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Reportagem Especial

Infância e adolescência dos índios - Os problemas trazidos pela convivência além da aldeia (05'25")

  • Infância e adolescência dos índios - Os problemas trazidos pela convivência além da aldeia (05'25")

As crianças e jovens indígenas enfrentam o desafio de transitar entre dois mundos. De um lado, uma cultura tradicional que a sociedade atual julga e classifica. Do outro, o mundo da tecnologia e do consumo.

Samanta Juruna nasceu na tribo Xavante, no Mato Grosso, e fez faculdade no vizinho Mato Grosso do Sul, que é o estado com a segunda maior população indígena do Brasil. Lá, ela conta ter visto o preconceito diariamente.

"Eles não falam aquele indígena, aquele índio, falam aquele bugre, voltado para uma questão marginalizada. A criança e o jovem que já crescem dessa forma, isso causa um transtorno muito grande, um constrangimento muito grande."

Alcoolismo, drogas, o encantamento das cidades que seduzem e marginalizam ao mesmo tempo. Essa combinação resulta em um número elevadíssimo de suicídios dentro da população indígena.

Os dados são incertos, mas a Funasa estima que o índice de suicídios seja de duas até seis vezes maior do que na população não indígena. O desespero afeta muitos jovens, como destaca o deputado Ântônio Carlos Biffi, do PT do Mato Grosso do Sul.

"Ainda o suicídio indígena de crianças e jovens adolescentes é muito alto. Já teve bem pior no passado, há alguns anos atrás, hoje já diminuiu bastante, mas ainda é muito forte o suicídio entre a juventude indígena, porque não há perspectiva."

Durante reunião em Brasília sobre a situação das crianças e jovens indígenas, representantes de todas as regiões brasileiras destacaram o crescimento do alcoolismo, do uso de drogas e da prostituição.

São problemas que as tribos têm dificuldade de lidar, como relata Francisco Kaigang, da tribo Kaigang localizada na região Sul.

"Há um diálogo com a liderança, com a família. Se não está obtendo resultado, a gente busca parceria com o órgão que trabalha com a questão da saúde. Muitas vezes está tão forte que você tem que buscar esses mecanismos. Mas é muito difícil. O que a gente procura fazer, quando a gente não é atendido, a gente aciona o Ministério Público, parceiro fundamental para as nossas conquistas, para que esses problemas de tratamento do alcoolismo, de drogas, prostituição, para que o Estado brasileiro, na sua conjuntura de política, venha atender nossas demandas."

Francisco denuncia que há um jogo de empurra na questão da saúde indígena, onde os órgãos públicos não assumem a responsabilidade nas demandas do dia-a-dia.

A saúde indígena estava a cargo da Funasa, mas em 2010 houve a criação de uma secretaria dentro do Ministério da Saúde. O Ministério diz que só irá ter informações a partir de abril de 2011.

Francisco Kaigang também reconhece que os caciques falharam ao não encarar o crescimento do alcoolismo e do uso de drogas.

As crianças indígenas tem um índice de mortalidade bem maior do que as não indígenas. Problemas como desnutrição e pneumonia respondem por esse dado. Mas a proximidade com as cidades levou também problemas tipicamente urbanos, como diabetes e obesidade. Samanta Juruna analisa a mudança de hábitos alimentares.

"Antes era cultura tradicional: era a batata, a mandioca, o milho xavante, o feijão xavante, alimentos trazidos do próprio cerrado, que é onde nós, xavantes, estamos localizados. Devido ao contato, esses hábitos foram modificando. A questão do refrigerante, a própria alimentação com óleo, com açúcar, olhando desse lado é um ponto negativo que o contato trouxe para o meu povo."

Otoniel Guarany é professor e vereador no Mato Grosso do Sul, e fez um estudo sobre como a violência chega nas aldeias. Ele destaca que é preciso que todos os envolvidos assumam responsabilidades: a família, a comunidade, os caciques e os órgãos do governo. Para garantir o futuro dos grupos, cada vez mais o jovem precisa ser envolvido nos debates.

"Envolver ele da política social da comunidade. E outra: envolver ele da política social intercultural, porque aí ele vai entender a participação dele, vai entender o que é a luta, a importância é o que futuro dele está aí, porque o futuro está aqui presente. E a gente sempre fala assim: por que o passado fez isso e por que hoje acontece? E como vai fazer futuramente?"

2010 marcou o primeiro ano onde um evento nacional reuniu lideranças e jovens para debater o futuro das crianças indígenas. A conclusão do encontro foi que os problemas são complexos e que esse é apenas o início dos debates.

De Brasília, Daniele Lessa

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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