Rádio Câmara

Reportagem Especial

As formas de tratamento (07'32")

  • As formas de tratamento (07'32")

TEC: Trecho de obra de Wagner...

TEC: “Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar”. Fernando Pessoa.

Ouvir música para não pensar na dor. Segundo a enfermeira Eliseth Leão, da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, essa é uma estratégia eficiente.

Em sua pesquisa de doutorado, ela percebeu que a mudança de foco proporcionada pela música ajuda a aliviar a dor. Mas a distração não é o único mecanismo que contribui para a melhora.

"Pacientes ouviam essa música e, além do mecanismo de alteração de percepção do foco da dor, que você tira do foco da dor e passa para atenção num outro estímulo, que é a música, o que a gente percebia é que ele tinha uma vivência simbólica através dessa melodia que ele escutava e acabava tendo uma liberação de emoções, que, ao final de toda uma experiência que é bastante complexa, ele acabava referindo melhora da dor."

Em outro projeto, com apresentações ao vivo de MPB, em que os pacientes também podiam cantar, foi possível observar uma mudança de estados de depressão, ansiedade e angústia para estados de alegria, paz e tranquilidade, com consequente alívio da dor. Nesse caso, explica Eliseth, o envolvimento dos pacientes teve parte no resultado positivo.

"Aí você tem a própria função da arte, quando você traz para as pessoas uma função de expressão, de criatividade. Então, para alguém que está hospitalizado e que está vivenciando um momento que é muito delicado, quando você traz esse resgate do saudável que existe nesse indivíduo, você coloca ele em melhores condições para responder ao tratamento."

Segundo o médico e coordenador científico da ONG Aliviador, João Augusto Figueiró, técnicas que antes eram consideradas alternativas hoje estão incorporadas na Medicina, como a acupuntura e a homeopatia.

A Medicina tem sido, portanto, receptiva à ajuda de outras fontes, como a música e a fé.

"A fé é um fator favorável no tratamento da dor e das condições médicas de um modo geral. Sempre que a fé puder ser bem empregada e não for explorada, como muitas vezes é, nós achamos que é um complemento bastante interessante no tratamento."

Existem vários fatores que contribuem para o surgimento e a manutenção da dor e eles estão relacionados a componentes físicos, emocionais e mentais.

Cada pessoa desenvolve um padrão individual do quadro de dor, e instrumentos de avaliação podem ser utilizados para medir qual dimensão está mais afetada no indivíduo.

Com esse perfil, explica a enfermeira Eliseth Leão, é possível saber quais terapias serão mais indicadas, dentro de uma perspectiva multidisciplinar.

Portanto, além das opções farmacológicas e cirúrgicas, que buscarão inibir a parte física da dor, podem ser necessárias diversas abordagens, como a psicológica, a fisioterápica ou a educativa, para municiar o paciente de recursos para enfrentar a dor.

Segundo o coordenador e médico do Centro de Tratamento Intensivo da Dor no Rio de Janeiro, José Ribamar Moreno, um dos métodos disponíveis são as técnicas de enfrentamento, usadas para treinar a capacidade do paciente de bloquear a dor.

"A gente vê em vários filmes na Índia, por exemplo, pessoas com alfinetes na pele sem sentir dor nenhuma. Até com lança, passando através da pele sem sentir dor nenhuma. Porque aquelas pessoas meditam, então elas treinam a capacidade de bloquear a dor. O cérebro dela produz uma quantidade enorme de analgésicos e bloqueia a dor. Então, elas são, digamos assim, de certa forma, até imunes à dor. Então, é uma capacidade que o ser humano tem que é treinável."

Esse controle total da dor demanda anos de treinamento e disciplina, mas, para o paciente comum, a proposta das técnicas de enfrentamento é fazer com que o paciente dê novos significados à dor, reduzindo seu sofrimento.

Para tanto, o médico João Augusto Figueiró explica que o paciente precisa conhecer sua condição dolorosa, os tratamentos disponíveis, as expectativas realísticas de melhora e os cuidados para evitar condições que são desencadeantes ou agravantes da dor.

E a atividade física, segundo José Ribamar Moreno, pode ter resultados positivos no combate à dor.

"A melhora da capacidade aeróbica, melhora da capacidade que o ser humano tem de transformar o oxigênio da atmosfera em energia aumenta o funcionamento do cérebro e aumenta também o funcionamento do nosso sistema de bloqueio da dor, que fica em áreas especializadas do cérebro."

O sedentarismo e o tabagismo, por sua vez, podem diminuir a eficiência do sistema analgésico interno. Esses são fatores que tornam a pessoa mais vulnerável à dor, explica José Ribamar.

Rachel Formiga não fuma, nem bebe. Mas, aos 30 anos, desenvolveu uma enxaqueca de origem hormonal. Demorou dez anos para procurar ajuda que resolvesse definitivamente o problema.

"Fui deixando, fui deixando, neste ano que resolvi realmente tratar. Porque sempre tem uma série de exames para você fazer e eu nunca tinha tempo para fazer aquela bateria de exames todos. Aí você vai empurrando, vai empurrando, mas aí chega um ponto que você não aguenta mais."

O risco de ignorar a dor, esse sinal biológico de que alguma coisa não vai bem no nosso organismo, é que um quadro de dor inicialmente pequeno pode se tornar crônico se não tratado. E o tratamento de dor crônica, segundo a enfermeira Eliseth Leão, é sempre mais demorado e mais custoso.

"Existem alterações no seu sistema nervoso, a plasticidade do seu sistema nervoso central vai ajudar a ficar mantendo essa dor. Então, é melhor investigar e remover a causa, sempre que for possível. A dor que preocupa é aquela que te tira a função. Eu acordei com uma cefaleia hoje, tá, não tem problema nenhum, estou com um dor de cabeça. Agora, se eu acordar com uma dor de cabeça todo dia, durante vários dias, tem um sinal de alerta aí que meu corpo está dando que eu preciso procurar um profissional especializado para ver o que está acontecendo."

A regra geral, portanto, é a seguinte: ao sentir dor, procure um médico generalista para definir o diagnóstico e tentar resolver o problema. Se não houver sucesso, busque uma clínica especializada no tratamento da dor.

No site da Sociedade Brasileira para Estudos da Dor, por exemplo, são encontrados endereços de centros especializados de 17 capitais brasileiras. Para conferir, acesse dor.org.br.

De Brasília, Verônica Lima.

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