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Reportagem Especial

Elementos da dor: físicos, mentais, emocionais (6'39")

  • Elementos da dor: físicos, mentais, emocionais (6'39")

A dor é um alerta. Um indicativo de que algo não vai bem no nosso organismo. Em geral, buscamos a causa, a tratamos e pronto: a dor passa. Mas e se não for possível eliminar a causa?

Há 10 anos, Rachel Formiga começou a ter enxaqueca relacionada ao ciclo menstrual. Uma vez por mês, sofria por um dia inteiro com as fortes dores.

"No meu caso, a enxaqueca é a única coisa que me tira, assim, que me faz parar tudo, que me deixa de cama. Fico em casa, sem condição de nada. (...) Náusea, muita, muita mesmo, aquela ânsia de vômito, horrível. Claridade, barulho, tudo, tudo incomoda. O humor já nem existia mais, né?"

Segundo o coordenador e médico do Centro de Tratamento Intensivo da Dor no Rio de Janeiro, José Ribamar Moreno, a dor persistente pode gerar alterações mentais, dificuldades de relacionamento, de trabalho e conjugais.

Isso porque a dor crônica representa um estresse muito intenso na vida da pessoa, o que tende a desorganizá-la mental, emocional e socialmente.

Rachel resolveu o problema interrompendo a menstruação com remédios. Mas a causa da dor não foi eliminada.

Como explica o médico e coordenador científico da ONG Aliviador, João Augusto Figueiró, a enxaqueca decorre de uma alteração hereditária e, mesmo quando a pessoa está fora da crise dolorosa, a disposição genética continua existindo.

E para dar qualidade de vida a pacientes com doenças não curáveis, que poderão viver muitos anos com essas condições, surgiu o ramo da Medicina chamado de cuidados paliativos.

O que se busca é tratar a dor e outros sintomas que acompanham as doenças incuráveis, como náusea, desidratação, depressão e alterações do sono, permitindo ao paciente ter mais qualidade de vida. É o que afirma o médico João Augusto.

"E os cuidados paliativos não se referem somente aos sintomas físicos, também aos sintomas psíquicos e às manifestações sociais dessa doença incurável e também às manifestações e os cuidados espirituais. E não se restringem ao tratamento da pessoa que tem a doença, mas também da família, dos cuidadores e da equipe de saúde."

E é por isso que a área de cuidados paliativos tem sido muito ativa no controle da dor em pacientes terminais, afirma a enfermeira Eliseth Leão, da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor.

"É um indivíduo que a gente vai percebendo, que além do medo da dor, ele tem que enfrentar sua própria finitude. Existe o que a gente chama de paciente terminal, paciente com a dor do câncer, que é a dor total. Ele sente que inclusive a existência dele está ameaçada. (...) Um dos principais sintomas que você tem para controlar é a dor nesse momento terminal, mas não é só isso. É dar o suporte e a sustentação para que esse indivíduo vá até o seu último minuto de vida com a melhor qualidade de vida possível."

Outro tipo de paciente que pode ser beneficiado pelos cuidados paliativos é a vítima de acidentes, que, muitas vezes, terá que viver com dores intensas e difíceis de ser controladas.

Eliseth Leão explica que cadeirantes, por exemplo, tendem a resistir ao tratamento da dor, pois, com ela, vem a esperança de voltar a andar.

"Isso não é real porque se ele teve uma lesão total, isso não vai acontecer. Mas a dor que ele sente é uma coisa que resgata para ele algum tipo de sensibilidade. Então, eles acabam ficando complacentes com sua própria dor, porque eles têm ali um estímulo que para eles é melhor do que estar totalmente inerte."

Com esse exemplo, Eliseth mostra que a dor tem componentes que não são apenas físicos. As emoções do paciente e a forma como ele interpreta a sensação dolorosa também contribuem para a formação do seu quadro de dor.

"Eu posso ter a mesma dor que você e reagir de uma forma completamente diferente na forma como eu avalio isso. Para mim, pode ser uma tragédia imensa e para você pode não ser."

Da mesma forma, explica o médico João Augusto, sistemas nervosos de diferentes pessoas reagem de maneiras diferentes a estímulos de igual intensidade.

Uma falha na área do cérebro especializada em bloquear a dor, por exemplo, pode provocar uma sensação de dor muito maior do que a esperada para o quadro clínico apresentado pelo paciente.

Essa percepção da existência de componentes físicos, emocionais e mentais no quadro de dor provocou o desenvolvimento de uma nova especialidade, chamada de Medicina da Dor, que busca avaliar não só o corpo do paciente, mas também sua mente e o ambiente em que vive, como explica o médico José Ribamar.

"A gente tem a chamada abordagem integral, você aborda os aspectos de diagnóstico, dentro do corpo da pessoa, mas os aspectos mentais, que fazem a pessoa interagir do ponto de vista de usar a inteligência, interagir do ponto de vista de usar a afetividade e o lado emocional e os aspectos da relação dela com o ambiente. É muito comum, por exemplo, quem tem dor piorar com o estresse. Quem tem dor piorar com uma discussão, piorar com problema conjugal, piorar com a perda do emprego. É a chamada relação do ser humano com o meio ambiente."

Segundo José Ribamar, de 20% a 30% da população brasileira têm dor crônica. E pessoas que têm doenças não curáveis poderão viver muitos anos com dor. Portanto, é importante saber que a Medicina busca novos caminhos para enfrentar esse problema e ajudar esses pacientes a levar uma vida produtiva, saudável e sem dor. Na próxima reportagem desta série, você vai conhecer alguns desses tratamentos.

De Brasília, Verônica Lima.

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