Rádio Câmara

Reportagem Especial

Pragas urbanas: as ameaças trazidas pelos visitantes indesejados

  • Pragas urbanas: as ameaças trazidas pelos visitantes indesejados (bloco 1)

  • Pragas urbanas: como manter os ratos a distância (bloco 2)

  • Pragas urbanas: os riscos das formigas e dos cupins (bloco 3)

  • Pragas urbanas: pombos e urubus, vizinhos incômodos e perigosos (bloco 4)

  • Pragas urbanas: dicas para evitar a presença de escorpiões e morcegos (bloco 5)

Ratos, cobras, morcegos, escorpiões, baratas... as pragas urbanas vivem à espreita de nossas casas. Na primeira das cinco reportagens de Alexandre Pôrto sobre o tema, você vai saber quais são os principais visitantes indesejados e como evitar os riscos trazidos por eles.

TEXTO

O médico Gilberto Cabral não aguentava mais tanta formiga na cozinha. O empresário Miguel Saliba subiu na laje de casa e tomou o maior susto com a quantidade de morcegos que encontrou. O síndico Marcos Burti teve problemas com ratos e cupins. O também síndico Roberto Santos não sabe mais o que fazer para se ver livre de tantos pombos na vizinhança onde mora. A verdade é que morar numa cidade está cada vez mais longe de garantir distância desses bichos indesejáveis.

"Uma barata na cozinha/Tem um rato no sofá/Deu cupim atrás do quadro/Pulgas pulam sem parar/ Olha a fila de formigas/Moscas em todo lugar/Traças roendo a roupa/Ácaro faz espirrar/ Brocas atacando os móveis/Parece não acabar/Grãos cobertos de carunchos/Onde isso vai parar?"

Essa música faz parte de um DVD que tenta conscientizar a população sobre a importância do controle das chamadas pragas urbanas.

A obra foi produzida pelo Instituto Biológico da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo em parceria com a Fundag, Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola.

Mas o que a gente pode considerar praga urbana? Quem responde é a pesquisadora científica do próprio Instituto Biológico Ana Eugênia de Carvalho.

"São aquelas que ocasionam danos aos alimentos armazenados; aquelas espécies que ferroam (por exemplo: formiga, abelha, vespa) e que podem causar algum tipo de acidente, chegando até a um choque anafilático, até com morte; aquelas espécies que contaminam o alimento, porque são vetores mecânicos de bactérias, de fungos, e por contaminarem o alimento causam danos à saúde do homem; aquelas que ocorrem nos hospitais, porque também frequentam locais limpos e podem transferir então essas bactérias e esses fungos. Aquelas que causam incômodo também podem ser consideradas pragas."

Ana Eugênia avisa logo: é impossível varrer do mapa as pragas urbanas. Mas ela garante que dá, sim, pra minimizar o problema.

"A gente consegue manter as populações de pragas a um nível tolerável ou a um nível próximo de zero. Porém, é muito difícil falar em extermínio, porque sempre há a reintrodução dessas pragas. Principalmente por meio do comércio. Com o aumento da globalização, com o transporte, com as pessoas viajando, as pragas também vêm junto. Então, o que a gente consegue é o manejo do ambiente, o cuidado com o lixo, o cuidado com a limpeza, o cuidado para não introduzir novas pragas nesse ambiente, porém dizer que nós conseguiremos exterminar, isso não é verdade."

"Se sujar e não limpar/Muitas pragas vão chegar/Na sua casa pra morar/Você que deixou entrar..."

E uma das pragas que mais dependem da sujeira e da falta de cuidado do homem para se proliferar são as baratas.

(Música: Uma Barata Chamada Kafka) "Encontrei uma barata na cozinha/Eu olhei pra ela/ Ela olhou para mim/ Ofereci a ela um pedaço de pudim/O curioso foi que ela ..../ Ela disse: sim!"

As baratas têm uma ótima capacidade de adaptação. Não é à toa que elas existem há mais de 300 milhões de anos. Duas espécies são principais no Brasil: a periplaneta americana, que é a barata de esgoto, e a blatella germanica, aquela barata de cozinha, conhecida também como francesinha ou alemãzinha.

Apesar de todo mundo ter repulsa e nojo delas, muita gente não tem noção das consequências que a presença desse inseto tão comum pode trazer. O biólogo Randy Baldresca, especialista em pragas urbanas, alerta: as baratas podem transmitir doenças graves.

"Uma série delas, como lepra, alergias, bronquite asmática, hepatite e por aí vai, já que são insetos que carregam no corpo até 18 tipos de bactérias patogênicas."

O vice-presidente da Associação Brasileira dos Controladores de Pragas Urbanas, Sérgio Bocalini, explica que os problemas mais comuns causados pelas baratas são digestivos.

"As baratas costumam frequentar locais sujos. Lixos, áreas onde são depositados materiais contaminados. E ao passar nesse ambiente, a barata possui no corpo dela uma série de cerdas e os micro-organismos acabam ficando aderidos ao corpo dela. E aí, quando ela passa sobre um alimento, ela deposita esses micro-organismos, onde ocorre a contaminação desse alimento e uma posterior ingestão pode vir a trazer esses transtornos gastrointestinais."

Sérgio Bocalini acrescenta que as baratas se tornaram pragas urbanas porque encontram nas cidades grande oferta de alimentos, locais para servir de abrigo e uma pequena quantidade de predadores. Outro fator importante é o poder de multiplicação desses insetos.

"Se a gente considerar a blatella germanica, cada vez que ela vai colocar ovos, coloca média de 35 a 40 ovos em cada composição. Mas consegue fazer isso 8 a 10 vezes no ano, então, a gente começa a ter um número grande de descendentes ficando. E esses descendentes começam a se reproduzir numa velocidade grande. Por aí já dá para ter uma ideia da quantidade de baratas que a gente teria em um ano."

Foi o que ocorreu em um condomínio de Brasília. Assim que assumiu a administração dos prédios, o primeiro desafio da síndica Maria Ozilene foi combater a infestação de baratas.

"Parecia mais um formigueiro do que baratas. Uma nuvem de baratas. Quando os moradores chegavam à noite no hall, na portaria, tinha um monte de barata. Teve uma outra que chegou em casa à noite, deixou a janela aberta, a barata entrou pela janela e aí ela subiu em cima da cama e chamou o porteiro para matar a barata porque ela não conseguia sair (risos)."

Apesar de provocar episódios engraçados para alguns, a infestação de baratas pode trazer outro problema sério, além das doenças. O alerta é do biólogo Randy Baldresca, sócio da empresa Biópolis, de São Paulo, especializada no controle de pragas urbanas.

"Um problema que vem sendo cada vez mais grave aqui em São Paulo é que, de acordo com o número de baratas hoje, o titius serrulatus, que é o escorpião amarelo, vem sendo encontrado cada vez com maior frequência nos lares, principalmente na zona sul paulistana. Porque a principal presa dos escorpiões são as baratas de esgoto."

De acordo com os especialistas, em casos mais graves de infestação, os inseticidas vendidos em supermercados têm uma eficácia limitada. Assim como remédios caseiros, como a folha de louro e o ácido bórico. Por isso, o ideal é sempre buscar ajuda especializada, já que algumas baratas conseguem desenvolver resistência a esses produtos e nem sempre as pessoas sabem o local certo para aplicar o veneno.

Uma pista de que as baratas estão precisando de controle é quando começam a aparecer durante o dia. Elas são animais de hábito noturno. As que saem de dia é porque já não estão conseguindo espaço no abrigo.

A periplaneta americana, ou barata de esgoto, gosta de locais com umidade - como jardins, registros de água, bueiros e caixas de gordura. Já a blatella germanica fica principalmente na cozinha ou próxima a locais com oferta de alimentos.

O biólogo Sérgio Bocalini destaca a importância de adotar certos cuidados para não atrair esses insetos.

"Como é prática do ser humano se alimentar durante o trabalho, sobre o computador ou no sofá vendo TV, começam a cair migalhas naquele ambiente, que vão se espalhando e viram fonte de alimentação e atrativos para as baratas. Quanto mais limpo estiver o ambiente, quanto menos resíduos estiver ali presente, com certeza teremos quantidade menor de baratas. E também observar os locais de abrigo. Então, frestas nas paredes precisam ser vedadas, rejuntadas para retirar uma fonte de abrigo. Rodo na porta também funciona muito bem para evitar que as que estão do lado de fora entrem e também velar janelas nos locais de alta incidência, principalmente nas épocas mais quentes do ano, vai ajudar bastante a não ter esse animal indesejável dentro das residências. Se o pessoal puder colocar um ralo sifonado, que é aquele que fica com um certo acúmulo de água - ou o ralo com sistema abre e fecha - vai evitar bastante a presença de baratas nesses ambientes."

Em menos de seis meses, a síndica Maria Ozilene resolveu o problema das baratas no condomínio que administra. Chamou empresa especializada, que fez uma dedetização geral e limpou as caixas de gordura. O serviço é repetido periodicamente. No entanto, ela diz que o mais difícil é conscientizar os moradores sobre a importância de fazer sua parte.

"Para que não joguem restos de gordura, alimento, óleo na pia, que desce pelo ralo abaixo e que vai comprometendo. E como ensacar o lixo adequadamente. O trabalho de conscientização é um pouco lento. Infelizmente, as pessoas não têm consciência."

Maria Ozilene diz ainda que os custos para prevenir a infestação de baratas não são altos e por isso puderam ser absorvidos na taxa normal do condomínio. Fica o bom exemplo para outros síndicos e moradores.

De Brasília, Alexandre Pôrto

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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