Rádio Câmara

Reportagem Especial

A nova cara da Aids tem diminuído a prevenção. (06'03")

  • A nova cara da Aids tem diminuído a prevenção. (06'03")

O sucesso dos medicamentos antirretrovirais, usados no tratamento da Aids, pode ter um efeito colateral perigoso: o aumento do comportamento de risco. Lucinha Araújo trabalha com soropositivos há 20 anos, desde que perdeu seu único filho para a doença. À frente da Sociedade Viva Cazuza, ela percebe que a nova cara da Aids tem levado as pessoas a pararem de se prevenir.

"Esses remédios novos, por exemplo, quando o Cazuza estava doente só existia o AZT, mais nada. Hoje em dia já tem 20 diferentes tipos de antirretrovirais. O que aconteceu: mudou a cara das pessoas com AIDS. Você vem aqui, você vê minhas crianças e eu duvido que você aponte alguma na rua se você não souber que eles moram aqui, todas têm aparência saudável. Toda ação tem uma reação. O que estava acontecendo, as pessoas voltaram a transar sem camisinha. Eu fico impressionada com isso. "Ah, mas ele era tão bonito, uma cara tão saudável, então eu não pedi pra usar camisinha". Aí que mora o perigo"

A eficácia dos remédios aumentou muito nos últimos anos, mas o infectologista Esper Kallas lembra que o tratamento não é simples e é para o resto da vida.

"Embora a gente tenha tido grandes avanços no tratamento da infecção pelo vírus HIV, essas pessoas ainda têm que tomar o remédio pro resto da vida, esses remédios em alguns casos podem levar a efeitos colaterais, muitas dessas pessoas têm que se habituar no seu dia a dia a tomar as medicações nos horários corretos e mais do que isso, isso tem um custo pro sistema de saúde, além da possibilidade da pessoa passar pra outro e a gente ir perpetuando ou aumentando essa epidemia"

Silma Araújo, de 35 anos, confirma as dificuldades do tratamento. Infectada pelo ex-marido, ela toma o coquetel desde 1996.

"Eu tomei todos os esquemas, fora a injeção, que essa aí eu não tenho coragem de encarar ela não. Mas esquema de comprimido, esse que eu tomo é o último. Hoje eu estou com um coquetel que agride, mas não agride tanto, os outros me detonavam. Esse me dá ansia, me dá enjoo, perco apetite, eu perco a vontade de tudo, quero mais ficar na cama, mas é menos agressivo do que o outro. - O outro ainda era pior? - Era pior. O outro eu não me alimentava, não comia, vomitava tudo que eu comia. Nossa, o DDI então, passei mal com DDI. Tem um outro que te dá alucinação. Menina do céu! Eu não dormia, eu passava a noite inteira vendo bicho, Deus me livre! É uns remédios que eu não quero tomar nunca mais, se Deus quiser!"

Os efeitos colaterais do tratamento aumentam as preocupações de Silma não só com a sua saúde. É que ela recebeu a notícia de que era HIV positivo logo depois do parto de sua terceira filha. Silma diz ter perdoado seu ex-marido, mas lamenta diariamente que a menina, hoje com 14 anos, também tenha sido contaminada.

"Dá muita raiva, não por mim, mas pela minha filha. Se ele tivesse me avisado, eu teria evitado ou teria feito o tratamento, se bem que na época não existia o tratamento para mãe que estava gestante. - Tua filha tem que idade? 14. - Ela toma remédio também? Quando ela começou a adoecer, há uns seis, sete meses, eles passaram coquetel para ela, até então ela não tomava. Eu evitei porque eu acho assim, o organismo da gente vai ficando debilitado com a quantidade de remédio, porque você toma muito remédio e vai mudando o esquema, porque se aquele não faz efeito, aí você tem que estar mudando sempre o esquema. Então eu evitei ao máximo que ela tomasse o coquetel. Aí, quando ela precisou mesmo, foi que a médica passou e agora ela toma, ela toma mais comprimido do que eu"

Como disse nossa personagem, na época da sua última gravidez os tratamentos eram limitados. Mas hoje provavelmente a filha de Silma não teria o vírus. Segundo o infectologista da Universidade de São Paulo, Esper Kallas, cada vez mais os novos remédios têm permitido que os soropositivos não precisem deixar de lado sonhos como o de casar e ter filhos.

"Toda mãe que é infectada pelo HIV tem o potencial de transmitir o vírus pro neném durante a gestação ou no momento do parto. Mas a gente sabe que na esmagadora maioria das vezes é no momento do parto. Quando você analisa um grupo de mulheres grávidas que têm HIV, se a gente não faz nada, cerca de 1/3 pode transmitir o vírus. Agora felizmente a gente aprendeu que se a gente consegue fazer a mulher chegar no momento do parto com uma carga viral indetectável, essa chance de transmissão cai de 1/3 para menos de 1%. Essa chance é tão pequena que se o pré-natal é feito de forma adequada, se ela chega no momento do parto com carga viral indetectável e o neném ao nascer toma remédios contra o HIV, que hoje em dia as mulheres que vivem com o HIV e que planejam engravidar podem fazer isso com a devida orientação do médico"

Vale lembrar que as mães soropositivas não devem amamentar, pois o HIV pode ser transmitido pelo leite. Alguns estados, como São Paulo, fornecem leite em pó para bebês de soropositivas. Tramita na Câmara projeto que torna essa distribuição obrigatória em todo o país, durante os dois primeiros anos de vida da criança. A proposta já foi aprovada pelo Senado.

De Brasília, Mônica Montenegro

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