Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Trânsito - Crescimento da frota e solução individual (06'43")

  • Especial Trânsito - Crescimento da frota e solução individual (06'43")

O Brasil tem quase 30 milhões de veículos. Esse número é três vezes maior do que há apenas 20 anos. Nos últimos anos, são vendidos em média dois milhões de automóveis por ano. Ao mesmo tempo, a malha viária se mantém praticamente intacta: 1.600.000 quilômetros de rodovias.

O trânsito das grandes cidades aponta: o Brasil não está preparado para o aumento no número de veículos.

Vamos pegar como exemplo a capital do país. No Distrito Federal, a frota dobrou em dez anos. Atualmente, o DF conta com 1.163.000 veículos, o que leva à insólita constatação de que toda a população do DF cabe dentro dos carros. Diariamente, são emplacados 250 carros. Foram 110.000 novos emplacamentos de 2009 para 2010.

Em Blumenau, Santa Catarina, a frota aumentou 70% em sete anos. De 2008 para 2009, a frota de Fortaleza aumentou quase 10%. Falar do trânsito no Brasil é se afogar em números. O especialista em transportes urbano, Paulo Cesar Marques da Silva, do Departamento de engenharia civil da UnB, aponta uma solução óbvia, porém complicada.

"As viagens de mais longo trajeto não podem ser baseadas no modelo da motorização individual. Cada um tem que levar o seu carro pra passear cada vez que sai de casa, isso não pode acontecer. A gente precisa mudar essa forma de experimentar a cidade. A gente precisa ter mais contato com a cidade. O que pode ser feito a pé deve ser feito a pé. O poder público tem o papel importante aí de criar as situações de segurança, de conforto, de conveniência".

A reportagem especial vai apresentar soluções viárias que atenuam o problema do trânsito. Mas não hoje. Hoje o programa vai falar sobre a decisão individual de, como diz Paulo César, mudar a forma de experimentar a cidade. Temos dois exemplos de gente que faz isso.

Experimentar a cidade é o que faz Aurelindo de Souza todo santo dia. Ele sai de casa, em Planaltina, cidade do Distrito Federal, de manhãzinha e vai de bicicleta para o trabalho, uma loja de material de construção no Lago Norte, bairro de Brasília. Aurelindo faz isso há nove anos e não tem medo de acidentes.

"A gente arrisca porque quem viaja no dia a dia sempre... se tiver que acontecer vai acontecer, mas a gente não pode parar porque tem que trabalhar pra sobreviver, né?"

São 46 quilômetros na ida e na volta. Duas maratonas diárias só na pedalada. O trajeto dura duas horas e o trajeto da volta é mais duro. Quase todo em subida.

Aurelindo de Souza afirma que o principal perigo que ele enfrenta é a falta de educação dos motoristas.

"Porque eu já vi tanta coisa errada na pista de tanto que eu ando, passagem proibida, retorno na contramão, então você precisa andar com cuidado, muitos ciclistas andam para lá de bicicleta e a gente podia andar mais tranquilo, é só isso que eu peço, o resto é com Deus e pronto."

Quer outro exemplo menos... radical?

Karina Zago. Ela trabalha no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, tem carro em casa, mas simplesmente prefere ir pro trabalho de bicicleta.

São oito quilômetros de distância que ela leva 20 minutos para ir e de 30 a 40 pra voltar. No horário de pico, ir de carro às vezes demora até mais. Quais são os perigos nesse trajeto, Karina?

"Você tem que dividir a pista com o carro e tem que dividir a pista com o pedestre, que é meia pista, que é a calçada, porque às vezes eu tenho que subir com a bicicleta porque o meio-fio é alto, né?"

Fazendo todo dia esse caminho não há como não passar por alguma situação de risco.

"Saindo do parque para entrar no Eixo Monumental, o cara saindo do posto, eu fui e ele foi. Eu caí, mas não me machuquei, ele pediu desculpas por não ter me visto mesmo."

Mas há algo curioso. Por incrível que pareça, com disciplina e dedicação, a pessoa adquire segurança no que faz. Karina faz isso há quase quatro anos.

Para qualquer pessoa, trabalhar diariamente de bicicleta é um risco. A surpresa: diante da pergunta sobre a segurança do meio de transporte, Karina ri.

"Eu acho que depende da personalidade da pessoa. Quem for meio paranóico vai achar complicado, inseguro. Se você for no caminho certo, fazendo a coisa certinha, equipado, não competindo mesmo com os carros, já que ninguém respeita, não é inseguro não, é até bem seguro. Pelo menos pra mim."

Mas a sensação de insegurança procede. Nem tanto pelo perigo de uma bicicleta. O ciclista pode tomar todos os cuidados, mas ele trafega no mesmo espaço de veículos motorizados, mais pesados, comandados por motoristas mal-preparados.

Um impacto entre os dois veículos é covardia. E as estatísticas confirmam. Segundo dados de 2007 da Secretaria de Vigilância em Saúde, apesar de serem uma pequeníssima minoria no trânsito das cidades, de cada cinco mortos no trânsito, um é ciclista.

Pode-se dizer que, no Brasil, a população está em uma guerra pela vida. Diariamente motoristas, motociclistas, pedestres entram nessa batalha que resulta em um elevado número de vítimas. Segundo o PNAD, Pesquisa Nacional de Domicílios de 2008, de cada 200 brasileiros, cinco se envolveram em acidentes de trânsito no ano. Se imaginarmos os que quase se envolveram, o número se multiplica.

De Brasília, Luiz Cláudio Canuto

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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