grupos. Para saber mais sobre o movimento e se existe algum convivium perto de você, basta entrar no site www.slowfoodbrasil.com. Slow se escreve S-L-O-W e food, F-O-O-D.

De Brasília, Ana Raquel Macedo

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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