Rádio Câmara

Reportagem Especial

Abuso sexual - O papel da mídia (05'31")

  • Abuso sexual - O papel da mídia (05'31")

O Brasil viu chocado pela televisão notícias sobre o estupro e o assassinato de duas meninas que supostamente usavam as chamadas pulseiras do sexo.

A imprensa acompanhou de perto o caso, transformou as pulseirinhas em vilãs e expôs as crianças que as usam, sabendo ou não o que isso significa.

O pai de uma das crianças, que não quis ser identificado, disse que ficou chateado com o tratamento sensacionalista dado pela imprensa ao caso e aos familiares.

"Eu falei que não tinha condições de falar com eles naquele momento. Não havia condições de falar com eles, eles me cercaram, lá no IML, e fazendo muitas perguntas, mas eu não pude responder, até porque não podia filmar lá, porque eu estava muito abalado, eu fui pego de surpresa, você nunca pensa que isso vai acontecer com você, eu acho que ali eles se aproveitaram da situação para publicar isso. Até porque, o caso foi muito comentado, apareceu na televisão, apareceu nos jornais de fora, entendeu? Aí pega você de surpresa."

Casos de exagero da mídia, como o que sofreu esse pai, são comuns, apesar de serem reprováveis do ponto de vista ético e, às vezes virarem alvo de processos judiciais.

Por causa da penetração da imprensa na sociedade, o tratamento incorreto de casos delicados como o dessas meninas traz prejuízos para as famílias e até para as investigações. Já, por outro lado, esse alcance da mídia pode ser usado como uma forma de combate à violência sexual por meio de campanhas preventivas e reportagens esclarecedoras.

Rodolfo Moura, assessor jurídico da Abert - Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, lembra que a realização de reportagens e programas específicos, que tratam o assunto com cuidado, são importantes para esclarecer a população.

"Nós acreditamos que a mídia tem desempenhado um papel importante nesse combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, tendo em vista que, regularmente, são produzidas uma série de matérias em programas jornalísticos abordando essa questão, e tentando chamar a atenção das autoridades e da sociedade em geral para a gravidade do problema."

Veet Vivarta, secretário executivo da ANDI, explicou que a cobertura da imprensa brasileira sobre o assunto não é perfeita, mas depois do estatuto da Criança e do Adolescente ganhou em qualidade e informação.

"Podemos dizer hoje que a imprensa brasileira é um ator importante. Ela está integrada nessa rede de entidades, de instâncias, de setores que vêm contribuindo para o enfrentamento desse problema no país. Há exemplos de reportagens individuais de muita qualidade, mas a média geral da cobertura tem méritos que também devem ser reconhecidos."

Joana Maranhão, nadadora que foi molestada sexualmente quando tinha apenas nove anos, levou quase dez anos para conseguir revelar publicamente seu trauma.

Ela aproveitou a grande exposição na mídia para alertar as pessoas sobre a violênca sexual contra crianças, muito comum mas pouco combatida. Mas fala que, mesmo com esse objetivo, é difícil lidar com a necessidade de manchetes sensacionalistas de parte da imprensa.

"Eu fiquei um pouco confusa, porque na época que meu caso veio à tona teve muita gente querendo transformar aquilo num melodrama, numa novela. ´Ó coitadinha! Ó, será que ela está falando a verdade? Será que ela está falando isso pra ter mídia?´ E, no fundo, o que eu quero é só que a minha história sirva de exemplo, eu quero mostrar para outras pessoas que eu passei por isso. Que hoje eu sou uma pessoa melhor também por isso e que existe vida após isso. Muita gente fala assim: ´Eu não consigo ser uma mulher como as outras, eu não consigo confiar meu filho a professor nenhum porque eu passei isso quando criança´. Você não pode desconfiar do mundo inteiro porque um doente fez isso."

Um exemplo de como fazer com que as reportagens sobre o tema sejam melhor sucedidas vem da ANDI. Para estimular a realização de matérias conscientes e responsáveis sobre o assunto, a instituição realiza todo ano um concurso que premia os melhores projetos de reportagem sobre abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes.

A ANDI premia os ganhadores com o patrocínio para a realização da matéria. O concurso já está em sua quinta edição.

De Brasília, Bruno Angrisano

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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